Mas a morte de Giorgio Armani, em setembro, deixou uma pergunta em aberto no coração do grupo: como fica o futuro de uma companhia que sempre girou em torno do fundador — e que segue sem clareza sobre quem será o dono e qual será o próximo passo.
O testamento dá pistas importantes, ao menos do lado societário. Armani determinou uma reestruturação com venda obrigatória de participação: 15% do capital em até 18 meses após sua morte e, depois, mais 30% a 54,9% em até cinco anos.
Ele ainda apontou um caminho específico para essa transação — priorizando compradores do tipo conglomerado (como LVMH ou L’Oréal, que opera a licença de beleza da marca). Se uma venda privada não acontecer, o plano prevê a abertura de capital.
Esse desenho dá alguma previsibilidade para o “quem compra” e “como vende”, mas não responde ao ponto mais sensível do pós-fundador: a direção criativa. O testamento não amarra um sucessor estético — a figura que decide como a marca se mantém relevante num mercado em que tendências, linguagem visual e desejo do consumidor mudam rapidamente.
Por enquanto, o comando das coleções ficou com nomes históricos da casa, que trabalharam ao lado de Armani por décadas, reforçando um caminho de transição gradual. Silvana Armani, diretora de criação de moda feminina e sobrinha do fundador, tem 70 anos; Leo Dell’Orco, responsável pela masculina, tem 73. São bem mais jovens do que Armani, que morreu aos 91 — mas não exatamente gente trazendo uma nova perspectiva.
Analistas e editores de moda veem aí tanto um risco quanto uma oportunidade: a Armani tem reconhecimento global maior do que seu desempenho recente sugere e poderia destravar categorias ainda pouco “assinadas” pela marca, como couro e acessórios.
Para Luca Solca, analista sênior da Bernstein ouvido pelo Financial Times, o império Armani é um negócio que “se beneficiaria de um polimento, co um foco maior em varejo, além de uma renovação criativa.”
Mas isso exigirá não só uma reorganização societária — exigirá também uma definição clara de rumo criativo, para que a empresa não vire apenas um “inventário” bem administrado.
