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Decepção da Ferrari: primeiro supercarro 100% elétrico desagrada e derruba ações

Queda reflete reação negativa ao design por parte de investidores, analistas e clientes e aumenta dúvidas sobre a estratégia no segmento

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As ações da Ferrari caíram quase 8% nesta terça-feira (25) depois que críticos detonaram o visual de seu primeiro veículo totalmente elétrico, um revés para a controversa aposta da fabricante italiana de supercarros no mercado de veículos elétricos.

A apresentação da Ferrari Luce, avaliada em € 550 mil (US$ 640 mil), gerou reações majoritariamente negativas tanto de analistas do setor quanto de influenciadores nas redes sociais, que compararam o design do carro, um modelo de quatro portas e cinco lugares, ao de veículos elétricos de massa.

Para o Luce, a Ferrari se afastou do estilo tradicional associado ao chefe de design Flavio Manzoni e recorreu a Jony Ive, ex-chefe de design da Apple, para ajudar a moldar o veículo.

“O carro parece uma mistura entre um Honda Accord elétrico e um Tesla Model 3”, escreveu Pierre-Olivier Essig, chefe de pesquisa da AIR Capital. “Estamos perdidos na tradução com a nova estratégia da Ferrari.”

Eletrificação em baixa

O lançamento também ocorre em um momento em que a demanda por veículos elétricos de luxo ficou mais difícil de prever. Rivais como Lamborghini e Porsche desaceleraram seus planos de eletrificação devido à falta de interesse dos consumidores.

A queda das ações ocorreu após uma apresentação em Roma que marcou a etapa final de um processo de revelação em três fases iniciado no ano passado, quando a Ferrari apresentou primeiro a tecnologia central do veículo e, posteriormente, seu interior.

Depois de cair até 7,8% nas negociações iniciais em Milão, o papel recuava 6,4% às 13h37 locais, na maior queda desde outubro. A companhia é avaliada em cerca de US$ 57 bilhões (equivalente a € 53 bilhões).

Embora o design tenha decepcionado muitos analistas, a experiência ao volante pode gerar avaliações diferentes. O Luce entrega potência equivalente a mais de 1.000 cavalos e acelera de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos — mais rápido que o SUV Purosangue com motor V12 da Ferrari. A velocidade máxima supera 310 km/h.

“Ferrari não embarcou nisso às cegas e sabemos que o Luce gerou muita curiosidade”, escreveram analistas da Bernstein liderados por Stephen Reitman. Segundo eles, há clientes e colecionadores suficientes da Ferrari, antigos e novos, “para garantir que o Luce consolide sua posição na linha da marca”.

Ainda assim, a reação inicial aumenta as dúvidas sobre a estratégia da Ferrari, que no ano passado decepcionou investidores ao divulgar metas de longo prazo consideradas tímidas e levantou questionamentos sobre como equilibrará tecnologia elétrica com os modelos a combustão, ainda centrais para a identidade da marca.

O plano da Ferrari para 2030 reduziu pela metade a participação esperada de carros totalmente elétricos, para 20% da linha, enquanto dobrou a aposta em modelos movidos a combustão.

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Desenvolvido por Jony Ive e Marc Newson no coletivo criativo LoveFrom, fundado pelo ex-designer da Apple responsável pelo iPhone e pelo Mac, o Luce possui superfícies mais suaves e menos detalhes agressivos, rompendo com o estilo musculoso tradicional da Ferrari.

O modelo é um teste crucial para a montadora: provar que um carro elétrico pode se encaixar em seu modelo de negócios baseado em baixa oferta, preços elevados e forte apelo emocional, ao mesmo tempo em que amplia a linha além dos tradicionais esportivos de dois lugares.

O preço do veículo indica que o CEO Benedetto Vigna não pretende sacrificar a exclusividade da marca para aumentar volumes.

O carro também servirá para medir se a fórmula da Ferrari funciona sem o ronco de um motor a combustão, especialmente em um momento em que o valor residual dos veículos elétricos ainda preocupa compradores ricos interessados em supercarros capazes de preservar ou ampliar valor ao longo do tempo.

A Lamborghini já adiou seu primeiro elétrico, refletindo a dificuldade das montadoras de luxo em convencer consumidores a abrir mão do barulho e da sensação física dos motores tradicionais. Mate Rimac, fundador do Rimac Group, afirmou no ano passado que a demanda por hipercarros elétricos de alto padrão girava em torno de apenas dez unidades anuais.

A Ferrari afirma que continuará oferecendo opções de motores a combustão, híbridos e elétricos. Sua estratégia permanece focada em mix de produtos, personalização e disciplina na oferta, em vez de simplesmente vender mais carros.

Essa disciplina é central para o modelo de negócios da Ferrari. Assim como marcas de luxo bem-sucedidas como Hermès e Rolex, a montadora depende há anos de listas de espera e controle rigoroso da oferta para preservar exclusividade. A escassez não é efeito colateral do negócio, mas uma ferramenta deliberada para sustentar demanda e preços.

Esse modelo ajudou a Ferrari a se proteger das dificuldades enfrentadas por montadoras europeias de maior volume, que sofrem para competir com a entrada de veículos elétricos chineses mais baratos.

A empresa italiana possui o maior valor de mercado entre as montadoras europeias, mesmo produzindo menos de 14 mil carros por ano — muito abaixo dos quase 9 milhões da Volkswagen. Ainda assim, suas ações acumulam queda de 31% nos últimos 12 meses em meio às preocupações com a demanda global por produtos de luxo.

A Ferrari tenta apresentar o Luce não como uma concessão às regulações ambientais ou aos rivais, mas como uma tentativa de provar que a eletrificação pode entregar o desempenho e o caráter exigidos pelos fãs da marca. A mensagem da empresa é que a tecnologia elétrica deve abrir novas possibilidades de design e condução, em vez de simplesmente substituir o motor por uma bateria.

“A Ferrari Luce não é uma resposta à mudança”, afirmou o presidente John Elkann durante apresentação a jornalistas no domingo. “É uma decisão deliberada de liderar o que vem a seguir.”

A Ferrari escolheu um local simbólico para revelar o Luce: a Vela di Calatrava, estrutura em forma de vela projetada pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, no distrito de Tor Vergata, nos arredores de Roma.

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Mais de 200 jornalistas do mundo inteiro foram convidados para o evento. A montadora também organizou dois jantares de gala, na segunda e terça-feira, para cerca de 800 clientes em cada noite. Os pedidos do veículo começaram a ser aceitos na segunda-feira.

O uso incomum de vidro é uma das características centrais do Luce. A Ferrari descreve o carro como uma espécie de “casa de vidro”, com formato contínuo que se estende até as extremidades da carroceria. O design mais limpo e suave aproxima o modelo das linhas que se tornaram comuns em veículos elétricos.

Isso aumenta a pressão sobre a experiência ao volante. Apesar da tecnologia embarcada, o Luce causa uma primeira impressão relativamente discreta. A Ferrari aposta que agilidade, som e resposta dinâmica serão capazes de fazer um carro elétrico de cinco lugares parecer inconfundivelmente uma Ferrari.

“Tínhamos que começar pela Ferrari, não pela tecnologia elétrica”, disse Vigna. “Precisávamos começar pela dimensão humana.”

O Luce é equipado com quatro motores elétricos — um em cada roda — e um conjunto de baterias de alta voltagem projetado e construído em Maranello, cidade-sede da Ferrari.

A plataforma elétrica permitiu à Ferrari acomodar cinco assentos pela primeira vez, algo impossível em sua configuração tradicional com motor dianteiro-central e câmbio traseiro. O Luce também terá porta-malas de 600 litros, espaço suficiente para duas bolsas de golfe ou três malas grandes.

O formato do carro se aproxima mais de elétricos esportivos de turismo, como o Porsche Taycan, do que de hipercarros elétricos de dois lugares, embora o posicionamento de luxo e escassez da Ferrari torne a comparação imperfeita. A maioria das versões do Taycan custa muito menos que o valor esperado do Luce.

O som é outro desafio-chave. A Ferrari afirma ter dedicado cinco anos e 40 mil quilômetros de testes em pista para desenvolver a assinatura sonora do carro. Em vez de imitar artificialmente o ronco de um motor a combustão, a empresa capta o ruído dos motores elétricos por sensores no eixo traseiro, processa o áudio e amplifica o som.

A abordagem busca responder à principal dúvida em torno de qualquer Ferrari elétrica: se uma marca historicamente definida pelo som de seus motores conseguirá preservar sua conexão emocional sem o rugido característico dos propulsores a combustão.

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