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Stellantis avalia usar tecnologia chinesa da Leapmotor para baratear elétricos na Europa

Movimento marcaria uma mudança histórica na indústria automotiva europeia, com uma fabricante ocidental recorrendo à arquitetura e ao software chineses para reforçar sua competitividade

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A Stellantis está considerando utilizar tecnologia de veículos elétricos de sua parceira chinesa Leapmotor para reduzir custos em suas marcas de grande volume na Europa, como Fiat, Opel e Peugeot, segundo pessoas familiarizadas com os planos.

A fabricante avalia ampliar o escopo de sua joint venture com a Leapmotor para acessar a tecnologia mais avançada de baterias e sistemas de propulsão elétrica (powertrain) da empresa chinesa, disseram as fontes, que pediram anonimato por se tratar de deliberações internas. Atualmente, a Stellantis vende na Europa modelos da Leapmotor, como o SUV C10, por meio de sua rede de concessionárias.

As conversas ainda estão em estágio inicial e qualquer acordo precisaria superar obstáculos relacionados a preocupações com proteção de dados ao utilizar tecnologia da China, disseram as fontes.

As parceiras também precisam lidar com a regulamentação nos Estados Unidos que proíbe a importação ou venda, a partir de 2027, de veículos conectados com tecnologias ligadas à China ou à Rússia. Ainda assim, as duas empresas pretendem fechar um acordo dentro deste ano, segundo as fontes.

Empresa chinesa

Seria a primeira vez que uma grande montadora ocidental dependeria da base estrutural e do software de um veículo de uma empresa chinesa para fortalecer seus modelos na Europa. As ações da Stellantis subiam 0,6% em Milão às 13h15. O papel acumula queda de 31% desde o início do ano.

A Stellantis afirmou que sua joint venture com a Leapmotor foi criada para combinar os pontos fortes de ambas as parceiras, com discussões regulares sobre possíveis formas de ampliar a cooperação. A empresa se recusou a comentar além disso. Em uma apresentação na quinta-feira, disse que “2025 foi um ano de implementação estratégica para a parceria, preparando o terreno para uma integração mais profunda”.

Representantes da Leapmotor não comentaram imediatamente.

Competição com a BYD

Um acordo ajudaria a Stellantis a economizar em gastos com desenvolvimento e forneceria um atalho para competir melhor com a BYD e a MG Motor na Europa, além de rivais locais como Volkswagen e Renault.

A fabricante está reduzindo o ritmo de sua estratégia de veículos elétricos e, no início deste mês, anunciou baixas contábeis e encargos de € 22,2 bilhões (US$ 26,1 bilhões), parte de um esforço mais amplo para conter a queda de participação de mercado e de lucros. A montadora também vem redimensionando ou encerrando algumas joint ventures de baterias diante da desaceleração no mercado de elétricos.

Como parte da reestruturação, a Stellantis está trazendo de volta o potente motor Hemi V8 para sua marca de picapes Ram. Na Europa, a empresa está recolocando motores a diesel em modelos como o Opel Astra e o Peugeot 308 e introduziu uma versão híbrida do Fiat 500.

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Embora uma cooperação mais profunda com a Zhejiang Leapmotor Technologies já estivesse em discussão há algum tempo, a empresa agora está focada em utilizar mais tecnologia da parceira, disseram as fontes.

A Volkswagen, também pressionada a alcançar as rivais chinesas, está produzindo veículos elétricos na plataforma da Xpeng, e sua marca Audi utiliza tecnologia da parceira SAIC Motor, embora esses modelos não sejam vendidos fora da China. O novo Twingo elétrico da Renault, que será lançado em breve na Europa, depende das operações de pesquisa e desenvolvimento da fabricante francesa na China para design e tecnologia.

As montadoras correm para igualar a velocidade de desenvolvimento e os cortes de custos da China, onde as fabricantes frequentemente lançam novos veículos no mercado em metade do tempo. No mercado chinês, compradores estão abandonando marcas ocidentais como a Volkswagen, enquanto modelos atraentes como o Seal, da BYD, têm conquistado consumidores na Europa.

A joint venture da Stellantis com a Leapmotor remonta a 2023, criada sob o então CEO Carlos Tavares, cujo amplo programa de corte de custos acabou prejudicando a qualidade e a linha de modelos. O acordo incluiu a aquisição, pela Stellantis, de uma participação de 20% por US$ 1,1 bilhão na Leapmotor — reduzida para 15% no ano passado — e a criação da joint venture chamada Leapmotor International.

Desde então, a Leapmotor, parte de uma nova geração de ágeis fabricantes chinesas de veículos que inclui a Xiaomi Corp., passou a oferecer três modelos na rede de distribuição europeia da Stellantis, posicionados ao lado de Citroën C3 e Fiat 500. Após iniciar alguma montagem na Polônia, a empresa planeja produzir veículos neste ano na unidade da Stellantis em Zaragoza, na Espanha.

Um acordo mais amplo com a Leapmotor ocorreria em um momento em que a Stellantis tenta se reorganizar após perder participação de mercado nos EUA e na Europa. O CEO Antonio Filosa, que assumiu o cargo em junho, deve apresentar os próximos passos estratégicos em um dia de investidores em maio, após divulgar encargos piores do que o esperado, que fizeram as ações caírem 25% em 6 de fevereiro.

A empresa já começa a colher algum retorno inicial do compromisso assumido no ano passado de investir cerca de US$ 13 bilhões nos Estados Unidos, seu principal mercado de lucros, liderado pelas marcas Jeep, Ram e Dodge. Para a Europa, os próximos passos são menos claros, com fábricas enfrentando excesso de capacidade e forte concorrência comprimindo as margens.

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