Os dois lados deixaram o Paquistão sem solução para temas espinhosos, como o programa nuclear iraniano e o controle do Estreito de Ormuz. Já era improvável que houvesse um avanço decisivo em apenas um dia, mesmo com o encontro de mais alto nível entre os dois países em quase meio século. Mas, nas primeiras horas de domingo, já estava claro que eles pouco haviam avançado para encerrar uma guerra que matou milhares de pessoas e abalou os mercados globais de energia.
“Saímos daqui com uma proposta muito simples — uma forma de entendimento que representa nossa melhor e última oferta”, disse Vance em uma breve coletiva antes de embarcar de volta para Washington. “Vamos ver se os iranianos a aceitam.”
Enquanto Vance dava seu veredito em Islamabad — “eles optaram por não aceitar nossos termos” — o presidente Donald Trump estava em Miami, à beira do octógono em uma luta do UFC, acompanhado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo rapper Vanilla Ice.
Vance disse que sua equipe atualizou Trump até uma dúzia de vezes ao longo do dia, e o presidente deu sua própria avaliação pouco antes das 9h de domingo, no horário de Washington. Em uma postagem na Truth Social, afirmou que a delegação iraniana foi “muito inflexível na questão mais importante de todas” e repetiu: “como sempre disse, desde o começo, e há muitos anos, O IRÃ NUNCA TERÁ UMA ARMA NUCLEAR!”
Esse foi o desfecho de um capítulo que começou às 10h30 de sábado, no horário local, quando Vance aterrissou em Islamabad. O vice-presidente foi recebido na pista pelo chefe do Exército paquistanês, Asim Munir, que o saudou de terno cinza e gravata verde. Já na noite anterior, quando Munir foi receber a delegação iraniana de 71 integrantes — liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad-Bagher Ghalibaf — ele estava vestido com uniforme militar completo.
Embora o frágil cessar-fogo estivesse sendo mantido, as divergências continuavam profundas. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto dos fluxos mundiais de petróleo e gás natural liquefeito, seguia em grande parte bloqueado. Israel e Hezbollah continuavam trocando tiros no Líbano — um cessar-fogo ali é uma exigência central do Irã — e o primeiro-ministro libanês anunciaria, na noite de sábado, o adiamento de sua própria viagem a Washington.
Washington exigia a reabertura total de Ormuz, que se tornou o principal ponto de impasse, além de restrições aos programas nuclear e de mísseis do Irã. Teerã pressionava por alívio nas sanções, pela manutenção de seu controle sobre a hidrovia e por uma retirada mais ampla da presença militar dos EUA no Oriente Médio.
“Os EUA precisam aprender: não se pode impor termos ao Irã”, escreveu no X o ex-chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif. “Ainda dá tempo de aprender. Ainda.”
Para Vance, que estava acompanhado dos enviados Steve Witkoff e Jared Kushner, a aposta também era pessoal. Como Trump é o árbitro final, conseguir um acordo que o satisfizesse poderia reforçar suas credenciais para uma eventual corrida presidencial em 2028. Já um fracasso poderia desgastá-lo. Crítico de longa data das chamadas guerras sem fim, Vance tinha motivos para buscar um avanço.
O simples fato de sediar as negociações já foi uma vitória para o Paquistão, que há anos tenta equilibrar suas relações com Irã, países do Golfo, Estados Unidos e China e agora se viu no centro de uma das diplomacias mais delicadas do mundo nos últimos anos. No meio disso, a Arábia Saudita — alvo de bombardeios iranianos ao longo da guerra — anunciou que caças e aeronaves de apoio da força aérea paquistanesa haviam chegado à Base Aérea Rei Abdulaziz como parte de um pacto estratégico de defesa entre os dois países.
Os preparativos foram intensos em Islamabad, capital geralmente calma e arborizada do Paquistão. Trabalhadores alinharam bandeiras verdes com lua crescente ao longo da Srinagar Highway. Comércios fecharam após as autoridades decretarem um feriado improvisado. Contêineres bloquearam ruas, soldados se espalharam pela cidade, e hotéis esvaziaram discretamente seus hóspedes. Um centro de imprensa montado às pressas distribuía café em copos com a frase: “feito para a paz”.
Pouco antes do meio-dia, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, reuniu-se com a delegação iraniana para acertar detalhes, enquanto o formato das conversas ainda permanecia indefinido. A imprensa iraniana informou que ainda não havia decisão sobre negociações diretas ou mediadas e que Sharif havia sugerido um formato trilateral.
Sharif também recebeu Vance, elogiando os dois lados por estarem negociando e expressando esperança de que as conversas pudessem levar a uma paz duradoura.
Enquanto isso, os primeiros sinais de movimento apareciam a cerca de 1.600 quilômetros dali, no Estreito de Ormuz. Dois superpetroleiros chineses carregados de petróleo avançaram em direção à passagem poucas horas depois de uma embarcação grega cruzá-la. Os três navios conseguiram atravessar no fim de sábado, no dia de maior fluxo de petróleo desde que a guerra passou a sufocar as exportações.
Em Islamabad, porém, houve bem menos movimento. Pouco antes das 14h, três horas após a chegada de Vance, as conversas trilaterais ainda não haviam começado, porque ele continuava reunido com Sharif. A partir do momento em que foi recebido pelo premiê paquistanês, a imprensa não veria mais o vice-presidente por outras 16 horas.
Trump, acompanhando tudo de Washington, deixou claro que estava atento.
“Números enormes de petroleiros completamente vazios, alguns dos maiores do mundo, estão se dirigindo agora mesmo aos Estados Unidos para carregar o melhor e mais ‘leve’ petróleo e gás do mundo”, escreveu na Truth Social.
As negociações finalmente começaram por volta das 17h.
A agência semioficial iraniana Fars informou que a redução dos ataques israelenses no Líbano e um acordo de princípio dos EUA para liberar ativos iranianos ajudaram a levar as duas partes a finalmente conversar diretamente — algo que a Casa Branca rapidamente negou.
A TV estatal iraniana informou que o processo havia entrado em uma “fase técnica”, com especialistas em economia, assuntos militares, direito e nuclear se juntando aos principais negociadores. As conversas foram interrompidas por um jantar de trabalho oferecido pelo premiê paquistanês.
Dezesseis horas depois de chegar para o encontro com Sharif, por volta das 6h30, pouco depois do nascer do sol, Vance e sua equipe reapareceram para anunciar que as negociações haviam fracassado. Os dois lados transmitiram a sensação de que continuavam totalmente entrincheirados em suas posições, embora tenham sinalizado que algum progresso havia sido feito.
“Não temos nenhuma confiança no outro lado”, escreveu Ghalibaf no X, na manhã de domingo. “A América entendeu nossa lógica e nossos princípios, e agora é hora de decidir se consegue conquistar nossa confiança ou não.”
No começo da manhã de domingo, o hotel e o centro de convenções onde ocorreram as negociações começaram a esvaziar. Ainda assim, Islamabad seguia parcialmente isolada, com bloqueios impedindo o acesso ao distrito do governo. Ao mesmo tempo, dois grandes petroleiros haviam iniciado uma tentativa de cruzar o Estreito de Ormuz. Logo depois de Vance anunciar o fracasso das conversas, eles deram meia-volta às pressas.
