Depois de quase três anos com preços em patamares elevados, o açúcar agora passa por um ciclo de baixa. Em um ano, a cotação do açúcar bruto caiu cerca de 30% na ICE, a bolsa de commodities de Nova York. Desde o último pico, em 2023, a desvalorização é de quase 50%.
Uma das razões para a queda recente é a projeção de uma oferta maior nos próximos meses. Para a safra 2025/26, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estima uma produção global de 189,3 milhões de toneladas – uma alta de 4,6% em relação ao ciclo anterior.
No Brasil, o maior produtor mundial, a expectativa é que a produção tenha aumentado em 700 mil toneladas, para 44,4 milhões. A safra do açúcar começou em abril de 2025 e se encerra agora em março.
Na Índia, o segundo nesse ranking, a produção da safra corrente começou em outubro passado e deve acabar só em setembro: a estimativa é a de um salto de 26% no volume, para 35,3 milhões de toneladas – graças a um regime de chuvas mais favorável depois do El Niño.
Isso significa que o mundo deve produzir 1,62 milhão de toneladas a mais do que consome de açúcar. E, com o início da safra 2026/27 no Brasil, a expectativa é a de uma moagem mais forte na região Centro-Sul, a principal do país – o que deve ampliar ainda mais a oferta.
Pressão de custos
Trata-se de um desafio para as empresas sucroalcooleiras, dado que, hoje, a commodity já é negociada abaixo de seu custo de produção. “Ninguém consegue produzir açúcar a menos de 400 dólares por tonelada. O produtor não consegue ter margem”, diz Arnaldo Corrêa, diretor da Archer Consulting.
Em relatório, a XP avalia que o cenário deve se mostrar complexo para os players do setor, caracterizando o momento atual como um “círculo vicioso”. Analistas da instituição ressaltam que a combinação de superávit global de açúcar e mudanças no mercado de etanol deve limitar a geração de caixa das usinas nos próximos anos.
Os analistas dizem que a situação é particularmente sensível para a Raízen, dada sua situação financeira.
Atualmente, o mercado especula sobre aportes de capital de seus controladores, Shell e Cosan, para ganhar fôlego financeiro. Desde o fim de 2024, a empresa executa um plano de venda de ativos para gerar caixa e priorizar áreas de negócios.
Até agora, levantou cerca de R$ 6 bilhões com a venda de usinas e de negócios de geração de energia solar, além de sua participação na rede de minimercados Oxxo, entre outros.
O objetivo é reduzir a dívida, hoje em R$ 55 bilhões, e a alavancagem – a dívida líquida equivale a 5,3 vezes o lucro operacional ajustado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) em 12 meses. Nos nove meses do ano-safra 2025/26, a empresa acumulou prejuízo de R$ 4,5 bilhões, desconsiderando ajustes contábeis no período.
Para se blindar de quedas maiores na cotação do açúcar, a Raízen vem recorrendo a instrumentos de hedge – em que trava o preço de venda de parte da produção futura. Segundo o último balanço, a companhia já tinha garantido o preço para 98% do açúcar da safra 2025/26, a uma média de R$ 2.508 por tonelada (algo como US$ 490 pela cotação atual).
A estratégia ajudou a amortecer a queda, mas não evitou um trimestre mais fraco. O preço médio de venda do açúcar próprio ficou em R$ 2.169 por tonelada no período, recuo de 12,2% em um ano. Muito em razão desse efeito, o lucro operacional do negócio de açúcar e etanol encolheu 33,6% no trimestre, para R$ 1,2 bilhão.
Para a safra 2026/27, a companhia informou já ter fechado o preço do equivalente a 60% do volume destinado à exportação, a R$ 2.442 por tonelada (perto de US$ 470).
A mão invisível dos canaviais
Ao longo da safra, as usinas de cana definem a proporção de matéria-prima que será destinada à produção de açúcar ou de etanol.
No último trimestre, as maiores companhias do setor deram mais espaço ao combustível. Na Raízen, o mix foi de 56% etanol e 44% açúcar. Na São Martinho, outra gigante, foi de 51% etanol e 49% açúcar. Na Jalles Machado, a diferença foi ainda mais acentuada: 66% etanol e 34% açúcar.
É a mão invisível dos canaviais: quando uma commodity não está pagando bem, as empresas focam na outra. Isso acaba reduzindo a oferta da primeira no mercado – o que ajuda a reequilibrar os preços lá na frente.
Mas essa dinâmica de mercado enfrenta também uma mudança estrutural.
A ascensão do etanol de milho
O etanol de cana-de-açúcar já não reina sozinho nos postos. Hoje, o etanol de milho responde por cerca de 20% da produção brasileira de biocombustível. E avança rapidamente: cresce, em média, 33% ao ano, acima do ritmo do produto que vem da cana.
Uma das razões para a expansão mais acelerada é que o etanol de milho tem uma vantagem competitiva: pode sair até 40% mais barato na produção do que o de cana.
O custo se dilui porque a usina consegue vender também os subprodutos originados da fabricação do etanol – como ração animal e óleo de biodiesel. Além disso, no Centro-Oeste, o milho costuma ser plantado logo depois da safra de soja, o que otimiza o uso da terra e garante abundância.
Hoje, das 28 usinas de etanol em construção no país, 18 usarão milho como matéria-prima – contra 6 de cana, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Trata-se de uma inflexão inimaginável uma década atrás.
E essa ascensão já até aparece no topo do ranking do setor. Em 2024 (dado mais recente disponível), a maior produtora de etanol do país foi a Inpasa, dedicada ao etanol de milho. Naquele ano, produziu 3,7 bilhões de litros do biocombustível – superando os 3,1 bilhões da líder histórica do setor: a Raízen.
Se esse ritmo de expansão continuar, a projeção é que o milho responda por quase um terço da produção de etanol do país até 2035.
Essa concorrência se soma ao preço baixo do petróleo – hoje perto de US$ 65 por barril –, que barateia a gasolina e reduz a vantagem do biocombustível nas bombas. Nesse cenário, o preço do etanol não consegue se manter em patamar suficiente para compensar o valor mais baixo do açúcar.
“O chão do mercado passa a ser o custo de produção do etanol de milho, em torno de uns 13 ou 14 centavos de dólar por libra-peso [cerca de US$ 286 a US$ 309 por tonelada]”, diz Corrêa, da Archer.
