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Por que o petróleo da Venezuela interessa (ainda mais) aos EUA 

Não são “apenas” as maiores reservas do planeta. O ponto é que elas têm exatamente o tipo de petróleo que os Estados Unidos precisam

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Na conta de padaria, os EUA não precisam de petróleo. Eles já produzem 40% a mais do que a Arábia Saudita. São 13,4 milhões de barris por dia. Isso mais a extração de outros hidrocarbonetos, que também vão para a produção de combustível, dá e sobra para o consumo interno, de 20 Mbpd.  

Para ilustrar o colosso: o Brasil figura como grande exportador global tirando “só” 3,8 Mbpd.

Por que o interesse óbvio no petróleo venezuelano, então? Porque “quanto mais melhor”? Também. Mas não é só isso. O ponto é que o óleo venezuelano cai como uma luva para resolver um problema da indústria americana de óleo e gás. 

É o seguinte: petróleo não é exatamente uma “commodity”, no sentido de ser algo igual no mundo todo. Não. Cada lugar produz um tipo diferente. Vamos nos concentrar aqui na maior dessas distinções: a viscosidade.

Isso divide o reino do petróleo em três gêneros: leve, médio e pesado. O leve é o mais parecido com gasolina pura. Fácil de refinar, portanto – e justamente por isso ele é mais caro no mercado internacional. O pesado exige refinarias especializadas. E o médio, bem, fica no meio termo. O do pré-sal, só para ilustrar, é médio. O da Arábia Saudita, leve – “de grau API alto” no jargão. 

Nos EUA, é quase tudo leve também. Veja aqui

Se o leve é mais caro, então, eles estão bem servidos, certo? Em termos. A produção de óleo leve em quantidades brutais é um fenômeno recente nos EUA – começou no século 21, com a exploração do óleo de xisto, enfurnado em rochas.

Mas boa parte das refinarias americanas é especializada no refino de óleo pesado. Não lidam com óleo leve, já que, historicamente, quem garantia boa parte do abastecimento de petróleo nos EUA eram Canadá, México e Venezuela (antes das sanções). Todos os três produzem óleo pesado.

Como os EUA não têm parque de refino suficiente para seu óleo leve, eles vendem uma parte desse no mercado internacional e importam óleo de grau API baixo para as refinarias de óleo pesado (que ficam há décadas posicionadas no Golfo do México, justamente para receber esse produto das latitudes mais ao sul). 

E a importação de óleo pesado tem crescido. Em 2010, ela representava menos da metade. Agora, 65%. Veja o progresso

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Também há importação de óleo leve e médio, por questões logísticas e de mercado. Mas a de óleo pesado é fundamental: os EUA praticamente não produzem, ao mesmo tempo em que têm um parque de refino especialmente dedicado a essa variante.

E isso nos leva à Venezuela. O país tem a maior reserva provada de petróleo do mundo, 303 bilhões de barris – 17% das reservas globais. Basicamente tudo na forma de óleo pesado, aquele que os EUA mais precisam. 

Garantir o acesso das empresas americanas a esse tesouro é, portanto, uma questão estratégica pelo prisma dos negócios – não necessariamente pelo ponto de vista da diplomacia, mas esse é assunto para outra análise.  

Tão estratégica que a importação de óleo venezuelano continuou mesmo depois das sanções americanas, que proibiram o comércio com o país de Maduro. A partir de 2019, no governo Trump 1, o petróleo venezuelano não podia mais entrar nos EUA. 

Mas a Chevron, uma das gigantes americanas do setor, conseguiu em 2022 uma autorização especial do governo americano. Passou a operar uma joint venture com a PDVSA (a Petrobras da Venezuela) e vender óleo pesado do país de Maduro para as refinarias dos EUA.

Ainda assim, a produção da Chevron lá é pequena, na faixa de 200 mil barris por dia. O equivalente a uma junior oil – a Petrobras, para comparar, extrai sozinha 2,5 milhões de barris por dia no Brasil.

A queda na produção venezuelana

O resto da produção venezuelana fica por conta da PDVSA mesmo e de joint ventures dela com outras empresas de fora – desde 2007, o regime venezuelano só permite a exploração se a estatal entrar como sócia, com 60%. Essa foi a “nacionalização do petróleo”, que tirou as americanas Exxon e a ConocoPhillips do país.    

A produção venezuelana já foi robusta, de 3,5 Mbpd antes da nacionalização. Mas decaiu ano após ano, por mau gerenciamento da PDVSA, corrupção e falta de investimentos (países sancionados basicamente não têm acesso a capital). Sem investimento, a estrutura corrói – literalmente. Tanto que a anglo holandesa Shell, que continuou na Venezuela depois de 2007 porque já era parceira da PDVSA lá antes, acabou saindo em 2020 porque a sócia não tava cumprindo a parte dela na manutenção dos poços. 

E a produção total foi caindo. Em 2020, chegou a pífios 500 mil barris por dia. Desde lá, porém, ela tem aumentando. Está em 1,1 milhão de barris. Um pouco com a ajuda da Chevron, mas também das potências amigas do regime venezuelano: Rússia e China. 

O país de Xi Jinping está lá com a estatal CNPC, que também extrai no Brasil – é dona de 3,7% do campo de Búzios, o maior do país, em parceria com a Petrobras. 

E a Rússia opera ali uma estatal chamada Roszarubezhneft. Essa sopa de letrinhas diz tudo: significa “petróleo” (neft), “russo” (ros) “no exterior” (zarubezh). Trata-se de um programa voltado a produzir o suco de dinossauro em países sancionados pelos EUA.

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Ou seja: os dois antagonistas dos EUA no tabuleiro geopolítico estavam arrumando a cama para explorar as reservas monstruosas da Venezuela. Agora, com a deposição de Maduro, quem deve se deitar nesse berço esplêndido são as petroleiras americanas. Caso o plano de Trump dê certo, claro.

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