Mas, dentro das salas de diretoria, nas pequenas lojas e nos cafés pelo país, o cenário é bem mais sombrio. Com os juros próximos do pico das últimas duas décadas e o crédito cada vez mais escasso, um número historicamente alto de empresas luta para manter as portas abertas.
Dentre as maiores, um exemplo mais recente de pressão financeira veio na semana passada, quando a operadora hospitalar Kora Saúde entrou com um pedido de reestruturação extrajudicial — o mesmo destino de dois grandes nomes, a produtora de biocombustíveis Raízen e a rede de supermercados Companhia Brasileira de Distribuição, conhecida como GPA, semanas antes.
Pequenas empresas
Mas o aperto recai sobretudo sobre as pequenas empresas, base da economia, e com mais de 8 milhões de CNPJS inadimplentes.
Em muitos aspectos, dizem especialistas, o ajuste de contas era inevitável — consequência do forte ciclo de endividamento na pandemia. Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chega no pior momento possível. A preocupação é que a crise corporativa se espalhe pela economia justamente quando ele intensifica o apelo pela reeleição em outubro. Empatado com Flávio Bolsonaro nas pesquisas, Lula começou a lançar medidas para proteger as famílias dos efeitos colaterais dessa crise.
“A gente vem vivendo a grande ressaca da pandemia”, disse Rafael Nogueira, managing partner na Chimera Capital. Existe uma distorção na bolsa, segundo ele, com um punhado de grandes empresas impulsionando o índice.
As companhias menores que respaldam a economia brasileira “não estão necessariamente listadas, e essas estão sem acesso a capital,” afirmou Nogueira.
Quando o Banco Central reduziu os juros a um nível recorde durante a pandemia, muitas empresas recorreram em massa ao crédito — que costuma ter taxa pós-fixada — às vezes para sobreviver, mas muitas vezes para financiar uma expansão agressiva.
A disparada dos preços dos combustíveis, impulsionada pela guerra no Irã, tem beneficiado algumas empresas, como as grandes produtoras de commodities do país, atraindo capital estrangeiro e ajudando a levar o Ibovespa a níveis recordes no mês passado.
Custos mais altos de energia pressionam as famílias e restringem o espaço para cortes de juros capazes de aliviar os tomadores. Na semana passada, o Banco Central reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual pela segunda reunião consecutiva, para 14,5%, e sinalizou que novos cortes não são certos com a inflação acelerando.
“Ainda é prematuro afirmar que a gente já atingiu recorde histórico”, disse Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, se referindo ao número de recuperações judiciais. “O corte de juros que está sendo precificado é insuficiente para ver reversão no mercado de crédito.”
Os juros elevados também pressionam as famílias, que comprometem cerca de 30% da renda ao serviço de dívidas — perto do maior nível da última década, segundo o Banco Central.
“Eu compararia a situação das famílias com as pequenas e medias empresas,” disse João Mário Santos de França, pesquisador do FGV Ibre.
A onda de empresas em dificuldade ocorre no momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viu desaparecer sua vantagem nas pesquisas sobre Flávio Bolsonaro, em meio à inflação persistente e ao crescimento fraco. No início deste ano, Lula convocou empresas envolvidas nas negociações para socorrer a Raízen, sinalizando preocupação com os impactos sobre a confiança dos investidores e a economia.
O governo acompanha de perto o aumento do estresse nas empresas. Ainda assim, autoridades evitam intervir diretamente: o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que companhias altamente endividadas devem negociar com credores, em vez de recorrer a bancos públicos.
Pressão Alta
Na Chimera Capital, especializada em crédito para empresas em dificuldade, Nogueira disse que a linha entre tomadores saudáveis e estressados está começando a se confundir.
Recentemente, ele passou a receber pedidos de empresas “relativamente limpas” rejeitadas pelos bancos. “Isso não deveria acontecer. O meu dinheiro é um dinheiro caro, é um dinheiro para empresa estressada”, afirmou.
Empresas que se alavancaram em 2020 e 2021, quando o Banco Central levou a Selic a 2%, mínima histórica, agora enfrentam aperto, com o custo mais alto do crédito consumindo mais do caixa. E a pressão deve persistir, com economistas projetando a Selic acima de 10% até 2027.
Esse cenário resume o que a Kora Saúde enfrenta. A empresa se expandiu quando os juros estavam próximos das mínimas, adquirindo operações em vários estados. Nos últimos cinco anos, quase dobrou a sua receita.
Mas o aumento dos custos de financiamento causou um “desequilíbrio” na sua estrutura de capital, disse Alexandre Augusto Olivieri, diretor financeiro e de relações com investidores da Kora, em resposta a perguntas por escrito.
Quase 6.000 empresas estavam em processo de recuperação judicial até o fim de março, o maior nível na série da RGF & Associados, iniciada em 2023.
A pressão, embora preocupante, ainda é vista como um aperto de crédito mais localizado.
Mas, à medida que mais empresas sofrem sob o peso das dívidas — reduzindo investimentos, encolhendo operações e atrasando pagamentos ao longo das cadeias de suprimento —, alguns já apontam o risco de uma espiral negativa, que corrói a renda, enfraquece a demanda e aumenta a pressão sobre a economia.
“Estamos no meio do furacão,” disse Flávio Málaga, sócio na Málaga & Associados. “Os juros altos passaram a consumir tudo o que a operação gera.”
