Naquele momento, a dupla ainda estava nos primeiros passos do desafio “Drinking Around the World (a volta ao mundo em drinks)” — um fato preocupante para um parque temático voltado a famílias e contos de fadas.
Mais de oito bebidas depois, com o desafio concluído, Featherstone e Donnellon estavam completamente bêbados. “Eu conseguia sair andando com as minhas próprias pernas, mas pensava: ‘Preciso deitar’”, disse Donnellon, criador de conteúdo de 25 anos. “Você fica bem f—ido.”
O Drinking Around the World, um desafio criado por fãs que consiste em pedir uma bebida em cada um dos 11 países do World Showcase, no Epcot, existe há décadas. Mas um recente aumento da atenção nas redes sociais colocou a tradição sob os holofotes. Também evidenciou a linha tênue entre o mágico e o caótico no parque da Disney.
Defensores dizem que o desafio é uma experiência enriquecedora, permitindo que visitantes experimentem culturas e sabores do mundo. Há inúmeras formas de completá-lo sem ficar bêbado, especialmente porque não existe um livro de regras que determine que as 11 bebidas precisam conter álcool ou ser consumidas em uma única tarde, afirmou AJ Wolfe, fundadora do Disney Food Blog e autora de “Disney Adults”.
“Se você vai à Disney World para ficar bêbado, então você tem um problema”, disse ela.
Para alguns, no entanto, esse é exatamente o objetivo.
José Lopez, bartender da La Cava del Tequila, no pavilhão do México, disse que é fácil distinguir quem vai ao bar para aprender sobre tequila e cultura mexicana de quem está ali apenas para beber.
“Eles querem 10 doses e 10 margaritas, e querem seguir para o próximo país”, disse.
Lopez passa por treinamentos a cada seis meses, que incluem como identificar sinais de intoxicação excessiva e como agir. Em seus 35 anos de trabalho no Epcot, ele já viu visitantes dormirem em mesas de restaurantes, escorregarem de bancos do parque e, ocasionalmente, serem levados às pressas ao pronto-socorro para lavagem estomacal.
O resultado: ele não hesita em cortar alguém. “Eu olho para a pessoa e digo: ‘Pegue um copo de água porque você não está bem’.”
Featherstone e Donnellon já fizeram o desafio várias vezes e documentaram todas as tentativas, acumulando dezenas de milhões de visualizações no TikTok e no YouTube. Eles dizem que ficar bêbado cercado por famílias em férias é um exercício de equilíbrio que faz parte do apelo.
“Existe algo estranhamente sóbrio no cenário”, disse Donnellon. “É uma embriaguez interna: se você passasse por nós, não perceberia. Mas se tentasse conversar — acabou.”
Em outras palavras: “Você tem que se manter concentrado para não assustar as crianças”, disse Featherstone.
Eles afirmam que é importante lembrar que o desafio é uma maratona, não uma corrida, e que é preciso planejar. As recomendações: não tomar muitas bebidas doces seguidas (dor de estômago), nem muitas bebidas congeladas em sequência (congelamento cerebral), e garantir paradas para comprar lembrancinhas (troféus).
E, ao contrário do que muita gente acredita, eles dizem que o ideal é começar no Canadá e terminar no México. Assim, dá para entrar no clima em um dos pavilhões menos animados e encerrar com uma festa de alta energia.
“Algumas pessoas dizem que isso é ao contrário, mas essas pessoas simplesmente não entendem do jogo”, disse Donnellon.
A Disney afirmou que o Epcot é o único lugar onde é possível saborear sabores e tradições de 11 países em um único dia. “Esperamos que nossos visitantes aproveitem essas ofertas de forma responsável, para que a experiência continue divertida e segura para todos”, disse um porta-voz.
Quem ultrapassa o limite enfrenta consequências.
Brooke Kelly enfrentou o desafio com amigos no início deste ano e documentou a experiência no TikTok. Os primeiros vídeos trazem a legenda “Como o ‘drink around the world’ começou” e mostram o grupo em frente ao pavilhão American Adventure, bebidas nas mãos, enquanto uma mulher canta “The Star-Spangled Banner”.
No auge da música, um dos homens pula na fonte em frente ao pavilhão, levando funcionários da Disney e seguranças a intervir. O último vídeo, com a legenda “Como terminou”, mostra o homem sendo escoltado para fora do parque.
Kelly, que não respondeu a um pedido de comentário, disse nos comentários do vídeo que o grupo não foi banido do parque.
Skip Sher, fundador do Disney Day Drinkers Club, disse que a primeira coisa que faz ao ver uma manchete sobre comportamento alcoólico em um parque da Disney é checar as redes sociais do grupo para garantir que a pessoa não seja membro.
“É constrangedor para mim quando vejo esse tipo de coisa”, disse. “Porque não é para isso que o parque foi criado.”
Segundo Sher, os membros do clube tendem a ser um pouco mais velhos e a ter um amor genuíno pelos parques. Seu aspecto favorito do desafio — além da comunidade — é a chance de experimentar coquetéis, vinhos e cervejas exóticas e mais sofisticadas, feitas para serem degustadas com calma.
Munido de todo esse conhecimento, viajei até Orlando e encarei o desafio eu mesmo. Minha namorada e eu chegamos ao Epcot pouco depois do meio-dia em uma sexta-feira recente e, após um rápido passeio na atração Remy’s Ratatouille Adventure, no pavilhão da França, começamos nossa volta ao mundo.
Depois de margaritas de abacate no México, cafés vikings congelados na Noruega, coquetéis com boba na China e dunkels na Alemanha, cambaleamos até a Itália, longe da sobriedade e nos sentindo um pouco derrotados.
Uma pausa, combinada com comida e água, foi suficiente para nos colocar de pé novamente e concluir o percurso. Mas, ao deixar o parque, entendi perfeitamente a avaliação anterior de Donnellon: eu tinha saído andando com minhas próprias pernas — e estava mais do que pronto para me deitar.
Escreva para Connor Hart em Connor.Hart@wsj.com
