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Como a Shell enfrenta a crise da Raízen, sua aposta-chave de energia limpa

Petroleira britânica negocia pacote de resgate para a gigante brasileira de biocombustíveis

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A Shell enfrenta uma crise em uma de suas maiores apostas em energia limpa, enquanto tenta fechar um pacote de resgate para o grupo brasileiro de biocombustíveis Raízen, altamente endividado.

Maior produtora de etanol de cana-de-açúcar do mundo e operadora de quase 9.000 postos com a marca Shell no Brasil, Paraguai e Argentina, a Raízen foi atingida por safras ruins, demanda mais fraca por combustíveis e juros mais altos.

Com R$ 55 bilhões (US$ 11 bilhões) em dívidas, a empresa com sede em São Paulo vem vendendo ativos para reforçar o balanço e, neste mês, alertou para uma “incerteza significativa” sobre o seu futuro, após registrar prejuízo líquido de R$ 15,6 bilhões no terceiro trimestre.

A deterioração da Raízen tem causado preocupação no Brasil, dado o peso da companhia entre as maiores do país e seu papel no abastecimento da frota nacional de carros — cerca de três quartos dos veículos podem rodar tanto com etanol quanto com gasolina.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria convocado recentemente a Shell e outros acionistas da Raízen para discutir como salvar a empresa, segundo reportagem do Financial Times, que cita pessoas familiarizadas com a situação.

“O governo está muito preocupado com os efeitos em cadeia sobre empregos e com as implicações econômicas mais amplas”, disse uma das pessoas ouvidas, acrescentando que o bioetanol é crucial não apenas para o transporte no Brasil, mas também para os produtores de cana-de-açúcar.

A dívida da Raízen — composta por empréstimos bancários, títulos internacionais e instrumentos domésticos — também cria um desafio relevante para a Shell.

A Raízen é uma peça-chave nos planos de energia limpa da Shell, e o Brasil é um dos mercados mais importantes para a petroleira britânica. A Shell também é a maior produtora estrangeira de óleo e gás no Brasil, onde a produção doméstica é dominada pela estatal Petrobras.

Ao mesmo tempo, a Shell está limitada pelo esforço de manter um controle rígido sobre suas finanças.

As ações da Raízen já entraram em território de “penny stock”: são negociadas a R$ 0,64, após uma queda de mais de 60% no último ano. Neste mês, a companhia também perdeu o grau de investimento concedido por grandes agências de rating.

Shell e o conglomerado brasileiro Cosan têm, cada um, 44% da Raízen desde o IPO de 2021, que levantou mais de US$ 1 bilhão. Nesta semana, as duas empresas e o BTG Pactual — acionista da Cosan — começaram a sondar informalmente credores sobre um plano de reestruturação e recapitalização que vem sendo negociado ao longo do mês.

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Em uma das propostas em discussão, a Shell colocaria R$ 3,5 bilhões em capital novo. A Cosan entraria com R$ 1 bilhão, sendo R$ 500 milhões aportados por seu fundador e chairman, Rubens Ometto. Credores — entre eles Bank of America, Citigroup, JPMorgan e Mitsubishi UFJ Financial Group — converteriam mais de um terço de suas posições em participação acionária.

As partes também avaliaram a hipótese de dividir a Raízen, separando a rede de postos junto com a recapitalização.

Segundo pessoas envolvidas, a Cosan vê lógica nessa estrutura. Já o BTG — maior banco de investimento da América Latina e que investiu R$ 4,5 bilhões na Cosan no ano passado — teria interesse em ficar com uma fatia do negócio separado por meio de sua área de private equity.

A Shell, porém, acredita que uma divisão levaria tempo demais, de acordo com uma pessoa próxima às negociações, além de poder reduzir a visibilidade da marca estampada em milhares de postos.

“A Shell quer muito manter a companhia intacta”, disse essa pessoa. “É mais simples e mais rápido, e os juros estão em 15%, então eles não querem ficar esperando.”

Ainda assim, duas outras pessoas envolvidas nas conversas afirmaram haver concordância ampla sobre os elementos centrais: o aporte de capital e a separação do negócio de distribuição de combustíveis.

A eventual reestruturação da dívida, no entanto, vem enfrentando ceticismo entre alguns credores da Raízen. Eles argumentam que Shell e Cosan não foram longe o suficiente e que deveriam injetar pelo menos o dobro de capital novo para dar base a um esforço de levantar R$ 20 bilhões destinados a reduzir o endividamento da empresa.

“A Raízen é um player central na estratégia global de transição energética da Shell; nos últimos anos, foi um veículo-chave para o crescimento da Shell em energia renovável”, disse uma das pessoas ouvidas pelo veículo britânico.

“Os bancos internacionais vinham contando que a Shell apoiaria essa companhia em algum momento, se fosse necessário. Não é isso que temos visto até agora.”

Pessoas envolvidas nas discussas disseram esperar que um acordo entre Shell, Cosan e BTG sobre como avançar possa ser fechado já na semana que vem, para então ser formalmente apresentado aos credores.

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