Ou será que também é o açúcar?
A performance impressionante de Sabastian Sawe — abaixo de duas horas (1:59:30) na Maratona de Londres de domingo (26) seguida de perto por uma corrida possivelmente ainda mais surpreendente de 1:59:41 do estreante Yomif Kejelcha, gerou discussões entusiasmadas sobre como essa marca de 2 horas, antes considerada inquebrável, caiu duas vezes no mesmo dia.
Grande parte da atenção se concentrou nos tênis de corrida leves com placa de fibra de carbono da Adidas usados por Sawe e Kejelcha. Esses calçados, sobre os quais Rachel Bachman, do Wall Street Journal, escreveu recentemente, pesam apenas cerca de 96 gramas no tamanho masculino 41 (equivalente ao 9 dos EUA) — menos do que uma barra de sabonete Irish Spring. O baixo peso e o efeito de “mola” da fibra de carbono se combinam para formar uma arma poderosa: o “super-tênis”.
Menos conhecido — mas igualmente relevante — é o salto de pensamento que está acontecendo com o meu esporte favorito: a alimentação.
Em esportes de resistência extenuantes como o ciclismo e agora a corrida, atletas estão consumindo quantidades sem precedentes de carboidratos açucarados, tanto em treinos quanto em competições, por meio de géis de ação rápida e garrafas carregadas de glicose e frutose.
Eu vi isso pela primeira vez no outono passado, viajando no carro da Team USA no campeonato mundial de ciclismo em Ruanda. Eu não conseguia acreditar no volume de carboidratos açucarados ingeridos pelos atletas. Eu achava que comer e beber tanto disso deveria causar vômito.
Não mais. O dia de prova virou um buffet estilo Willy Wonka, à vontade.
“Isso mudou o jogo”, diz Anna Carceller, médica e chefe de nutrição da EF Pro Cycling.
Sim, para quem corre: o carregamento de carboidratos é uma prática antiga do endurance, e os açúcares sempre foram usados como forma de energia rápida. Atletas sempre consumiram balas e gomas. Jimmy Connors comia uma barra de Snickers entre os sets.
Mas o excesso de qualquer substância em competição sempre envolvia risco significativo: desconforto gastrointestinal incapacitante e/ou diarreia. Acho que é a primeira vez que uso a palavra diarreia na minha coluna. História.
Dobro de carboidratos
Hoje, médicos do esporte acreditam ter decifrado o código. Atletas de elite agora consomem o dobro de carboidratos do que há poucos anos.
“É sobre se alimentar ao longo de toda a prova”, diz Jim Miller, chefe de performance esportiva da USA Cycling. “É só manter o motor funcionando.”
Para ser claro: esses atletas não estão consumindo os antigos géis esportivos ruins que todos conhecemos e odiamos, aqueles que têm gosto de tangerina e luvas de beisebol mofadas.
Isso é combustível de alta performance e rápida absorção, para o qual os atletas precisam literalmente “treinar o intestino” para suportar toda a carga de carboidratos.
E isso está funcionando.
“Como se vê na maratona, isso é enorme”, diz Michael Roshon, médico-chefe da USA Cycling e da USA Triathlon.
“Não é só saber se alimentar corretamente na prova”, acrescenta Roshon. “Se você se alimenta corretamente durante todo o treino, você corre mais rápido e se recupera mais rápido. Você cria um tipo de efeito de ciclo positivo.”
Sawe trabalha com uma empresa sueca chamada Maurten, que coordena e fornece sua nutrição de prova.
O chefe de tecnologia esportiva da Maurten, Josh Rowe, lembra como, não muito tempo atrás, grandes provas tinham baldes de enjoo na linha de chegada para competidores enjoados.
“Existia um paradoxo de desempenho”, diz Rowe. “Os atletas sabiam que precisavam de carboidratos, mas também havia o risco de problemas gastrointestinais.”
A Maurten usa uma substância chamada “hidrogel” — um gel há muito usado na medicina para administrar medicamentos — para fornecer carboidratos de ação rápida sem causar problemas estomacais ou desconforto durante a corrida.
No domingo, Sawe, que tinha membros da equipe posicionados ao longo do percurso para reabastecer seus géis e bebidas, ingeriu 25 gramas de carboidratos no início, depois 25 gramas a cada cinco quilômetros, chegando a triplicar essa dose no quilômetro 20, totalizando 230 gramas de carboidratos na corrida de duas horas em Londres.
Isso parece um monte de números técnicos — e é mesmo. Mas é uma mudança importante.
Rowe viajava regularmente ao acampamento de Sawe no Quênia, onde simulavam ambientes de competição e estratégias de alimentação para preparar o estômago do atleta — o “treinamento do intestino” essencial para o dia da prova.
“É semelhante à tecnologia dos tênis”, diz Rowe. “Os atletas conseguem ingerir carboidratos de forma bastante agressiva no treino, algo que antes não faziam.”
Obviamente, carboidratos não são a única razão para Sawe ter quebrado a barreira das 2 horas. Muitos fatores contribuíram: os tênis, métodos de treino aprimorados, bom sono, percurso rápido, forte competição, vento favorável no dia da prova e, claro, o próprio Sawe.
E sim, o espectro do doping sempre ronda o esporte. A equipe de Sawe buscou afastar especulações com testes frequentes e voluntários.
Andy King, professor de ciência do exercício na Universidade Swinburne, na Austrália, se impressiona com a ingestão de carboidratos de Sawe em Londres. Ainda assim, acredita que, se for uma disputa entre tênis e açúcar… provavelmente são os tênis.
“Não acho que isso seja tão dramático quanto o avanço da tecnologia dos tênis”, escreve por e-mail. “Mas acho que a nutrição tem sido uma ferramenta subutilizada no treinamento de resistência.”
Isso é claramente verdade. De fato, o novo pensamento no esporte considera o estômago do atleta quase tão importante quanto as pernas — uma arma a ser treinada e aproveitada.
“É enxergar o sistema digestivo como um dos fatores de desempenho”, diz Carceller, da EF Pro Cycling. “Isso não era considerado no passado.”
E aí está. Você talvez não queira gastar tanto dinheiro nesses tênis sofisticados. E provavelmente não tenha pernas para correr uma maratona sub-2 horas. Mas quem sabe… talvez você tenha o estômago.
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