“Isso é uma boa notícia para nós”, escreveu um líder das operações da fabricante de móveis localizada no México. “Ainda é cedo para saber o que isso significa”, enviou minutos depois a chefe de merchandising. Ela complementou pouco depois: sem orientação do tribunal sobre reembolsos, “as empresas precisam continuar pagando”.
Agora que a Suprema Corte resolveu uma questão sobre as tarifas de Trump, deixou líderes empresariais dos EUA inundados por outras dúvidas: os reembolsos estão mais próximos da realidade? A possibilidade de novas tarifas sob outra base legal pode sair ainda mais cara? E como agir sem desagradar o governo Trump — que baseou sua agenda econômica nas tarifas — ou clientes que buscam redução de preços?
Muitos executivos dizem que passaram o fim de semana analisando pareceres jurídicos e a resposta do presidente para projetar os próximos passos. Desde a decisão, Trump anunciou uma nova tarifa global de 15% sob outra autoridade legal, argumentando que as taxas são necessárias para enfrentar grandes déficits comerciais e no balanço de pagamentos.
“Vamos tentar entender muito melhor”, disse Kathwari sobre os próximos dias. “É um pouco complicado.”
Mark Mintman, diretor financeiro da Kids2, fabricante de produtos para bebês e brinquedos com sede em Atlanta, soube da decisão enquanto estava de férias na Flórida, por meio de uma sequência de mensagens de texto. Como estava fora do escritório, inseriu as 170 páginas da decisão no ChatGPT para obter um resumo rápido.
“Minha reação emocional é contida”, disse Mintman, diante de toda a incerteza e das possíveis tarifas adicionais. “Vou encarar isso como uma pequena vitória.”
A Kids2 vendeu cerca de metade do valor potencial de reembolso — estimado em US$ 15 milhões — a um hedge fund para recuperar parte dos custos. O fundo também ajudará em eventual ação judicial para buscar o reembolso. A incerteza em torno da devolução “foi um grande motivo para fecharmos o acordo”, disse.
Pressão por reembolsos
Entidades do setor de varejo, fabricantes de roupas e outros afirmaram esperar que as empresas possam recuperar rapidamente bilhões pagos em tarifas. A National Retail Federation pediu que os tribunais garantam um “processo fluido para devolver as tarifas aos importadores dos EUA”. Neil Bradley, diretor de políticas da Câmara de Comércio dos EUA, afirmou que reembolsos rápidos das “tarifas indevidas” ajudariam mais de 200 mil pequenos importadores.
Alguns advogados alertaram que as empresas podem precisar recorrer à Justiça para obter os valores. “Não parece que será automático”, disse David Dorey, sócio do escritório Fisher Phillips. “Há questões em aberto sobre o que isso significa e se vale a pena.”
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou na sexta-feira que litígios ligados a reembolsos podem se arrastar por meses, se não mais, e trazer pouco benefício aos consumidores. “Tenho a sensação de que o povo americano não verá isso”, disse no Economic Club of Dallas.
Para Franco Salerno, copropietário da Darianna Bridal & Tuxedo, na Pensilvânia, a preocupação imediata é se os clientes vão exigir dinheiro de volta, já que os preços de roupas de noiva subiram em média entre 8% e 14% após as tarifas entrarem em vigor. Muitos fornecedores adicionaram uma taxa específica de tarifa nas faturas, mas alguns simplesmente elevaram os preços sem discriminar o custo adicional.
“Meu primeiro pensamento foi: ‘Meu Deus, todos os clientes do mundo vão exigir reembolso das tarifas’”, disse Salerno.
Ele teme que isso resulte em prejuízo para seu negócio, que emprega 13 pessoas. “Posso quase garantir que alguns dos meus fornecedores não vão me reembolsar se isso for determinado pelos tribunais”, afirmou.
‘Modelando constantemente’
Executivos de grandes empresas mantêm verdadeiras “salas de guerra” para analisar os efeitos das políticas comerciais. Antes da decisão da Suprema Corte, muitas multinacionais criaram sistemas, forças-tarefa e modelos algorítmicos para avaliar diferentes cenários, incluindo o que ocorreria se as tarifas fossem derrubadas, disse Christoph Schweizer, CEO da Boston Consulting Group.
Como resultado, “as empresas globais mais sofisticadas conseguem simular os impactos da decisão dos EUA em poucas horas”, afirmou. “Elas estão modelando constantemente.”
A Chicken of the Sea International avalia se a decisão pode ajudar a reativar a produção em uma fábrica de enlatados na Geórgia que depende de atum importado.
A empresa vinha pagando tarifas entre 15% e 20% sobre atum congelado da Tailândia, Vietnã e outros países, o que já custou mais de US$ 10 milhões desde o outono, segundo o presidente Andy Mecs. A produção na planta, que emprega 250 pessoas, foi reduzida de cinco para quatro dias por semana devido aos custos mais altos.
“Se tivéssemos uma operação mais eficiente em termos de custo, poderíamos ampliar a produção”, disse Mecs.
Ajustar cadeias de suprimento pode levar meses ou até anos, razão pela qual algumas empresas afirmaram estar cautelosas quanto a movimentos bruscos após a decisão.
A Tilit, fabricante de aventais, calças e uniformes para chefs e hospitalidade, transferiu a maior parte da produção da China para México e Colômbia após a imposição de tarifas mais altas. A empresa também está montando uma nova fábrica no Egito.
A cofundadora e CEO Jenny Goodman disse que recebeu uma mensagem em letras maiúsculas com emoji sorridente e emocionado de seu diretor de operações após a decisão. Sua maior preocupação é se a Tilit conseguirá recuperar as tarifas pagas em um pedido especial da China no ano passado.
“Foi 40% mais caro do que havíamos orçado inicialmente”, disse Goodman. A empresa ainda não buscou ação judicial, mas “definitivamente é algo a considerar agora”.
Para a Nils Skiwear, empresa de vestuário na Califórnia, a decisão chegou tarde demais. O negócio, com 47 anos de história, decidiu no fim do ano passado não avançar com a coleção 2026-2027.
“No que diz respeito à gestão atual, estamos praticamente encerrando”, disse o presidente Richard Leffler. “Estamos abertos a que outra pessoa assuma.”
A Nils absorveu tarifas mais altas no ano passado, o que gerou pequeno prejuízo. Repassar os custos teria acrescentado cerca de US$ 200 a uma parka que custava entre US$ 400 e US$ 600.
“Era além do que nos sentiríamos confortáveis”, disse Leffler.
Segundo ele, a empresa poderia ter tido mais chances de continuar operando se a decisão tivesse saído no outono.
“Se soubéssemos que receberíamos parte do dinheiro de volta, talvez tivéssemos seguido adiante”, afirmou. “Agora é tarde demais.”
