Na carta aos acionistas divulgada junto com os resultados do primeiro trimestre, a empresa afirmou que o mercado brasileiro “não está apenas crescendo rápido. Está acelerando” e classificou o momento atual como uma oportunidade rara de ganho de participação em meio ao avanço da digitalização da região.
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A estratégia vem funcionando do ponto de vista operacional. O GMV (volume bruto de mercadorias) da operação brasileira cresceu 38% em moeda constante no trimestre, enquanto o número de itens vendidos disparou 56% na comparação anual. Já a base de compradores únicos avançou 32%, no ritmo mais forte em cinco anos.
Frete grátis
Por trás dessa aceleração está principalmente a decisão de reduzir o piso mínimo para frete grátis no Brasil — medida implementada em 2025 e tratada pela companhia como uma das iniciativas mais importantes de sua história recente.
Segundo o Mercado Livre, a mudança elevou conversão, frequência de compras, retenção e satisfação dos consumidores. A empresa afirma ainda que os clientes adquiridos após a mudança passaram a comprar mais produtos, em mais categorias, e com níveis de fidelidade superiores aos de usuários antigos.
O impacto aparece também no programa de assinaturas Meli+, cujo número de usuários cresceu 49% desde o terceiro trimestre do ano passado. Ao mesmo tempo, a companhia afirma que já conseguiu recuperar quase metade da pressão inicial sobre as margens provocada pelo aumento do subsídio ao frete, graças a ganhos de escala e eficiência logística.
Investidores
A aposta agressiva em crescimento, porém, segue cobrando seu preço no curto prazo — e incomodando investidores. As ações do Mercado Livre chegaram a cair 12,8% após a divulgação dos resultados, depois que o lucro veio abaixo das expectativas de Wall Street pelo quarto trimestre consecutivo, segundo dados compilados pela Bloomberg.
O lucro líquido da companhia somou US$ 417 milhões no primeiro trimestre, abaixo da projeção média de US$ 433 milhões. Já o lucro operacional caiu 20%, para US$ 611 milhões, enquanto a margem operacional recuou de 12,9% para 6,9%.
Já analistas do Safra destacaram que a receita veio 4% acima das estimativas do banco, puxada principalmente pelo desempenho mais forte do e-commerce. Segundo o relatório, o GMV ficou 6% acima da projeção da instituição, enquanto a taxa de comissão superou as expectativas em 55 pontos-base.
O Safra também destacou surpresa positiva na margem bruta, beneficiada por ganhos de escala logística e maior disciplina de preços. Por outro lado, as provisões para devedores duvidosos ficaram cerca de US$ 200 milhões acima do esperado, pressionando os resultados.
“Foi mais um trimestre de forte crescimento, mas com a mensagem negativa de que investimentos adicionais serão feitos nos próximos trimestres, o que deve continuar pressionando as margens no curto prazo”, escreveram os analistas.
Segundo o banco, a pressão sobre a rentabilidade veio principalmente da expansão acelerada da carteira de crédito e do aumento dos prazos dos empréstimos no Brasil.
Executivos deixaram claro que não pretendem mudar a estratégia tão cedo. “Estamos trocando lucros de curto prazo por geração de caixa no longo prazo”, afirmou Leandro Cuccioli, vice-presidente sênior de relações com investidores da companhia, em entrevista à Bloomberg. “Estamos criando uma base incrível para os próximos 10, 15 anos.”
Na carta aos acionistas, o tom foi o mesmo. “Quando seu negócio está se comportando dessa forma, acreditamos que a resposta correta não é colher resultados — é investir”, escreveu a empresa.
Além do frete grátis, o Mercado Livre vem acelerando investimentos em logística, crédito, inteligência artificial e varejo próprio no Brasil.
A operação logística da companhia já conta com mais de 50 centros de distribuição e responde por 55% das entregas da plataforma, após crescimento de 39% em um ano. A empresa afirma que continuará investindo “o quanto for necessário” para sustentar a expansão do marketplace.
Outro foco é a operação de varejo próprio, conhecida como 1P (first-party), em que o grupo compra produtos diretamente para revenda. O negócio movimentou quase US$ 5 bilhões nos últimos 12 meses e cresceu 69% no trimestre em moeda constante. A estratégia ajudou o Mercado Livre a ganhar escala principalmente em eletrônicos. Segundo a empresa, sua participação no mercado brasileiro de celulares triplicou em três anos, tornando a companhia líder na categoria.
Mercado Pago
O Mercado Pago também segue no centro da ofensiva brasileira. As receitas da divisão financeira cresceram 51%, para US$ 4 bilhões, enquanto a carteira total de crédito avançou 87%, para US$ 14,6 bilhões. O portfólio de cartões de crédito mais do que dobrou em um ano e alcançou US$ 6,6 bilhões.
A base de usuários ativos mensais da fintech chegou a 83 milhões, alta de 29%, enquanto os ativos sob gestão avançaram 77%, para quase US$ 20 bilhões.
A companhia também vem ampliando o uso de inteligência artificial em praticamente toda a operação. Entre as iniciativas estão um novo sistema de buscas baseado em grandes modelos de linguagem (LLMs), assistentes para vendedores, ferramentas de IA para logística e recursos financeiros integrados ao Open Finance.
Segundo o Mercado Livre, a nova busca baseada em IA já melhorou taxas de conversão e receitas de publicidade no Brasil e no México. A empresa também afirmou que distribuiu a ferramenta Claude Cowork para 31 mil funcionários e que os ganhos de produtividade permitirão manter o quadro de engenheiros praticamente estável em 2026, mesmo com a expansão acelerada do negócio.
Medicamentos e China
Durante o trimestre, a companhia iniciou um projeto piloto para venda de medicamentos na região metropolitana de São Paulo e ampliou sua operação internacional com a abertura do primeiro centro logístico na China, em um movimento voltado a fortalecer o comércio internacional da plataforma e ampliar relações diretas com fabricantes chineses.
No consolidado, o Mercado Livre registrou receita líquida e financeira de US$ 8,8 bilhões no primeiro trimestre, alta de 49% — o crescimento mais forte em quase quatro anos. O volume total de pagamentos do Mercado Pago avançou 50%, para US$ 87,2 bilhões, enquanto a base de compradores ativos chegou a 84 milhões.
