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O carro que os americanos não podem comprar: por que os EUA se desplugaram dos elétricos ‘bons e baratos’

E por que o consumidor brasileiro pode comprar carros que os EUA decidiram barrar

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Marques Brownlee, um dos youtubers de tecnologia mais vistos do mundo, passou duas semanas dirigindo nos Estados Unidos um carro que os americanos não podem comprar. A experiência ao volante do Xiaomi SU7 Max, sedã elétrico da marca chinesa conhecida por fabricar smartphones e robôs aspiradores, terminou em um review cheio de elogios e transpassado por incômodo.

Em conversão direta, o SU7 Max custaria US$ 42 mil nos Estados Unidos (preço parecido com os modelos 3 e Y, da Tesla), mas ele entrega a sensação de ser um carro muito mais caro, algo entre US$ 75 mil e US$ 100 mil, na avaliação do influenciador. Eis o motivo do incômodo: por que um produto tão bom – e potencialmente barato – não está à disposição dos ávidos consumidores da maior economia do planeta?

Por medo. Dois deles: do que os chineses podem fazer com os dados que o carro coleta – o alegado “risco à segurança nacional” – e do potencial de mercado desses modelos “bons e baratos”. “Não tenho dúvida nenhuma de que se um carro como este estivesse disponível nos EUA por quarenta e dois mil dólares, ele arrebentaria!”, avalia Brownlee no vídeo.

“O fato de não estar é, obviamente, inerentemente, político”, conclui.

Em 2022, Joe Biden condicionou créditos federais à origem de componentes e matérias-primas. Em 2024, ele colocou uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos vindos da China. Em 2025, já no governo de Donald Trump, os EUA encerraram antecipadamente um programa que incentivava a compra carros elétricos – crédito de US$ 7,5 mil no imposto de renda na compra de um novo e de US$ 4 mil na de um usado.

A venda de elétricos, que nos EUA já vinha dando sinais de cansaço diante do preço médio elevado, passou a depender ainda mais de descontos das montadoras e da disposição do comprador em pagar por uma tecnologia que deixou de ter a ajuda explícita do governo.

Os Estados Unidos entenderam que, pelo menos por enquanto, não têm condições de concorrer livremente com marcas chinesas no mercado de elétricos. Montadoras como General Motors e Ford deram um cavalo de pau no discurso go eletric que dominou o setor em anos anteriores, reconheceram perdas bilionárias com os investimentos nessa área, abandonaram projetos e converteram fábricas de baterias de carros em plantas produtoras de megabaterias para data centers.

Tarifas e exigências de conteúdo local compram tempo para que as montadoras americanas reorganizem linhas de produção, aprendam a lidar com baterias e software e tentem preservar margens. Ao mesmo tempo, tentam proteger a cadeia produtiva construída ao redor do motor a combustão. Se isso significar deixar fora do alcance do americano médio o que houver de mais avançado – e competitivo – em termos de carros elétricos, paciência.

Mesmo com as barreiras, os carros chineses podem estar a caminho. A Geely, segunda maior montadora da China atrás da BYD, sinalizou neste mês que pode ampliar a produção de suas marcas chinesas para os Estados Unidos — possivelmente usando a fábrica de sua subsidiária Volvo Cars, na Carolina do Sul.

Xiaomi apresenta carro elétrico SU7 num evento em Pequim

Não deu pra Apple

Em determinado momento do review, Marques Brownlee observa que o software do Xiaomi SU7 parece “uma prévia do que a Apple poderia ter feito” se tivesse levado adiante seu projeto de automóvel, encerrado em 2024. O fracasso da empresa de Tim Cook custou US$ 10 bilhões e 10 anos de pesquisas. No mesmo ano, a Xiaomi começou a vender o SU7 nas versões básica, Pro, Max e Ultra, aplicando ao carro a mesma lógica dos seus smartphones.

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É como se o carro fosse um celular gigante sobre rodas, o que faz do software um elemento estrutural e central. Era essa a vantagem que a Apple julgou ter sobre a indústria automobilística tradicional quando começou seu malsucedido projeto de carro, em 2014. Hoje, essa vantagem está nas mãos das gigantes chinesas como Xiaomi e Huawei.

Nas últimas décadas, empresas americanas como Apple e Tesla confiaram seus produtos à capacidade industrial chinesa. A partir do Império do Meio, construíram empresas avaliadas em trilhões de dólares, mas se tornaram dependentes de cadeias de suprimentos complexas e que só existem com tamanho grau de eficiência naquela região do mundo. Agora, sob pressão de Washington, tentam ficar menos vulneráveis à China ao mesmo tempo em que enfrentam concorrentes chineses em franca ascensão.

O caso do Brasil

Nos Estados Unidos, o elétrico entrou pela porta do aspiracional: produto caro, cheio de desempenho, autonomia e tecnologia, com margens altas e, por muito tempo, apoiado em incentivos. Na China, a eletrificação se espalhou primeiro por carros urbanos pequenos e funcionais, feitos para trajetos curtos e para caber no bolso. Só depois vieram os modelos mais sofisticados. O sedã da Xiaomi que Brownlee dirigiu é parte dessa segunda fase: um produto “premium” apoiado numa base de mercado que já banalizou o elétrico.

No Brasil, os carros elétricos chineses apelam principalmente para o bolso, com a expansão dos dois últimos anos puxada por modelos que ocupam a faixa de entrada ou intermediária do mercado, como o BYD Dolphin Mini. Na China, ele custa US$ 8 mil – daria para comprar uma frota pelo preço de um Tesla. No Brasil são R$ 120 mil – o bastante para situá-lo próximo dos zero km mais em conta do mercado; e para fazer com que ele venda mais que seus concorrentes à combustão da Citröen (C3), da Peugeot (208) e da Honda (City).

Outras marcas chinesas viram potencial no mercado brasileiro e, até agora, 19 delas já desembarcaram por aqui. Isso aumentou enormemente o catálogo de elétricos e eletrificados disponíveis no Brasil, inclusive de segmentos mais premium das marcas chinesas – modelos que o consumidor americano só vai ver de perto quando viajar para o exterior.

A indústria automobilística brasileira também está acostumada a subsídios e protecionismo, mas as barreiras não foram altas o suficiente para conter o ímpeto chinês.

Diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil não tem uma Tesla, isto é, uma indústria automotiva nacional dominante no segmento de elétricos a proteger. O parque instalado é relevante, mas está concentrado em veículos a combustão e, mais recentemente, híbridos leves – com baixa presença em baterias, eletrônica de potência e software. Ao permitir a entrada de marcas chinesas, o país não abriu mão de um mercado consolidado; criou um mercado que não existia até poucos anos atrás.

Montadoras chinesas também chegaram oferecendo investimento direto: foram US$ 575 milhões em 2024, segundo dados do Conselho Econômico Brasil-China, o que tornou o setor o terceiro mais investido por chineses no Brasil, só atrás da energia elétrica (US$ 1,43 bilhão) e do petróleo (US$ 1 bilhão).

Isso não elimina os dilemas. A presença maciça de marcas chinesas reabre discussões sobre conteúdo local, dependência tecnológica, balança comercial e política industrial de longo prazo. Também não garante que o Brasil vá capturar valor relevante na cadeia além da venda final. Mas explica por que, em 2025, o país se mostrou mais permeável à revolução elétrica “made in China” do que os Estados Unidos.

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O “desplugamento” americano não é uma rejeição ao elétrico como tecnologia, mas uma decisão sobre como e quando o consumidor de lá terá acesso aos elétricos de tecnologia alta e preço baixo – dado que quem os produz hoje é um inimigo comercial e geopolítico.

Por ora, restam os vídeos de americanos diante de um produto perfeitamente possível, plenamente desejável e, por decisão do próprio país, indisponível. Um estranhamento novo para uma economia acostumada a oferecer de tudo nos últimos dois séculos. E um espelho curioso para o consumidor do Brasil que já não precisa ir a Miami para ver “o futuro” de perto.

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