A Vero, quarta maior empresa de fibra óptica do país, escolheu uma terceira via. Em vez de pagar prêmio para crescer ou aceitar prêmio para sair do negócio, a companhia controlada pelas gestoras Vinci Compass e Warburg Pincus avalia que faz mais sentido rentabilizar o que já construiu e incorporar à oferta os “combos” adaptados aos novos tempos: chip de celular e pacote de streaming.
É uma estratégia que tem nome técnico – convergência – e uma matemática específica: a Vero tem 1,3 milhão de clientes, mas seus cabos de fibra óptica passam por 7,2 milhões de residências.
O racional é crescer com a venda em conjunto de serviços móveis, streaming e ofertas para pequenas e médias empresas para quem não é assinante mas já está ao alcance da infraestrutura da empresa, diz Fabiano Ferreira, CEO da Vero, em conversa com o InvestNews.
O ponto de partida está no que sobra de rede. Em cidades onde a empresa opera há mais de três anos, fora capitais e rede neutra, o take-up rate é de 26% – isso significa que praticamente três quartos das casas com fibra disponível seguem sem ser cliente da Vero.
Para uma companhia que cresceu por meio de aquisições, incluindo uma fusão com a Americanet em dezembro de 2023 e a consolidação de 18 CNPJs anteriores em uma única estrutura jurídica, o ativo mais relevante hoje não é a próxima cidade a ser conquistada: é ganhar espaço na casa que já tem fibra na porta e ninguém assinando dentro.
“Neste momento, eu não preciso de mais infraestrutura”, acrescenta Ferreira. “Mais infraestrutura vai vender mais, só que em uma fase de custo de capital mais caro; todo mundo tem que olhar para dentro de casa e ver como aproveitar os ativos já construídos.”
Aumento das vendas
A estratégia já trouxe os primeiros efeitos. Em janeiro de 2024, 17% dos clientes de banda larga da Vero tinham algum produto adicional, fosse streaming ou telefonia móvel. Quase dois anos depois, em dezembro do ano passado, o número saltou para 41%.
A penetração do pacote de telefonia móvel sobre a base é de 11,7%, enquanto o streaming chegou a 37% dos assinantes. No caso do streaming, o produto funciona como uma venda mais complementar à banda larga.
Por meio dos pacotes da Vero é possível acessar serviços de streaming como Globoplay, Max, Paramount+, Disney+, Telecine, Premiere e YouTube Premium, além da plataforma própria Vero Vídeo.
A combinação, diz Ferreira, reduz o custo percebido pelo cliente e “amarra” o assinante à banda larga, dificultando a migração para a concorrência.
Mas é na operação móvel que a Vero vem encontrando mais rentabilidade. A companhia opera como MVNO, sigla em inglês para operadora virtual, alugando a infraestrutura de antenas e frequências da TIM e oferecendo o serviço sob marca própria. Foi herança da Americanet, que já tinha o produto desde 2018.
No quarto trimestre de 2025, a Vero abocanhou 9,2% das adições líquidas de móvel pós-pago nas cidades onde atua, desempenho que, segundo Ferreira, equivale ao de uma grande operadora.
Fechou o ano com 302 mil linhas ativas, alta de 27,7% sobre 2024. Metade dos novos clientes que assinam a Vero hoje já entra com móvel junto ao plano de fibra, contra 7,5% no início de 2024.
O ticket médio do cliente novo, o ARPU na linguagem do setor, já é maior que o da base existente, sinal de que a estratégia funciona não apenas para defender receita mas para puxá-la para cima. O ARPU consolidado fechou 2025 em R$ 115,02, alta de 5% em um ano.
O CEO da Vero lembra ainda que vender plano de celular exige pouco investimento próprio em infraestrutura, porque a Vero usa as antenas da TIM. Em compensação, paga aluguel pelo uso dessa rede. O resultado é que o serviço móvel pesa mais nos custos operacionais do dia a dia e menos nos investimentos de longo prazo.
“A margem da telefonia móvel é menor que a da banda larga, é fato”, afirma. “Mas, quando olho a última linha, que é o Ebitda menos investimentos, a margem do serviço móvel é parecida – e tende a ser até melhor – que a da banda larga sozinha.”
Os números da Vero ilustram a tese. Em 2025, a geração de caixa operacional somou R$ 455 milhões, alta de 27,7% sobre 2024. Como proporção da receita líquida, passou de 21,5% para 26,3%. Trata-se do dinheiro que sobra no caixa depois que a empresa paga fornecedores, impostos e investimentos em rede.
Quanto maior esse número, mais autonomia a companhia tem para decidir o que fazer com o resultado: abater dívida, distribuir dividendos, comprar concorrentes ou simplesmente esperar que a janela de mercado melhore.
Consolidação da fibra óptica
Enquanto a Vero aposta em não comprar nem ser comprada, a primeira grande transação do setor em mais de dois anos estabelece um novo parâmetro de preço para o setor.
No fim de março, a Claro anunciou a compra da Desktop, maior ISP do interior de São Paulo, por um enterprise value (valor que já considera as dívidas) de R$ 4 bilhões.
As duas companhias são parecidas em escala. A Desktop tem 1,2 milhão de clientes, faturou R$ 1,2 bilhão em 2025 e crescia 8% ao ano. A Vero tem 1,36 milhão, faturou R$ 1,73 bilhão e cresceu 4%.
A operação saiu a 6,2 vezes o Ebitda, prêmio relevante sobre os 4,5 vezes em que a Desktop negociava na Bolsa. Foi a primeira grande transação envolvendo uma das três grandes operadoras e um ISP regional desde a fusão Vero-Americanet, anunciada em julho de 2023.
Para o CEO da Vero, qualquer movimento para novas aquisições vai passar por dois fatores: o preço dos ativos disponíveis e o custo do dinheiro para comprá-los. “Hoje, para a gente comprar uma empresa de 50 mil clientes não faz muita diferença”, diz Ferreira. “Tem todo esse contexto: se tiver uma integração geográfica que faça sentido e o preço certo. Hoje não está a um preço justo.”
A janela em que a Vero comprou e cresceu, entre 2019 e 2023, fechou. A internet de fibra, que sustentou crescimento de dois dígitos por anos, perdeu tração, e a própria estrutura financeira da empresa mostra que hoje a monetização dos ativos atuais faz mais sentido.
A companhia terminou 2025 com dívida líquida de R$ 2,82 bilhões e alavancagem de 3,06 vezes o Ebitda. É um patamar gerenciável para uma companhia cujas debêntures – 87% do passivo – têm prazo médio de 4,86 anos e a maioria é indexada ao IPCA. Mas é também uma estrutura que limita movimentos mais transformadores enquanto o custo de capital seguir alto.
