Os investidores vêm demonstrando preocupação com o ritmo mais lento de entrada de assinantes da Netflix e com a sustentabilidade de seu crescimento. A questão provocou a pior liquidação das ações em mais de três anos após o relatório de resultados anterior da companhia, em 21 de outubro. Desde então, os papéis acumulam queda de 29%.
Na época, a Netflix era vista como uma possível pretendente da Warner Bros. Agora que o negócio está sobre a mesa por US$ 82,7 bilhões, alguns investidores estão apreensivos e todos os riscos parecem ampliados. Outros, porém, enxergam a queda como uma oportunidade de compra.
“Estou positivo, independentemente de o negócio sair ou não”, disse Eric Clark, diretor de investimentos da Accuvest Global Advisors, que considera a queda exagerada. “Não vejo um cenário em que o dinheiro não volte para as ações da Netflix.”
A empresa sediada em Los Gatos, Califórnia, deve reportar lucro por ação de 55 centavos no quarto trimestre, alta de 28% em relação a um ano antes, e receita de US$ 12 bilhões, crescimento de 17% frente ao quarto trimestre de 2024. No entanto, analistas projetam uma desaceleração do crescimento da receita da Netflix em cada um dos próximos três trimestres, antes de voltar a acelerar em 2027, segundo dados compilados pela Bloomberg.
“Quem estamos enganando? Não há chance de que esse resultado distraia os investidores do circo em andamento”, escreveu Daniel Kurnos, analista da Benchmark Co., em nota aos clientes em 13 de janeiro. “Mas pode servir como um lembrete da solidez dos fundamentos da Netflix e das alavancas orgânicas que a empresa possui ao entrar no que deve ser um ano marcante para a TV conectada.”
Kurnos, que tem recomendação de manutenção (hold) para as ações da Netflix, espera que a companhia apresente uma projeção sólida para receita e lucro operacional em 2026, o que poderia “oferecer um breve alívio do foco implacável no atual triângulo amoroso de M&A, que não parece ter fim no curto prazo e tende a ficar mais confuso antes de melhorar”. Ele também prevê aceleração do crescimento internacional e aponta a parceria publicitária com a Amazon.com Inc. como motivos de otimismo.
“A Netflix provavelmente registrou um quarto trimestre sólido, dado seu portfólio de conteúdos de grande apelo”, escreveu a analista da Bloomberg Intelligence Geetha Ranganathan em nota de pesquisa na semana passada, citando o desfecho da série de ficção científica e terror Stranger Things, a luta de boxe Jake Paul versus Anthony Joshua e os jogos da NFL no período de Natal. No entanto, um eventual erro (miss) na receita “acentuaria preocupações estruturais de crescimento, especialmente à luz da transação com a Warner”, acrescentou.
Com tanta incerteza à frente, os investidores estarão especialmente atentos às projeções da empresa, inclusive para a margem operacional deste ano, segundo o analista da TD Cowen John Blackledge. Ele espera que os assinantes líquidos pagos tenham aumentado em 14,2 milhões no trimestre, abaixo de cerca de 19 milhões um ano antes, mas acima da estimativa de consenso de aproximadamente 11 milhões, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.
Enquanto isso, a saga do acordo com a Warner Bros. continua. Na semana passada, foi dito que a Netflix vinha trabalhando em termos revisados, incluindo uma oferta totalmente em dinheiro. As mudanças teriam como objetivo acelerar a venda diante da pressão do concorrente Paramount Skydance Corp.
“A Netflix provavelmente está posicionada para sair vencedora, independentemente de como o processo de M&A se desenrole”, escreveu Kurnos, da Benchmark. Ele é otimista quanto à combinação, que criaria uma “força dominante no mercado, especialmente do ponto de vista de preços e engajamento”. Mas, se a Netflix não ficar com a Warner Bros., isso “pareceria apaziguar investidores que não gostam do negócio, dado o histórico ruim de transações no setor de mídia”.
Para alguns investidores, porém, a oferta pela Warner Bros. é simplesmente cara demais e arriscada para uma empresa que historicamente não cresceu por meio de aquisições.
“Perdi completamente o interesse” no relatório de resultados, disse Vikram Rai, gestor de portfólio e operador macro da First New York. A Netflix havia sido uma de suas ações favoritas, mas as manobras em torno do negócio o tornaram pessimista, e ele vendeu suas ações semanas atrás. “Se houver um salto, vou vender a descoberto.”
