No ‘Game of Thrones’ do varejo, acionistas lutam pelo controle do GPA, Casas Bahia, Carrefour e Mobly

Em um momento em que as fragilidades de grandes varejistas ganham contornos mais dramáticos, as disputas pelo poder eclodem nos bastidores de grandes redes no Brasil. Mas o que há em comum em grupos como o GPA, controlador do Pão de Açúcar, Casas Bahia, Carrefour e Mobly, que vivem suas próprias versões de Game of Thrones corporativas? É que, além de pressões como a competição online, juros elevados e até mudanças no comportamento do consumidor, as ações dessas empresas ficaram muito baratas. E isso abriu caminho para novas investidas nesse jogo de poder.

Nessa disputa, houve de tudo: fechamento de capital, tentativas de tomadas de controle ou de entrada de novos jogadores no tabuleiro. As ações do GPA, por exemplo, negociam em um dígito desde agosto de 2023. Muito distante dos R$ 116,37 de maio de 2017. É o mesmo caso das Casas Bahia. A ação do grupo chegou a fechar em R$ 400 em 29 de junho de 2021. Hoje o preço está abaixo dos R$ 10.

Já o Carrefour Brasil teve um pico de R$ 22,58 em abril de 2022. Mas atualmente, as cotações giram entre R$ 7 e R$ 8. A Mobly um dia após o IPO teve a ação negociada a R$ 26,52 em 5 de fevereiro de 2021. De lá para cá, o preço caiu para abaixo de R$ 1,50.

Com oportunidade de montar posições significativas e influenciar os rumos das empresas, nomes conhecidos do mercado, como os dos empresários Nelson Tanure e Rafael Ferri, passaram a frequentar mais os noticiários de negócios.

O fundo de investimento Saint German, ligado a Tanure, por exemplo, passou a deter 10% das ações do GPA. Com isso, entrou com um pedido para convocar uma assembleia geral e colocar em pauta a dissolução do atual conselho de administração. A proposta inclui a eleição de integrantes ligados a Tanure e aos sócios alinhados ao empresário.

A mudança do colegiado é um passo importante no plano de Tanure de combinar negócios do GPA com os supermercados Dia. O empresário adquiriu a rede em dezembro de 2024, também por meio de fundos nos quais é cotista.

A substituição do conselho de administração contaria com o respaldo dos dois acionistas de referência que já integram o conselho: Christopher Hidalgo, representante do Casino, que tem 22,5% das ações do GPA; e o empresário Ronaldo Iabrudi, dono de outros 5,6%.

A assembleia ainda não tem data marcada. Há perspectiva de que a reunião possa ser agendada para maio.

Sem um controlador definido e com 75% das ações negociadas na bolsa, as Casas Bahia se tornaram suscetíveis a uma tentativa de tomada hostil de controle, sem o consentimento do conselho e da diretoria. Em outras palavras, um investidor que monte uma posição grande o suficiente para passar a dar as cartas no grupo.

Alarmada pelo desembolso de R$ 20 milhões para consolidar uma posição de 5,11% das ações da rede de varejo pelo investidor Rafael Ferri, a Casas Bahia quer propor em assembleia de acionistas a criação de uma poison pill – pílula de veneno – em tradução livre. Trata-se de uma cláusula para blindar a companhia de tentativas de tomada de controle.

A proposta é incluir no estatuto da empresa uma obrigação para qualquer um que atingir uma participação tão relevante de realizar uma oferta pública de aquisição de ações (OPA). Isso significa comprar a participação de outros acionistas e consolidar o controle de fato, Mas para isso o ofertante teria de pagar um prêmio sobre a cotação vigente, o que acaba inibindo operações do gênero.

Em outro desdobramento do caso, fundos de investimento ligados a Michael Klein, da família fundadora da companhia, aumentaram para 10,4% a participação na companhia. Com isso, pediram a convocação de assembleia de acionistas. A intenção do empresário é votar a destituição de membros do conselho de administração, incluindo o presidente, Renato Carvalho do Nascimento.

Pela proposta, além de Nascimento, outros integrantes como Rogério Paulo Calderón Peres, também deixariam o conselho. Ao mesmo tempo, os fundos propõem a eleição de Michael Klein e Luiz Carlos Nannini, ligado à família Klein, para os cargos.

Nesta semana, a redução de participação da gestora Península, ligada à família Diniz, fundadora do Pão de Açúcar, trouxe à tona os bastidores da tentativa do controlador francês do Carrefour de tirar a companhia da bolsa brasileira.

O grupo francês apresentou em fevereiro uma proposta para converter a operação brasileira, que inclui o Atacadão, em sua subsidiária integral. Isso significa a exclusão da listagem de ações negociadas na B3.

Nesta quinta-feira (3), o Carrefour melhorou essa proposta e elevou o valor em dinheiro que pagaria por ação do Carrefour Brasil de R$7,70 para R$8,50.

A redução da participação de 7,3% para 4,9% ocorreu, na verdade, porque o fundo soberano de Singapura, o GIC, que tinha a Península como gestora de uma participação teria decido vender a fatia em lugar de converter os papeis em ações da controladora francesa, conforme a proposta da rede internacional. Há, segundo analistas, posicionamentos divergentes entre acionistas importantes sobre a incorporação. Muitos discordam da ideia de a operação sair da bolsa brasileira.

Na Mobly, a batalha promete ser mais complexa. A empresa fez um acordo de aquisição da concorrente TokStok em agosto de 2024. Só que agora, a família Dubrule, fundadora da rede de lojas de móveis, tenta recuperar o controle: Régis, Ghislaine e Paul Dubrule fizeram uma oferta pública de aquisição (OPA) para comprar até 100% das ações da Mobly, com um alvo mínimo de 69% do capital da empresa.

A administração da Mobly classificou como “inaceitável” a proposta. Isso porque a oferta dos Dubrule se propõe a pagar metade do valor da cotação atual do papel. O preço proposto de R$ 0,68 por ação representa um desconto de 50% em relação ao preço atual de negociação da Toky, novo nome da Mobly. A justificativa para o desconto é que os dados financeiros da empresa não permitem uma avaliação de mercado (“valuation”) precisa.

Se bem-sucedida, a OPA pode custar cerca de R$ 58 milhões aos fundadores. A oferta está condicionada ainda a um waiver (“perdão”) dos credores da Tok&Stok, evitando que o vencimento das dívidas seja antecipado com a mudança de controle.

Os Dubrule teriam apoio do maior acionista da Toky, a alemã home24, que detém 44,38% das ações do grupo. A investidora solicitou a remoção do estatuto da companhia de cláusulas que dificultam a aquisição da empresa. Entre elas, estaria a “poison pill” que obriga compradores que atinjam 20% de participação a fazer ofertas para todos os acionistas, além de retirar a obrigação de pagar o prêmio de 20% sobre o valor da açnao. A proposta será votada na assembleia de acionistas prevista para o dia 30 de abril.

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