As duas companhias confirmaram que mantêm conversas preliminares sobre uma possível combinação de negócios, que pode incluir uma fusão integral por troca de ações. Se avançar, a operação criaria um grupo com valor empresarial acima de US$ 250 bilhões, configurando uma das negociações mais ambiciosas da história recente da mineração global.
A anglo-australiana Rio Tinto informou que tem até 5 de fevereiro para decidir se apresenta uma proposta formal pela suíça Glencore. Pelas regras do mercado britânico, a companhia precisará, até essa data, anunciar uma oferta firme ou declarar que não pretende seguir adiante. Em 2024, as duas empresas também discutiram uma fusão, mas não chegaram a um acordo.
No caso da Vale, o cronograma adiciona um elemento de curto prazo a uma discussão estratégica de longo alcance. Em poucas semanas, pode ficar mais claro se o setor caminha para a formação de um novo gigante global — com presença relevante na América do Sul — ou se a pressão por consolidação seguirá viva, à espera de outra oportunidade.
Ainda é cedo para cravar ou prever qualquer efeito sobre a Vale. Mas, seja qual for a decisão, a mineradora brasileira terá de lidar com um ambiente em que a concorrência tende a ficar mais concentrada e com players maiores, com influência direta sobre suas decisões estratégicas daqui para frente.
Desafio à Vale
A Vale atravessa um momento de reafirmação estratégica após as turbulências internas e crises ambientais da última década. Em uma agenda conduzida pelo CEO Gustavo Pimenta, a mineradora aposta em um balanço mais sólido e com baixo endividamento. A estratégia do executivo está ancorada em minério de ferro de maior qualidade e na expansão gradual de metais ligados à transição energética, como cobre e níquel.
Pimenta tem reiterado o objetivo de recolocar a companhia como a maior mineradora do mundo, mas sem recorrer a grandes aquisições. A estratégia adotada até aqui privilegia projetos já existentes, como o complexo de Carajás (PA), além de ganhos operacionais e disciplina de capital.
A eventual criação de um gigante a partir da união entre Rio Tinto e Glencore, no entanto, introduziria um concorrente com perfil distinto: mais diversificado, mais integrado e com exposição simultânea a minério de ferro, cobre e ao trading de commodities.
A pressão concorrencial se intensifica porque esse novo grupo teria presença relevante justamente na América do Sul, região que concentra alguns dos ativos mais estratégicos para a Vale.
A Rio Tinto mantém operações industriais no Brasil, como a refinaria de alumina da Alumar, no Maranhão, além de participações históricas na cadeia do alumínio. Fora do país, a mineradora anglo-australiana vem ampliando sua aposta em minerais críticos, com projetos de lítio no Chile e na Argentina.
Além disso, a Rio Tinto avança no desenvolvimento do megaprojeto de minério de ferro de Simandou, na Guiné — um ativo fora da América do Sul, evidentemente, mas com impacto direto sobre o mercado global de minério de ferro de alta qualidade, hoje amplamente dominado pela Vale.
A Glencore, por sua vez, tem uma presença ainda mais extensa e diversificada na América do Sul, especialmente no cobre. No Chile, a companhia detém participação relevante em ativos de grande escala, como a mina de Collahuasi, uma das maiores produtoras globais do metal, além de operações como Lomas Bayas.
No Peru, opera minas como Antapaccay e desenvolve projetos adjacentes que ampliam a vida útil e a escala dessas operações. Já na Argentina, a empresa trabalha para destravar projetos de cobre de grande porte, como El Pachón e Agua Rica, que o mercado já enxerga como parte da próxima fronteira de expansão do metal.
Para a Vale, esse cenário significaria competir não apenas com projetos isolados, mas com um grupo capaz de otimizar portfólio, realocar capital entre diferentes commodities e capturar sinergias operacionais e comerciais em escala global — com reflexos diretos sobre preços, investimentos e participação de mercado.
Momentos distintos
Do ponto de vista financeiro, a Vale chega a esse momento em posição confortável. No terceiro trimestre de 2025, a companhia teve receita de US$ 10,4 bilhões, com um resultado operacional (Ebitda) de US$ 4,4 bilhões e lucro líquido de US$ 2,7 bilhões, com dívida líquida de US$ 12,5 bilhões — representando uma alavancagem de 0,8 vez o Ebitda.
No plano operacional, a produção de minério de ferro somou 94,4 milhões de toneladas, o maior volume para um terceiro trimestre desde 2018, no que a empresa atribui a custos baixos e melhora no mix de produtos. Hoje, o valor de mercado da Vale está em US$ 63 bilhões.
A Rio Tinto, por sua vez, vive um momento de maior pressão, mas ainda com números expressivos. A mineradora anglo-australiana registrou lucro de US$ 4,5 bilhões nos seis primeiros meses de 2025 (dados mais recentes), com Ebitda próximo de US$ 10 bilhões.
No minério de ferro, os embarques chegaram a 157 milhões de toneladas, impactados por eventos climáticos na Austrália. A Rio Tinto tem um market cap estimado em US$ 200 bilhões.
Já a Glencore apresentou resultados mais voláteis. No primeiro semestre de 2025, a empresa teve receita de US$ 117,4 bilhões e Ebitda ajustado de US$ 5,4 bilhões, mas fechou o período com prejuízo de US$ 655 milhões, pressionada por ajustes em ativos de carvão e pela queda de preços de algumas commodities.
Ainda assim, mantém forte exposição ao cobre, com expectativa de produzir entre 850 mil e 890 mil toneladas do metal ao longo do ano. O valor de mercado da Glencore gira em torno dos US$ 70 bilhões.
Consolidação
A retomada das negociações entre Rio Tinto e Glencore representa mais um capítulo das conversas de consolidação entre gigantes da mineração diante dos desafios crescentes da atividade. No ano passado, o setor voltou a dar sinais claros de que a busca por escala e por maior exposição a metais estratégicos — especialmente o cobre — passou novamente a orientar as discussões sobre fusões e aquisições.
Um dos exemplos mais recentes foi o acordo entre Anglo American e Teck Resources, anunciado em setembro de 2025 e aprovado pelos acionistas em dezembro. A operação resultou na criação do grupo Anglo Teck, hoje uma das maiores produtoras de cobre do mundo, com capacidade combinada superior a 1,2 milhão de toneladas e sinergias estimadas em cerca de US$ 800 milhões por ano.
O negócio foi interpretado por analistas como um ponto de inflexão após um período em que o setor evitou grandes movimentos de consolidação, em parte por negociações que não avançaram — como o fracasso das conversas entre Rio Tinto e Glencore no fim de 2024. “As megafusões no setor de mineração estão de volta”, escreveram analistas da Jefferies em um relatório a clientes.
A escalada do cobre
A eventual fusão entre Rio Tinto e Glencore controlaria 7% da produção mundial de cobre. Em 2024, a Glencore extraiu 950 mil de toneladas; a Rio Tinto, 700 mil. Juntas, portanto, as duas alcançariam 1,65 milhão – chegando bem perto da líder BHP (1,86 milhão de toneladas).
A produção combinada seria equivalente a 4,5 vezes o que a Vale extrai de cobre – foram 350 mil toneladas em 2024.
O foco no metal marrom-alaranjado é natural. Ele sobe 40% nos últimos 12 meses, por conta da demanda de data centers e motores elétricos pelo mais clássico dos bons condutores de energia. Trata-se de uma alta que nem fica tão atrás daquela do ouro, a mais alardeada, com 67%.
Escassez de projetos
Só que a pressão por escala não é apenas uma reação aos preços elevados do cobre, mas também reflexo da escassez de projetos de grande porte próximos de entrar em produção. Com novos empreendimentos cada vez mais caros, longos e arriscados, as empresas passaram a buscar alternativas que permitam ganhar acesso mais rápido a novas reservas e diluir riscos financeiros.
No caso específico de Rio Tinto e Glencore, a retomada das conversas é lida por operadores e analistas como parte dessa mesma lógica. A Glencore vem reorganizando seu portfólio, com a reestruturação de ativos de carvão e maior foco em metais críticos, enquanto a Rio Tinto ajusta sua estratégia para reduzir custos e ampliar a presença em minerais além do minério de ferro.
Esse movimento ocorre em um momento em que outros grandes nomes também figuram no tabuleiro da consolidação. A BHP, maior mineradora do mundo em valor de mercado, tentou sem sucesso adquirir a Anglo American nos últimos anos e agora deve buscar alternativas para não ficar para trás.
Analistas do Bank of America ouvidos pelo The Wall Street Journal observam que o acordo entre Anglo American e Teck criou uma espécie de momento de “agora ou nunca” no setor — e que a principal incógnita passa a ser como a BHP responderá a esse novo ciclo.
Colaborou Alexandre Versignassi
