A fabricante de chips e outras gigantes de tecnologia estão tentando transformar em realidade uma ideia que há muito tempo fascina futuristas — canalizar a energia do Sol por meio de naves espaciais para sustentar atividades na Terra — agora aplicada ao processamento de inteligência artificial.
Elon Musk reposicionou grande parte do futuro da SpaceX em torno da operação de data centers de IA no espaço. A Blue Origin, de Jeff Bezos, também planeja um grande negócio nesse segmento, enquanto o Google, da Alphabet, e a Planet Labs trabalham em uma missão para testar como satélites poderiam operar sistemas de computação de IA.
Defensores da ideia afirmam que transferir o processamento para a órbita permitirá que desenvolvedores de IA escalem a tecnologia sem os gargalos enfrentados na Terra, incluindo restrições e pressões políticas contra a instalação de data centers.
A implementação de data centers em órbita exigirá avanços significativos de engenharia, desde a gestão de radiação até tecnologia de foguetes. Um dos principais desafios é produzir e lançar grande quantidade de equipamentos sem que os custos se tornem proibitivos. Alguns engenheiros questionam a viabilidade econômica do modelo, e ainda há muitas dúvidas em aberto.
Como funcionaria um data center em órbita?
Na Terra, data centers são compostos por fileiras de servidores em grandes instalações com controle de temperatura.
No espaço, esses centros seriam formados por enxames de satélites equipados com chips de IA, que dependeriam de painéis solares para gerar energia.
Esses satélites devem operar em órbitas que passam próximas aos polos da Terra, para maximizar a exposição ao Sol.
Energia solar como promessa…
Satélites já utilizam energia solar há décadas, mas os sistemas para IA exigiriam uma escala muito maior.
A Estação Espacial Internacional gera energia suficiente para alimentar cerca de 100 chips avançados de IA, segundo estimativas. Um data center orbital, porém, precisaria abastecer milhares de chips distribuídos em milhares de satélites.
Isso implica o uso de enormes painéis solares. Em um evento em março, Musk mostrou uma renderização do “AI Sat Mini” da SpaceX — um satélite com painéis solares tão extensos que ultrapassariam o comprimento do foguete Starship, com cerca de 120 metros de altura.
“Painéis solares na escala de quilômetros são o que será necessário”, afirmou o CEO da Rocket Lab, Peter Beck.
…mas calor e refrigeração são obstáculos
O espaço é frio, mas é um vácuo — o que dificulta a dissipação de calor. Por isso, satélites de IA precisarão de sistemas avançados de controle térmico.
Esse é um dos principais desafios para tornar os data centers orbitais competitivos em custo com os terrestres.
“Gerenciar calor no espaço é difícil, o que significa, na prática, caro”, disse Shanti Rao, consultora de sistemas espaciais e ex-NASA.
Os satélites utilizariam radiadores — estruturas metálicas planas e escuras voltadas para o espaço — para dissipar o calor gerado pelos chips.
Radiadores maiores aumentam o peso e a complexidade dos satélites, elevando custos e riscos de falha.
Transmissão de dados no espaço
Outro desafio é garantir comunicação eficiente entre satélites e entre o espaço e a Terra.
Links ópticos a laser seriam usados para conectar satélites entre si, simulando clusters de computação semelhantes aos da Terra. Mas isso exige muita energia.
“Quer enviar muita, muita informação?”, disse Daniel Bliss, professor de engenharia da Arizona State University. “Então você precisa de muita, muita energia.”
Também há limitações na comunicação com a Terra via radiofrequência, que possui capacidade restrita de tráfego de dados.
Lançamentos mais baratos são essenciais
A viabilidade econômica depende fortemente do custo de lançamento.
Pesquisadores do Google estimam que, se o custo cair para cerca de US$ 200 por quilo, data centers orbitais poderiam competir com os terrestres. Hoje, missões no foguete principal da SpaceX custam cerca de US$ 3.400 por quilo.
Ainda assim, não há garantia de queda de preços. A própria SpaceX elevou recentemente o preço de lançamentos do Falcon 9.
O empreendedor Baiju Bhatt, da startup Cowboy Space, concluiu que sua empresa precisaria desenvolver seus próprios foguetes para viabilizar o modelo. A companhia levantou US$ 275 milhões para isso.
“Queremos destravar a economia que torna isso competitivo. Você precisa controlar o seu próprio destino”, disse Bhatt.
Também será necessário um número massivo de satélites
Outro desafio é a escala: serão necessários milhares de satélites.
“Será um esforço gigantesco para produzir todos esses satélites”, disse o consultor Stuart Taylor.
A conta fecha?
O engenheiro Andrew McCalip criou uma ferramenta para comparar custos entre data centers orbitais e terrestres.
A conclusão é de trade-offs: se energia terrestre encarece, o modelo espacial ganha atratividade; se lançamentos não caem de preço, a viabilidade piora.
“Se você fizer as contas de forma honesta, a física não elimina a ideia, mas a economia é brutal”, afirmou McCalip.
