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O embalo da Vulcabras: dona da Olympikus traça planos para disputar lifestyle com Nike e Adidas

A exemplo de a exemplo de Nike, Puma e Adidas, empresa quer focar no lifestyle; CEO Pedro Bartelle diz que há espaço para mais marcas dentro do grupo

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Depois de acumular 22 trimestres consecutivos de crescimento de vendas, a Vulcabras, empresa dona da Olympikus e fabricante licenciada da Under Armour e da Mizuno no Brasil, se prepara para que 2026 seja um ano que vá além do crescimento orgânico. 

A companhia de calçados diz que está pronta para comprar ou licenciar novas marcas e, ao mesmo tempo, avançar do esporte “funcional” para um território em que as gigantes globais reinam — o esporte como moda, aquele produto que vai da corrida para a rua sem pedir licença.

Nike, Adidas e Puma ergueram impérios ao transformar performance em linguagem cultural, com tênis que corre pela manhã e circula à noite. A Adidas, por exemplo, tem quase metade da sua receita vinda de lifestyle, especialmente com os modelos Samba, Gazelle e SL72. As linhas Air Force 1 e Jordan 1 da Nike são muito conhecidas e a Puma chegou a fazer parceria com a Fenty.

A Vulcabras, que ainda é mais forte no tênis funcional do que no “território da moda”, quer alterar esse quadro e criou uma área destinada para essa área na sua sede, no Rio Grande do Sul.

Nike Air em parceria com a Louis Vuitton

Depois de o fim de 2025 sinalizar que o modelo de negócio aguenta ciclos de investimento e se traduz em rentabilidade, a empresa quer usar a máquina que construiu — fábrica, velocidade e leitura de demanda — para avançar no mercado, e isso pode acontecer indo às compras. Sua última aquisição se deu em 2021, quando levou a licença da japonesa Mizuno, que pertencia à Alpargatas. 

Oportunidades no radar

A companhia diz que “cabe mais marca” no portfólio.

“Qualquer marca esportiva que tiver dentro da Vulcabras, aproveitando os recursos da Vulcabras, vai performar melhor no Brasil”, afirmou o CEO Pedro Bartelle em entrevista ao InvestNews.

Ele diz que existe o mapeamento de oportunidades para compras e que espera um ambiente mais propício, especialmente com a esperada queda da taxa básica de juros, para que as conversas voltem a ficar ativas.

A empresa tem feito o trabalho de casa para que consiga aproveitar um potencial negócio, segundo o CFO, Wagner Dantas. Em 2025, a empresa acelerou o pagamento de dividendos e distribuiu R$ 1,54 bilhão aos acionistas.

Agora, a meta é preservar a flexibilidade no caixa. “Preferimos trabalhar com um balanço mais conservador, até para reagir se alguma oportunidade inorgânica aparecer”, afirma.

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Neste ano, a tendência é canalizar mais a geração de caixa para a redução de endividamento (abaixo de 1 vez a dívida líquida/ Ebitda), em vez de manter uma pauta tão agressiva de distribuição de dividendos.

É uma nova rota também após um ano como o de 2025, que exigiu mais investimento do que a companhia previa. A Vulcabras cresceu — as vendas totais avançaram 16,7%, para R$ 4,2 bilhões —, mas também precisou contratar e reforçar a estrutura interna para sustentar o ritmo, o que pressionou margens por alguns trimestres e deixou parte do mercado mais atento.

Bartelle enquadra o período como uma escolha consciente: a companhia acelerou contratações para acompanhar a demanda e, depois, viu a rentabilidade reagir no fim do ano.

No quarto trimestre, a margem voltou a 21,9%, subindo 0,7 ponto percentual. O período, na leitura do executivo, mostra que a equação de investir para crescer fecha a conta.

A máquina por trás do crescimento

A verticalização da cadeia produtiva da Vulcabras é a sua vantagem competitiva, segundo analistas do UBS, mesmo com o domínio global do Sudeste Asiático na indústria de calçados, que costuma ter custos mais baixos de mão de obra – o principal fator de custo de produção.

O UBS desenha essa vantagem em termos quase cirúrgicos: a Vulcabras teria um ciclo do desenho ao lançamento de cerca de quatro meses, contra algo como 12 meses em pares internacionais — e um intervalo entre pedido e produção medido em semanas, não em semestres. É uma agilidade que reduz o risco de estoque e dá poder para ajustar coleção no meio do caminho.

Vulcabras é a única marca de grande porte com fabricação de tênis fora da Ásia (Divulgação)

Bartelle afirma que, nos últimos cinco anos, a Vulcabras investiu mais de R$ 1 bilhão para expandir fábricas, modernizar maquinário e reforçar pesquisa e desenvolvimento — de software e sistemas a prototipagem e testes. É esse “pacote” que permite produzir rápido, repor com mais frequência e errar menos na prateleira.

“Como temos um negócio verticalizado, produzimos com rapidez. Isso não gera sobras nem estoques, porque não queremos participar de grandes liquidações que destroem muito margem”, afirma Bartelle.

A empresa também tenta capturar mais valor na venda direta ao consumidor. Em 2025, o e-commerce cresceu 25%, para R$ 543,1 milhões, e já respondeu por 15,3% da receita líquida.

A Vulcabras ainda é majoritariamente apoiada em vendas para o varejo multimarcas, com a venda direta ganhando espaço. Essa presença física ainda é pequena, mas está em expansão: o grupo caminha para cerca de 20 lojas próprias (sobretudo das marcas Under Armour e Mizuno). 

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Para o time de analistas do UBS, a ampliação de canais próprios pode ajudar a companhia a contar “histórias completas” de vestuário e acessórios, hoje pouco expostas em um mercado dominado por sapatarias.

Empurrão do Mounjaro

Bartelle afirma que está atento ao consumidor que não “só corre”, o que deve ampliar as categorias em que o grupo atua. Hoje, por exemplo, a Mizuno tem a linha de chuteiras Morelia, enquanto a Under Armour é conhecida por seus tênis para praticantes de musculação e jogadores de basquete.

Agora, segundo o CEO, há outro “empurrão cultural” que vem das canetas emagrecedoras, como Ozempic e Mounjaro — não como explicação única, mas como um vetor a mais de quem busca praticar exercícios e, sobretudo, treinos que preservem e construam massa magra.

Ou seja, cada vez mais há o consumidor que concilia musculação com funcional e corrida e quer um modelo híbrido. A empresa, segundo ele, já estuda lançar produtos para esse uso misto.

A virada da Olympikus

No coração dessa história está a Olympikus, a única marca própria do grupo — e a grande tese vencedora desde a reestruturação que, anos atrás, formou o que Bartelle chama de “casco de tartaruga”.

Por muito tempo, a marca era vista por consumidores como sinônimo de tênis barato.

A companhia reposicionou a Olympikus ao criar a linha Corre em 2019, que envolveu de corredores amadores a atletas profissionais, pesquisadores acadêmicos, comunidade de saúde esportiva e desenvolvedores de produtos.

A linha ganhou mercado gradualmente, e a marca deixou de ter apelo apenas pelo atributo de preço: passou a ser reconhecida também pela qualidade. Foi, por exemplo, o calçado utilizado pelos seis primeiros colocados da última Maratona Internacional de São Paulo, em abril de 2025.

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Em 2026, a linha Corre ganhou mais um lançamento, o Pace, um modelo com 140 gramas – entre os mais leves da categoria de super tênis – e preço de R$ 2 mil, o mais caro já criado pela empresa.

Bartelle usa uma metáfora do automobilismo, que praticou por anos, para explicar o novo produto: “esse tênis é o pneu de classificação da Fórmula 1”. Segundo ele, trata-se de um produto de alta performance, voltado para corredores profissionais.

Marca Olympikus é a principal fonte de receita da Vulcabras (Divulgação)

A tese, no fundo, é a mesma que sustenta os trimestres seguidos de crescimento: competir em performance sem perder o DNA de custo-benefício. Segundo o executivo, um concorrente do Pace é o Adidas Adizero Adios Pro Evo 1, com 138 gramas e preço de R$ 4 mil.

“O Brasil ainda consome pouco tênis per capita. E, quando o brasileiro pode comprar, a primeira marca de custo-benefício somos nós”, argumenta Bartelle.

A Vulcabras chegou a esse momento depois de um ciclo duro de reestruturação a partir dos anos 2010, que moldou o que o CEO descreve como uma cultura de execução na companhia.

Em 2020, ano em que praticamente concluiu a fase de “arrumação”, a empresa reforçou a aposta no esporte e vendeu a Azaleia, de calçados femininos. 

Agora, com a corrida como vitrine e o modelo industrial como motor, a empresa tenta dar o próximo passo na estética esportiva e, com itens com apelo de lifestyle, ocupar um espaço mais amplo no guarda-roupa do brasileiro.

@investnewsbr

A Grendene começou como uma fábrica de embalagens para bebida, mas fez sucesso fazendo sandálias de plástico, a empresa investiu no desenvolvimento do tênis Olympikus, apostando no crescimento da corrida de rua no Brasil e conquistou pódio. Conheça a história e a estratégia da família por trás de uma das maiores indústrias calçadistas do país. #grendene #melissa #olympikus #corrida

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