O prospecto preliminar S-1, tornado público hoje, revela pela primeira vez os números consolidados de uma companhia que deixou de ser apenas uma fabricante de foguetes.
Fundada em 2002, a SpaceX passou por uma transformação profunda nos últimos dois anos. Após absorver o X (antigo Twitter) em março de 2025 e a startup de inteligência artificial xAI em fevereiro de 2026, a empresa chega ao mercado como um conglomerado de três frentes: espaço, conectividade e inteligência artificial. O prospecto consolida pela primeira vez os resultados das três operações em um único balanço.
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Em 2025, a companhia registrou receita total de US$ 18,7 bilhões, prejuízo operacional de US$ 2,6 bilhões e EBITDA ajustado de US$ 6,6 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, a receita chegou a US$ 4,7 bilhões, com EBITDA ajustado de US$ 1,1 bilhão. O prejuízo operacional consolidado reflete investimentos pesados no programa Starship e na expansão da infraestrutura de inteligência artificial — não uma deterioração do negócio principal.
O motor financeiro da empresa é o Starlink. O serviço de internet via satélite faturou US$ 11,4 bilhões em 2025, alta de 50% sobre o ano anterior, e gerou US$ 4,4 bilhões de lucro operacional, com EBITDA ajustado de US$ 7,2 bilhões.
São hoje 10,3 milhões de assinantes em 164 países. Em termos de crescimento, o número de clientes praticamente dobrou no período: alta de 104,7% de assinantes, embora a receita média por usuário tenha caído 22,9%, pressionada pela expansão internacional e pela oferta de planos mais baratos em mercados emergentes.
O negócio de lançamentos espaciais, que inclui os foguetes Falcon e o Starship em desenvolvimento, gerou US$ 4,1 bilhões em receita, mas operou no vermelho em 2025, com prejuízo de US$ 657 milhões. O principal vilão foi o Starship: a empresa investiu US$ 3 bilhões apenas em pesquisa e desenvolvimento do veículo no ano passado.
O foguete, descrito no prospecto como o mais poderoso já desenvolvido, ainda está em fase de testes. A SpaceX realizou 11 voos experimentais até agora e prevê começar entregas comerciais de carga ao espaço no segundo semestre de 2026.
O segmento de IA, Que reúne o chatbot Grok, a plataforma X e a infraestrutura de computação herdada da xAI, faturou US$ 3,2 bilhões em 2025. Mas acumulou prejuízo operacional de US$ 6,4 bilhões, reflexo dos investimentos acelerados em data centers.
Só no primeiro trimestre de 2026, o segmento consumiu US$ 7,7 bilhões em capex. A SpaceX opera o COLOSSUS, em Memphis (Tennessee), descrito no prospecto como o primeiro cluster de treinamento de IA em escala de gigawatt do mundo. O Grok tem 117 milhões de usuários ativos mensais, dentro de uma base total de 1,3 bilhão de contas ativas no conjunto das plataformas.
A SpaceX encerrou março de 2026 com US$ 15,9 bilhões em caixa e US$ 29,1 bilhões em dívida — parte relevante dessa última resultado da aquisição do X. A empresa não prevê pagamento de dividendos no futuro previsível, sinalizando que pretende reinvestir os recursos gerados no negócio.
Musk mantém o controle
O IPO não altera quem manda na SpaceX. As ações ofertadas ao público serão da Classe A, com direito a um voto cada. Musk concentrará ações da Classe B, com dez votos por papel, o que lhe garante maioria absoluta nas deliberações mesmo após a abertura do capital.
A companhia se enquadrará como controlled company pelas regras da Nasdaq, ficando isenta de algumas exigências de governança corporativa — como a obrigatoriedade de maioria independente no conselho de administração.
O prospecto deixa claro que Elon Musk é considerado um ativo estratégico da empresa, citado nominalmente como fator de atração de talentos e elemento central da cultura de engenharia. O documento descreve “O Algoritmo” — um processo iterativo de cinco etapas que Musk utiliza para acelerar o desenvolvimento de produtos — como parte da identidade operacional da SpaceX.
A aposta no espaço como plataforma de IA
Além dos negócios em operação, o prospecto detalha uma visão de longo prazo que vai muito além do que qualquer concorrente declarou publicamente: transformar o espaço em infraestrutura de inteligência artificial.
A SpaceX quer lançar satélites equipados com processadores de IA em órbita a partir de 2028, aproveitando a energia solar ilimitada do espaço para rodar modelos de inteligência artificial e distribuir os resultados via Starlink para qualquer ponto do planeta. O projeto, batizado de orbital AI compute, seria viabilizado pelo Starship — cujo custo por quilo para a órbita é projetado para cair 99% em relação à média histórica da indústria.
A empresa afirma que pretende, no longo prazo, fabricar satélites na superfície da Lua, aproveitando os recursos minerais e a baixa gravidade lunar para reduzir custos de produção e lançamento. No prospecto, a Lua é descrita não apenas como destino de exploração, mas como a primeira economia industrial espacial em escala.
O próprio documento, contudo, faz ressalvas. Os riscos do orbital AI compute são em grande parte desconhecidos, nenhuma empresa operou infraestrutura de dados no espaço antes. E o sucesso de toda a estratégia depende do desenvolvimento bem-sucedido do Starship, cujo cronograma já acumulou atrasos no passado.
O contexto do IPO
A abertura de capital da SpaceX chega em um momento em que a empresa acumula mais de 80% de toda a massa lançada ao espaço por qualquer companhia no mundo a cada ano desde 2023, com taxa de sucesso superior a 99% nos foguetes Falcon.
No mercado de conectividade, o Starlink está próximo de fechar a aquisição de licenças de espectro da EchoStar por US$ 19,6 bilhões, o que deve viabilizar a oferta de conectividade 5G para celulares convencionais em escala global.
Com 24 anos de existência e uma trajetória que vai do primeiro lançamento malsucedido do Falcon 1 em 2006 à operação da maior constelação de satélites da história, a SpaceX testa agora o apetite do mercado por uma empresa que ainda consome mais capital do que gera, mas que construiu ativos que, ao menos no segmento de conectividade, já demonstram geração de caixa expressiva e crescimento acelerado.
