Newsletter

O CEO que estourou 65 cartões de crédito e transformou o risco em US$ 1 bilhão

A abertura de capital da UltraGreen.ai rendeu à família Sajwan uma fatia avaliada em US$ 1,2 bilhão após IPO

Por
Publicidade

No início de sua carreira no Vale do Silício, Ravinder Sajwan estourava o limite mensal de US$ 3.000 do cartão de crédito a cada dois dias enquanto se virava para tocar uma série de startups de tecnologia.

“Não tínhamos dinheiro”, disse Sajwan, ao falar de suas primeiras tentativas de construir negócios nos anos 1990. “Eu ligava para a administradora do cartão e dizia: ‘Sinto muito, acho que fiz besteira’, e então conseguia mais cartões. Em certo momento, eu tinha 65 cartões de crédito fazendo exatamente isso.”

Com a abertura de capital, no mês passado, da UltraGreen.ai em Singapura — empresa que vende um corante fluorescente usado em imagens cirúrgicas —, o diretor-presidente acertou em cheio.

A oferta pública inicial de US$ 400 milhões, a maior abertura de capital primária da cidade-Estado em oito anos fora do setor imobiliário, garantiu à família Sajwan uma participação avaliada em US$ 1,2 bilhão por meio da Renew Group, segundo documentos analisados pela primeira vez pelo Bloomberg Billionaires Index. A Renew detém uma participação majoritária de mais de 60% na UltraGreen.

Embora Sajwan comande a empresa, ele não possui participação direta nela, de acordo com os registros. Em vez disso, sua irmã, Indu Rawat, e o marido dela, Mahipal Singh Rawat, são os beneficiários finais da fortuna por meio de uma entidade pouco conhecida chamada The Saul Trust, mostram os documentos. Essa entidade investe globalmente em diversos ativos por meio da Renew, sediada em Singapura, da qual Sajwan é CEO.

Indu e Mahipal administram um mosteiro hindu, ou ashram, na Índia chamado Hanslok, fundado pelo pai de Mahipal. Entidades ligadas ao casal têm endereços registrados em Singapura, assim como Indu, que possui status de residente permanente na cidade-Estado, segundo os documentos. Indu e Mahipal não responderam aos pedidos de comentário enviados por escrito.

Nicho lucrativo

O corante da UltraGreen, combinado com uma câmera portátil, permite que cirurgiões observem o fluxo sanguíneo em seus pacientes. Esse componente de nicho, mas crucial para cirurgias, era dominado por empresas como a americana Stryker, sediada em Michigan, e a japonesa Daiichi Sankyo antes da ascensão da UltraGreen.

Cerca de uma década atrás, Sajwan comprou uma empresa que produzia o corante na Alemanha para outro investimento na área de saúde, mas a companhia não conseguiu obter aprovações regulatórias — um desafio comum para empresas que competem no mercado de corantes fluorescentes. Ele então decidiu mudar de estratégia, montando um produto separado por meio de investimentos, aquisições ou parcerias com distribuidores desses corantes, além de plataformas que agregam dados e desenvolvem software.

Hoje, a UltraGreen detém 85% de participação de mercado nos Estados Unidos, segundo Sajwan. Isso apesar de a empresa ter elevado o preço médio de seus frascos de corante em 60% e 30% em 2023 e 2024, respectivamente, de acordo com o prospecto do IPO.

O DBS Group Holdings, maior banco de Singapura, atuou como coordenador conjunto e subscritor da oferta. Sajwan, residente permanente em Singapura e cidadão americano, afirma ser amigo próximo de Tan Su Shan, CEO do DBS, e de seu marido, Chris Wilson.

Fora a Renew, outros grandes investidores da UltraGreen incluem a 65 Equity Partners, gestora apoiada pelo fundo estatal Temasek Holdings Pte.; a gestora britânica de private equity Vitruvian Partners, com mais de US$ 20 bilhões sob gestão; e o ex-presidente da Bolsa de Singapura, Kwa Chong Seng. Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, Kwa esteve profundamente envolvido na divulgação da oferta de ações da UltraGreen junto a investidores e atualmente preside o conselho da empresa.

Publicidade

As ações da UltraGreen acumulam alta de cerca de 16% desde a estreia até o fechamento de terça-feira.

Império das bebidas

Sajwan, de 64 anos, nasceu em Nova Délhi, capital da Índia. Ao longo dos anos, seu foco migrou de chips para bebidas energéticas e, mais recentemente, para a área de saúde.

Ele cofundou três startups que acabaram vendidas, segundo ele. A Acclaim Communications, fabricante de switches para computadores, foi comprada pela Level One Communications em 1998 por cerca de US$ 120 milhões. Posteriormente, a Level One foi vendida à Intel Corp. por US$ 2,2 bilhões.

Um dos investimentos mais bem-sucedidos de Sajwan é uma empresa de produção da 5-Hour Energy, fabricante de um shot energético sem açúcar criado por seu amigo próximo e bilionário Manoj Bhargava, cujas cápsulas de cores chamativas são encontradas em postos de gasolina nos EUA e em lojas 7-Eleven por toda a Ásia. O negócio gerou dividendos expressivos para a Renew, segundo Sajwan.

A ligação de Bhargava com a família Sajwan é ainda mais antiga. Nos anos 1970, ele viveu como monge no ashram Hanslok, onde conheceu Mahipal, segundo entrevistas concedidas a outros veículos. Bhargava não respondeu aos pedidos de comentário enviados por escrito.

Sajwan afirma que acorda cedo para fazer trilhas com uma mochila pesada pelas colinas do oeste de Singapura e que consome até 16 doses de café expresso por dia. Seu portfólio de negócios é administrado a partir de sua sede — um prédio envidraçado ao lado de um posto de gasolina em MacPherson, um distrito industrial da cidade-Estado.

A Renew controla um conjunto diversificado de empresas, incluindo a True Hydration, fabricante de bebidas enlatadas sem açúcar e sem sal; a Cellular Hydration, cápsula portátil de eletrólitos; e a Renew Enhanced Circulation, que, segundo seu site, melhora a saúde cardiovascular por meio de um tratamento de pressão semelhante a uma massagem

Exit mobile version