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Em meio ao Super Bowl, Kalshi – fundada por brasileira – desafia gigantes das apostas nos EUA

A preocupação maior pairando sobre a indústria é a ascensão de mercados de previsão como a startup da empreendedora brasileira

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O Super Bowl deveria ser o ponto alto do calendário para as empresas de apostas. Neste ano, porém, uma nuvem se formou sobre o setor à medida que o grande jogo se aproximava. A final acontece a partir das 20h30 do horário de Brasília.

A ação da Flutter Entertainment, que opera um dos aplicativos de apostas mais populares dos EUA, o FanDuel, está em uma sequência de oito semanas de queda — a mais longa em 23 anos. Sua principal concorrente, a DraftKings, é negociada perto dos menores níveis desde 2023 e caiu mais de 60% em relação ao seu recorde histórico, atingido cinco anos atrás.

O duelo Seattle–New England — com menos apelo de celebridades do que o evento do ano passado, embalado por Taylor Swift — é parte da explicação. Mas a preocupação maior pairando sobre a indústria é a ascensão de mercados de previsão como a Kalshi, que surgiram “do nada” no último ano oferecendo uma nova forma de apostar em esportes, contornando as regulações estaduais do jogo que restringiram a expansão dos aplicativos tradicionais de apostas.

A Kalshi é uma plataforma americana de apostas que tem a brasileira Luana Lopes Lara, de 29 anos, como uma de suas cofundadoras. No fim do ano passado, a Kalshi alcançou um valor de mercado de US$ 11 bilhões após levantar US$ 1 bilhão em nova rodada de investimentos. A brasileira tem uma participação estimada entre 10% e 20% na empresa, segundo o jornal americano New York Times.

Luana Lopes Lara e Tarek Mansour fundadores da Kalshi

Jordan Bender, analista sênior de ações do Citizens, espera volumes recordes de negociação nos mercados de previsão neste fim de semana, ao mesmo tempo em que o volume apostado nas casas esportivas tradicionais — o chamado handle — cai 2% em relação ao ano passado.

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“Uma parte grande do motivo pelo qual achamos que o handle do Super Bowl vai cair é que os mercados de previsão estão abocanhando uma fatia disso”, disse Bender.

É uma reviravolta para empresas de apostas que pareciam subir rumo a patamares cada vez maiores nos últimos anos, à medida que a obsessão americana por apostas acelerou após uma decisão da Suprema Corte em 2018 que permitiu aos estados legalizar as apostas esportivas. O volume apostado no Super Bowl cresceu por oito anos seguidos.

Ameaça inesperada

A ameaça a esses negócios veio de um lugar inesperado. Até o início do ano passado, a Kalshi, principal startup de mercados de previsão nos EUA, usava seu status de bolsa financeira regulada em nível federal para oferecer contratos financeiros de nicho ligados a eventos de cultura pop e eleições. A agência que supervisiona isso tudo, a Commodity Futures Trading Commission (CFTC), vinha indicando que os chamados contratos de “eventos” ligados a esportes estavam fora dos limites.

Então Donald Trump venceu a eleição. A Kalshi testou o terreno oferecendo suas primeiras apostas no Super Bowl no início de 2025, e a CFTC não interveio para impedi-las. Aqueles primeiros contratos eram pouco mais do que um experimento — mas, desde então, os esportes passaram a responder por mais de 90% do volume de negociação na Kalshi.

Vários analistas do setor ainda esperam que as casas de apostas esportivas existentes nos EUA arrecadem um recorde com o Super Bowl neste ano. Ed Birkin, analista sênior da H2 Gambling Capital, projeta que o total apostado — antes de incluir os mercados de previsão — suba 9% ante o ano passado, para US$ 1,78 bilhão. Mas ele estima que os mercados de previsão atraiam US$ 630 milhões em apostas no Super Bowl e respondam por 80% do crescimento ano a ano da atividade de apostas do evento.

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As estimativas médias de lucro por ação ajustado no quarto trimestre para a Flutter, feitas por analistas de Wall Street, despencaram 49% nos últimos três meses, segundo dados compilados pela Bloomberg, enquanto as expectativas de receita sofreram um corte de 6,3%. No caso da DraftKings, as estimativas de lucro caíram 29% e as projeções de receita recuaram 2,6% no mesmo período.

Alguns executivos do setor dizem que os mercados de previsão não os ameaçam nos estados onde eles já operam — e que, em vez disso, ganham espaço principalmente em cerca de uma dúzia de estados onde o jogo online tradicional não é permitido, incluindo grandes mercados como Califórnia e Texas.

A BetMGM, que tem seu próprio aplicativo de apostas esportivas, anunciou nesta semana que atraiu apostas esportivas recordes no quarto trimestre de 2024, ajudando a impulsionar um salto de 63% na receita em relação ao ano anterior.

“Não conseguimos ver nenhum impacto que possamos identificar como atribuível aos mercados de previsão”, disse o CEO da empresa, Adam Greenblatt, em entrevista.

Greenblatt afirmou que os novos entrantes também capturaram boa parte do negócio dos apostadores mais habilidosos — conhecidos como sharps — que tendem a ser menos lucrativos para as empresas de apostas.

Enquanto isso, os aplicativos tradicionais esbarram nos limites de sua expansão pelo país, após o crescimento rápido que veio logo depois da decisão da Suprema Corte. Neste ano, o único novo estado a permitir apostas legais no Super Bowl é Missouri, um mercado relativamente pequeno.

“A perspectiva para o Super Bowl 60 reflete uma transição do crescimento guiado pela expansão para um crescimento incremental, já que quase todos os estados com um caminho viável para a legalização já estão em operação”, escreveu o analista Mike Hickey, da Benchmark, em nota a clientes em 29 de janeiro.

Ainda assim, mesmo em estados onde as apostas são legais — os redutos da DraftKings e do FanDuel — surgiram sinais de fraqueza. Cerca de 10% dos usuários da DraftKings também usaram a Kalshi em janeiro, e o aplicativo da Kalshi foi baixado quatro vezes mais do que FanDuel ou DraftKings, segundo a empresa de dados Apptopia.

Kalshi, nova queridinha

Parte do apelo da Kalshi é que sua estrutura “nova” abre apostas sobre tudo — do tempo de duração do show do intervalo à probabilidade de Jeff Bezos comparecer ao evento — enquanto DraftKings e FanDuel se concentram quase exclusivamente na pontuação e no resultado do jogo.

“O crescimento da Kalshi é impulsionado por campanhas publicitárias, mídia espontânea, viralização social e, acima de tudo, uma profundidade, amplitude e distribuição superiores em comparação com as casas esportivas online tradicionais”, escreveu o analista Edwin Dorsey em um de vários posts recentes no Substack explicando por que ele está pessimista com a DraftKings.

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DraftKings e FanDuel vêm levando a ameaça a sério. Em dezembro, as duas lançaram seus próprios aplicativos de mercados de previsão, agora disponíveis em todos os estados onde seus aplicativos tradicionais não são permitidos. Mas, juntas, elas tiveram pouco menos de 100 mil downloads em janeiro, contra 1,9 milhão de downloads da Kalshi, segundo dados da Sensor Tower.

Na sexta-feira, a DraftKings anunciou que fechou uma parceria com outra bolsa de mercados de previsão ainda em estágio inicial, a Crypto.com, para oferecer uma gama mais ampla de contratos de eventos.

Reguladores do setor em vários estados foram à Justiça para tentar derrubar a Kalshi e seus pares, e muitos analistas supõem que esses casos acabarão chegando à Suprema Corte. Mas, enquanto isso, o novo presidente da CFTC, Michael Selig, indicou recentemente que vai permitir que os contratos esportivos avancem e não pretende ceder a supervisão desse território aos estados.

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