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De membro da URSS a celeiro de unicórnios: o nada óbvio mercado de startups da Lituânia

De Vinted a Hostinger, ecossistema lituano de €16 bilhões exporta startups globais e aposta no Brasil

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Menos de 40 anos após recuperar sua independência da União Soviética, em março de 1990, a Lituânia deixou de ser um país sem identidade econômica própria para se tornar um dos polos de tecnologia mais proeminentes da União Europeia.

Antes mesmo de a tecnologia ganhar escala, o país já havia aprendido a crescer olhando para fora. Com um mercado doméstico limitado, construiu sua base econômica sobre exportações, sobretudo as de serviços. A posição geográfica, entre os países nórdicos e a Europa Ocidental, ajudou a transformar a Lituânia em um hub regional de logística, com o transporte de mercadorias funcionando como um dos primeiros vetores de crescimento.

Na última década, porém, outro tipo de serviço passou a redesenhar o perfil da economia: tecnologia da informação. As exportações de serviços digitais e empresariais saltaram de cerca de 1 bilhão de euros para 10 bilhões de euros anuais em dez anos.

“Esse salto nos serviços de tecnologia e empresariais foi muito maior do que esperávamos. Nem nós, economistas, antecipávamos um crescimento tão rápido”, afirma Greta Ilekyté, economista do Swedbank, o principal banco do país. Embora a logística ainda responda por aproximadamente metade das exportações de serviços do país, o avanço da tecnologia mudou a natureza desse crescimento, prossegue a economista.

Diferentemente do transporte de cargas, o setor digital permite escalar receitas sem limites territoriais, com alto valor agregado e menor dependência de capital intensivo ou recursos naturais – uma combinação especialmente atraente para um país pequeno como a Lituânia.

A revolução promovida pelas startups na economia da Lituânia é o tema da segunda reportagem de uma série especial publicada nesta semana pelo InvestNews.

Com mais de mil startups ativas e cinco unicórnios, a Lituânia construiu um ecossistema que já captou quase 2 bilhões de euros em venture capital e hoje vale cerca de 16 bilhões de euros. A título de comparação, o Brasil soma 25 unicórnios, entre eles iFood, PicPay e Nubank, em um ecossistema avaliado em mais de US$ 100 bilhões.

‘Momento aha!’

Foi em meados da década de 2010 que surgiram as primeiras startups lituanas capazes de competir globalmente.

O caso mais emblemático – o “momento aha!”, nas palavras de Gintarė Verbickaitė, CEO da Unicorns Lithuania, associação que representa o ecossistema local – foi a ascensão da Vinted, plataforma de compra e venda de roupas usadas que se transformou no verdadeiro “momento fundador” da tecnologia lituana. Em novembro de 2019, a empresa foi avaliada em US$ 1 bilhão e se tornou o primeiro unicórnio do país.

“O sucesso da Vinted foi o primeiro grande ‘clique’ coletivo. Colocou na cabeça de todo mundo que era possível construir empresas globais a partir da Lituânia”, afirma Gintarė. Segundo a executiva, o impacto foi ao mesmo tempo psicológico e sistêmico. Desde sua criação, a Vinted, que foi uma das inspirações da brasileira Enjoei, já captou mais de 800 milhões de euros no mercado.

Vinted, o primeiro unicórnio da Lituânia (Divulgação)
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Pela primeira vez, ficou claro que o país podia crescer oferecendo e vendendo serviços para o mundo. A partir daí, vieram os efeitos em cascata: ex-funcionários fundando novas startups e uma mudança cultural profunda em relação ao empreendedorismo tecnológico.

Um traço que diferencia a Lituânia de outros centros de inovação europeus é a forma como muitas de suas empresas de tecnologia cresceram por lá, prossegue Gintaré. A escassez de capital nos estágios iniciais obrigou as startups locais a operar com geração de caixa desde cedo.

Em vez de depender de rodadas sucessivas de investimento, várias startups foram construídas em um modelo “revenue-driven” – ou seja, financiando o próprio crescimento com receita operacional e priorizando rentabilidade, eficiência e controle de custos.

O resultado foi o surgimento de companhias que poderiam atingir o status de unicórnio se optassem por captar capital externo, mas simplesmente não precisam fazê-lo. Essa lógica ajudou a formar um ecossistema menos dependente de venture capital e mais orientado à sustentabilidade dos negócios.

‘Ponto dos unicórnios’

Se a Vinted mostrou que startups lituanas podiam ganhar o mundo, a Tesonet foi o grupo local que ajudou a espalhar conhecimento e capital dentro do ecossistema lituano. No prédio do grupo, na capital Vilnius, uma placa brinca com essa identidade: ali funciona o “ponto de parada dos unicórnios”.

“Parada dos unicórnios”, em português: placa que está na entrada do escritório da Tesonet (InvestNews)

Fundada em 2008 pelos empresários Tomas Okmanas e Eimantas Sabaliauskas – amigos desde os tempos do mIRC, um popular programa de bate-papo da internet em meados dos anos 1990 –, a Tesonet operou por anos como um laboratório de tentativas. Foram dezenas de projetos lançados e abandonados até que um deles encontrasse tração global.

O ponto de inflexão veio com a criação da NordVPN, que deu origem à Nord Security, hoje um dos unicórnios lituanos. O produto surgiu inicialmente para resolver uma necessidade interna dos próprios fundadores, mas rapidamente encontrou demanda global, surfando a onda de preocupação crescente com a privacidade digital.

O fluxo de caixa gerado pelo negócio passou a financiar não apenas a expansão da Nord, mas também uma constelação de novas empresas e apostas estratégicas, transformando a Tesonet em um dos principais motores do ecossistema tecnológico do país.

Tomas Okmanas e Eimantas Sabaliauskas, fundadores da Tesonet (Divulgação)
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Segundo Gintarė, a Tesonet funciona como uma escola informal de empreendedores. “Quando você tem um caso de sucesso, ele não fica isolado. Ele cria ‘spillovers’ para outros setores e gera novos fundadores”, afirma.

“O que muda depois desses sucessos é o efeito em cadeia. As pessoas aprendem, ganham experiência e vão criar suas próprias empresas. O conhecimento começa a circular”, diz Greta, do Swedbank.

Impulsionando

Uma das empresas que passou a orbitar o ecossistema da Tesonet foi a Hostinger, provedora de hospedagem de sites que hoje figura entre as líderes de mercado no Brasil e tem clientes em mais de 150 países. 

A companhia não foi criada por Okmanas e Sabaliauskas, mas passou a integrar o universo do grupo em 2018, quando os fundadores da Tesonet entraram como investidores e apoiaram a aceleração do negócio.

Mais do que capital, a aproximação trouxe acesso a conhecimento, conexões e práticas de escala que ajudaram a Hostinger a estruturar sua expansão internacional — um movimento que refletia a lógica do ecossistema lituano: empresas crescendo em rede, compartilhando aprendizado e encurtando o caminho para mercados globais.

Mais do que capital, a aproximação trouxe acesso a conhecimento, conexões e práticas de escala que ajudaram a Hostinger a estruturar sua expansão internacional. “Quando você está cercado por empreendedores que já passaram por esse caminho, o aprendizado acelera. Você não precisa inventar tudo do zero”, afirma Daugirdas Jankus, CEO global da Hostinger.

Daugirdas Jankus, CEO da Hostinger (Divulgação)

A empresa chegou ao Brasil em 2014 para disputar espaço com concorrentes como Locaweb, HostGator, GoDaddy e Wix. Hoje, o país funciona, segundo Jankus, como um “teste de estresse” do modelo de negócios da companhia: um mercado grande, altamente competitivo, sensível a preço e com um público empreendedor numeroso.

“A gente vê no Brasil o mesmo impulso que tivemos no começo: pessoas com ideias, dispostas a assumir risco e a tentar construir algo próprio”, diz o CEO, ao explicar por que o país ganhou peso estratégico dentro da empresa.

Segundo dados apresentados pela própria companhia, o Brasil já é o segundo maior mercado da Hostinger em número de usuários e receita, atrás apenas da Índia, e responde por cerca de 15% de todos os sites hospedados globalmente – mais de 1,3 milhão de websites ativos no país.

Olhar para o Brasil

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Do ponto de vista da operação brasileira, o desafio não é demanda, é ampliar o alcance, segundo Rafael Hertel, country manager da Hostinger no Brasil. A marca é bem conhecida pelo público especializado, mas o desafio agora é aumentar a presença de pessoas que estão dando os primeiros passos no ambiente digital.

“A gente sempre foi muito forte no ‘fundo do funil’, com quem já empreende e entende de marketing digital. Agora o foco é aumentar o mercado potencial, falar com quem ainda está começando”, diz Hertel.

Esse movimento acontece em um momento em que o Brasil vive uma explosão de pequenos negócios digitais, impulsionada pela creator economy, por plataformas de venda de cursos e por profissionais autônomos que transformaram redes sociais em fonte de renda. Para esse público, ter presença online deixou de ser diferencial e virou infraestrutura básica.

A estratégia da Hostinger se traduz em duas frentes. A primeira é ampliar campanhas de awareness para disputar espaço no topo do funil, em um mercado dominado por marcas locais consolidadas.

A segunda é aprofundar a oferta para usuários mais avançados, com produtos como servidores virtuais e soluções em nuvem que permitem escalar negócios digitais sem exigir conhecimento técnico sofisticado.

O jornalista viajou à Lituânia a convite da Hostinger

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