O pedido prevê suspender cláusulas que permitem aos credores cobrar toda a dívida de uma vez, além de travar a cobrança imediata de parte dos compromissos financeiros. Na prática, a empresa tenta aliviar a pressão sobre o caixa no curto prazo.
A Oncoclínicas fechou 2025 com um prejuízo líquido consolidado de R$ 1,38 bilhão em 2025, contra lucro de R$ 106,3 milhões em 2024. O número exclui efeitos não recorrentes e parte das operações hospitalares.
Pelas demonstrações financeiras auditadas, o prejuízo contábil do ano foi maior — de R$ 3,67 bilhões.
No parecer que acompanha as demonstrações financeiras do quarto trimestre, a Deloitte, auditoria independente responsável por revisar os números da companhia, disse ver incerteza sobre a capacidade de a empresa seguir operando normalmente no curto prazo.
“A continuidade operacional da companhia depende substancialmente da implementação bem-sucedida de planos da Diretoria, negociações com credores e a captação de novos recursos ou a reestruturação de suas obrigações financeiras, cujas conclusões não estão integralmente sob controle da companhia”, apontou.
Aprofundamento da crise
A Oncoclínicas já havia reconhecido que estudava recorrer à Justiça para obter uma proteção temporária, diante do risco de descumprir seus covenants – regras nos contratos com credores que impõem um teto para a alavancagem da companhia.
Ao fim de 2025, o indicador chegou a 4,27 vezes, acima do limite de 3,5 vezes previsto nos contratos.
O pedido de proteção dá sequência a uma negociação iniciada em março, quando a empresa solicitou mais prazo aos credores para pagar dívidas com vencimento no curto prazo.
A percepção sobre a crise financeira da empresa piorou nas últimas semanas. A agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota da empresa para RD(bra) – sigla em inglês para restricted default, a penúltima categoria na escala antes do calote.
Na prática, a classificação indica que a companhia já deixou de cumprir parte de suas obrigações financeiras, ainda que não tenha parado todos os pagamentos.
No início desta semana, o Valor Econômico noticiou que a companhia tinha caixa suficiente para apenas mais alguns dias de operação.
Perda de competitividade
Em fevereiro, o InvestNews noticiou que, com o avanço da crise, a Oncoclínicas já começava a perder médicos. Ao mesmo tempo, fornecedores e potenciais parceiros passaram a adotar uma postura mais cautelosa diante do perfil de crédito da companhia.
Em um relatório de setembro de 2025, o BTG Pactual avaliava que um dos maiores diferenciais da companhia era seu corpo clínico, já que ela empregava 18% de todos os oncologistas do Brasil.
Mas, segundo o banco, as dificuldades financeiras da empresa estavam levando médicos a buscar oportunidades em concorrentes. Pessoas ouvidas pelo InvestNews confirmaram essa movimentação.
Também pesava a falta de clareza sobre a exposição da Oncoclínicas ao Banco Master — a instituição de Daniel Vorcaro chegou a deter 15% da companhia.
Questões de governança
Em 7 de abril, Marcelo Gasparino renunciou à presidência do conselho de administração da Oncoclínicas. O colegiado havia sido eleito por voto múltiplo — um modelo em que os acionistas votam em todos os conselheiros de uma só vez, formando uma chapa única. Por isso, a saída de Gasparino levou à destituição de todo o conselho.
A companhia convocou uma nova eleição para 30 de abril.
Antes disso, em meados de março, Camille Loyo Faria deixou os cargos de vice-presidente executiva, diretora financeira e diretora de relações com investidores, depois de pouco mais de um mês na empresa.
Faria foi uma figura central na reestruturação da Americanas e também atuou na primeira recuperação judicial da Oi. Para fontes ouvidas pelo InvestNews, ela era vista como uma esperança para estabilizar a situação da Oncoclínicas.
Propostas de resgate
Apesar da crise, executivos do setor veem a Oncoclínicas como um negócio com uma tese sólida e reconhecida pela qualidade da assistência médica.
Não à toa, nas últimas semanas, a empresa recebeu propostas de interessados em tirá-la da berlinda.
A principal negociação envolve a criação de uma nova empresa com a Porto Seguro e o Grupo Fleury. A proposta prevê um aporte de R$ 500 milhões e a transferência das clínicas oncológicas para a nova empresa, que passaria a ter novos sócios no controle.
Em paralelo, a Oncoclínicas também recebeu uma proposta de financiamento de curto prazo da gestora MAK Capital, em conjunto com a Lumina, entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões. A operação teria como base a antecipação de recebíveis, funcionando como um reforço emergencial de caixa.
