“Chegamos a um ponto de inflexão onde a execução operacional isolada não é suficiente para mitigar o desequilíbrio da estrutura de capital”, disse Gomes em teleconferência com analistas. Segundo o executivo, as conversas entre Shell e Cosan, controladoras da Raízen, caminham na direção de um aumento de capital, mas que ainda deve levar “alguns meses”.
O CEO, no entanto, não entrou em detalhes e afirmou que “não comentaria especulações” sobre uma proposta de reorganização da empresa que estaria em discussão nos bastidores – tema que vamos falar mais adiante.
No balanço divulgado no fim da noite de quinta-feira (12), a Raízen reportou prejuízo líquido de R$ 15,6 bilhões. A perda foi inflada por um impairment contábil de R$ 11,1 bilhões – um ajuste ligado à revisão do valor recuperável dos ativos após a piora das premissas financeiras da empresa, mas sem impacto direto no caixa.
Após cair mais de 12% na quinta, os papéis da Raízen iniciaram a sexta-feira com queda, de 4,5%, cotados a R$ 0,64.
Estrutura de capital
Lorival Luz, CFO da Raízen, afirmou que o reconhecimento contábil de R$ 11,1 bilhões reflete o cenário atual de crédito e custo de capital, mas pode ser revisto no futuro caso a situação financeira da companhia melhore.
O diretor financeiro também disse que a empresa não possui chamadas de margem nem covenants financeiros associados à perda do grau de investimento, ocorrida nesta semana, em seus títulos de dívida – uma herança do período em que a companhia era investment grade.
O endividamento voltou a crescer no trimestre encerrado em dezembro, ainda que em menor intensidade, diante do programa de venda de ativos e corte de despesas em curso.
Mesmo assim, a dívida líquida atingiu R$ 55,3 bilhões, equivalente a 5,3 vezes o resultado operacional (Ebitda) dos últimos 12 meses. O alvo declarado pela administração é retornar à faixa de 2 a 2,5 vezes – o que implica uma reestruturação profunda do balanço. O pagamento de juros, de R$ 7,6 bilhões até agora no ano-safra, também contribuiu para o endividamento.
A Raízen já contratou assessores para conduzir um processo para reestruturar seu endividamento, sinalizando que buscará descontos relevantes nessas dezenas de bilhões de dívida, enquanto os credores também já estão reunindo seus times jurídico e financeiro para a negociação.
Apesar da pressão financeira, a empresa insiste que não enfrenta risco imediato de liquidez. A Raízen encerrou o trimestre com cerca de R$ 17 bilhões em caixa. A administração também destacou que o para vender ativos já gerou mais de R$ 5 bilhões, em um programa que envolveu a negociação de usinas e projetos de energia renovável.
A venda da operação na Argentina foi reiterada como peça central da reestruturação, embora ainda não tenha uma data definida para sua conclusão. Conforme apurou o InvestNews, a Raízen mantém conversas avançadas com a Mercuria em um negócio estimado em cerca de US$ 1 bilhão.
A companhia também sinalizou um freio nos investimentos. O capex da safra 2025/26 deve ficar entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões, abaixo do pico de quase R$ 12 bilhões no ciclo anterior. A administração da Raízen disse que a prioridade agora é maturar projetos já construídos – especialmente as plantas do etanol de segunda geração (E2G).
Reestruturação em debate
Embora a diretoria da Raízen tenha se recusado a comentar, o principal assunto da teleconferência foi a possibilidade de uma ampla reorganização societária na companhia, envolvendo cisões, aporte de capital e conversão de dívida, em uma operação que poderia superar R$ 30 bilhões.
A informação foi publicada nesta sexta-feira pelo Brazil Journal, que ouviu fontes envolvidas nas negociações. Segundo o veículo, a reestruturação ocorreria em várias etapas.
A proposta em discussão entre Cosan, Shell e BTG separaria, na prática, dois negócios que hoje convivem dentro da mesma estrutura. De um lado, a Raízen Energia, concentrada em açúcar e etanol e responsável pela maior parte do endividamento. De outro, a operação de combustíveis, mais previsível e rentável.
A ideia seria redistribuir a dívida entre as duas áreas para evitar o colapso financeiro do braço agrícola, que passaria a ser a “empresa-mãe”, que seguiria listada na B3, com a parte de combustíveis como subsidiária.
Com isso, a divisão de combustíveis poderia absorver parte do passivo, ajudando a estabilizar a estrutura de capital do grupo. A partir de um balanço reorganizado, o passo seguinte seria promover a cisão da Raízen Combustíveis e realizar um novo IPO do negócio, permitindo que o mercado precifique o ativo sem o risco agrícola.
Como funcionaria
Para viabilizar a engenharia em discussão, a primeira etapa seria um aumento de capital de R$ 3 bilhões, liderado por Shell e Cosan e oferecido aos minoritários.
Para os acionistas pessoa física, fica o alerta: diante do atual preço dos papéis (na casa dos centavos) e o aumento expressivo de ações, é bem provável que possa ocorrer um agrupamento durante o processo.
O follow-on funcionaria como um colchão de liquidez para estabilizar o caixa e preparar a segunda fase: a conversão de dívida em participação acionária. Pelo desenho em debate, os credores converteriam cerca de 18% dos créditos contra a Raízen em ações — algo próximo de R$ 10 bilhões.
O restante viria de etapas adicionais de capitalização e reestruturação ainda em aberto. De acordo com a reportagem, não há uma decisão fechada e muitos esboços já foram feitos.
Mas o clima de tensão segue nos bastidores. Uma fonte próxima das discussões ouvida pelo InvestNews demonstra que ainda não há um alinhamento pleno entre todos os sócios, afirmando que é responsabilidade da Shell solucionar a crise da Raízen.
