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Nem trajetória lendária salva: CEO da Adobe deixa o cargo sob pressão da IA

A Adobe, dona do Photoshop enfrenta dificuldades para atrair novos clientes diante do avanço de startups de IA, ao lado de rivais como Salesforce e Atlassian

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O presidente-executivo da Adobe, Shantanu Narayen, deixará o cargo no topo da gigante de software criativo em meio a um forte ceticismo sobre a capacidade da empresa de prosperar na era da inteligência artificial.

Narayen, que ocupou o cargo de CEO por 18 anos, permanecerá na função até que um sucessor seja nomeado, informou a Adobe em comunicado na última semana. O executivo de 62 anos continuará como presidente do conselho.

A mudança no comando “levanta questionamentos sobre a continuidade estratégica, as prioridades de alocação de capital e o ritmo de inovação”, disse Grace Harmon, analista da Emarketer, em um e-mail. “Os investidores provavelmente vão se concentrar em saber se a nova liderança manterá o equilíbrio entre execução disciplinada e investimentos agressivos em IA, especialmente à medida que a concorrência em IA criativa e corporativa se intensifica.”

As ações caíram até 8,4% após a abertura dos mercados em Nova York na sexta-feira, a maior queda intradiária em um ano. O papel acumula baixa de cerca de 28% em 2026.

A fabricante do Photoshop e de outros produtos para profissionais criativos está entre um grupo de empresas de software de aplicação — incluindo Salesforce e Atlassian — vistas como tendo dificuldade para conquistar novos clientes diante de startups focadas em IA.

A Adobe vem trabalhando para incorporar ferramentas de inteligência artificial em seus softwares criativos e de marketing — além de oferecer sua própria linha de modelos de IA voltados à geração de imagens sem risco de violação de direitos autorais — numa tentativa de preservar sua ampla participação de mercado.

Narayen comandou um período de crescimento expressivo na companhia. A receita anual da Adobe quase sextuplicou para cerca de US$ 24 bilhões desde que ele assumiu, no fim de 2007, e o número de funcionários cresceu de aproximadamente 7 mil para mais de 30 mil. Ele é frequentemente creditado por liderar uma das primeiras transições bem-sucedidas no setor de software para um modelo de negócios baseado em assinaturas recorrentes, em vez da venda única de aplicativos.

Narayen teve “uma trajetória lendária na Adobe”, escreveu o CEO da Microsoft, Satya Nadella, na rede social X. Dylan Field, CEO da Figma Inc. — empresa que a Adobe tentou adquirir em 2022 — afirmou que Narayen é “atencioso, gentil e incansável na busca pela visão da Adobe”.

Estratégia questionada

Ainda assim, a estratégia de Narayen vem sendo cada vez mais questionada por investidores nos últimos anos. A IA generativa tornou mais fácil criar conteúdo visual sem a necessidade dos produtos caros da Adobe. Muitas das ferramentas criativas de IA mais populares, como os modelos Veo 3 do Google, são desenvolvidas por concorrentes.

“Estamos focados em selecionar o líder certo para este próximo capítulo empolgante de crescimento da empresa e somos gratos pela liderança contínua de Shantanu como CEO para garantir uma transição suave”, disse Frank Calderoni, diretor independente líder do conselho, que supervisionará a busca pelo sucessor.

A receita recorrente anual dos produtos com foco em IA da companhia, como o Firefly, mais que triplicou no primeiro trimestre fiscal em relação ao mesmo período do ano anterior, disse Narayen em teleconferência após a divulgação de resultados. Em setembro, a empresa informou que as vendas desses produtos superaram US$ 250 milhões.

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A Adobe projetou receita entre US$ 6,43 bilhões e US$ 6,48 bilhões para o período encerrado em maio. Analistas, em média, estimavam US$ 6,43 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg. O lucro, excluindo alguns itens, deve ficar entre US$ 5,80 e US$ 5,85 por ação, acima da projeção média de US$ 5,70.

No primeiro trimestre fiscal, a receita cresceu 12%, para US$ 6,4 bilhões, superando a estimativa média de US$ 6,28 bilhões. O lucro ajustado foi de US$ 6,06 por ação no período encerrado em 27 de fevereiro, acima da projeção média de US$ 5,88.

Profissionais criativos e de marketing geraram US$ 4,39 bilhões em receitas de assinaturas, enquanto profissionais de negócios e consumidores responderam por US$ 1,78 bilhão.

A saída de Narayen ofuscou resultados que, de outra forma, foram sólidos, escreveu Anurag Rana, analista da Bloomberg Intelligence. “As métricas financeiras da Adobe mostram poucas mudanças perceptíveis desde o início do ano passado, mas a ação caiu quase 40% — provavelmente um fator-chave para a transição planejada de CEO.”

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