O banqueiro de investimentos francês Matthieu Pigasse chegou à exibição privada do documentário de Melania Trump na Casa Branca às vésperas de conquistar um dos maiores negócios de sua carreira.

Apoiador do Partido Socialista na França e crítico do governo israelense, o banqueiro da Centerview era um convidado incomum no evento exclusivo, que contou com a presença do presidente Donald Trump, de Mike Tyson, da rainha Rania da Jordânia e de executivos de tecnologia como o CEO da Apple, Tim Cook.

Pigasse buscava garantir o trabalho de ajudar a Venezuela a reestruturar cerca de US$ 150 bilhões em dívidas não pagas e recuperar a confiança de investidores globais. Seria um projeto definidor de carreira e, se bem-sucedido, poderia impulsionar uma recuperação econômica, trazendo de volta capital a um país que está há quase uma década isolado dos mercados financeiros.

Wall Street aguardava essa oportunidade desde a operação especial do governo Trump, em janeiro, para capturar o líder venezuelano Nicolás Maduro e levá-lo a Nova York sob acusações de tráfico de drogas. O governo busca revitalizar a economia do país, assumindo o controle das exportações de petróleo e supervisionando a distribuição de recursos.

Um passo crítico é a reestruturação das dívidas não pagas do governo venezuelano. Bancos vinham pressionando autoridades do governo Trump há meses para liderar o que pode se tornar uma das maiores reestruturações soberanas da história, comparável à da Grécia há cerca de uma década.

O trabalho é atrativo por diversos motivos: os honorários podem chegar a dezenas de milhões de dólares, os bancos envolvidos lidariam com um dos maiores processos de reestruturação já vistos e ainda poderiam recuperar bilhões para investidores como Fidelity e T. Rowe Price. Além disso, um bom resultado poderia render prestígio junto ao governo dos EUA.

Pigasse enfrentou obstáculos relevantes para conquistar o contrato. Embora tenha ampla experiência em reestruturações complexas de dívida, sua atual instituição, a Centerview, não tinha histórico de mandatos soberanos dessa magnitude. Além disso, sua posição política é amplamente distinta da atual Casa Branca, que exerce forte influência sobre decisões em Caracas.

Ele também é dono de veículos de mídia na França e enfrenta críticas em seu país por permitir a participação de artistas e humoristas de esquerda radical — acusações que ele nega.

Pigasse trabalhou para se aproximar de autoridades venezuelanas e viajou diversas vezes a Caracas neste ano, segundo pessoas próximas ao caso. Ele participou da exibição de “Melania” a convite de um dos produtores do filme, Fernando Sulichin, um argentino com laços com autoridades venezuelanas.

Nos bastidores, também recebeu apoio de Mauricio Claver-Carone, ex-enviado especial de Trump para a América Latina.

Em entrevista, Claver-Carone afirmou ter defendido a contratação de Pigasse e da Centerview junto a Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela, além de ter consultado o Departamento de Estado e o Tesouro dos EUA.

A Venezuela informou em meados de maio que contratou a Centerview.

A decisão surpreendeu concorrentes, que esperavam disputar formalmente o mandato após conversas com autoridades norte-americanas.

A vice-presidente econômica da Venezuela, Calixto Ortega Sánchez, afirmou que o governo conversou com diversos assessores, mas escolheu a Centerview por “seu profundo entendimento” da economia do país e relacionamento de longa data com a equipe.

Um porta-voz da Centerview disse que o banco venceu o processo por sua experiência em grandes reestruturações soberanas e ausência de conflitos de interesse.

Banqueiro socialista

Pigasse entrou na Centerview, banco de investimentos americano especializado em fusões e aquisições, para abrir o escritório de Paris, usando sua rede de contatos na Europa para fechar grandes negócios. Quando Maduro foi afastado do poder, ele viu uma oportunidade.

Ele foi anteriormente chefe global de M&A do Lazard e conselheiro de governos estrangeiros em reestruturações complexas, incluindo Iraque e Grécia. Saiu em 2019 após divergências com a liderança da instituição.

A Venezuela entrou em default em bilhões de dólares após sanções impostas pelos EUA em 2017.

Investidores inicialmente acreditavam que o Rothschild tinha vantagem, já que havia sido contratado pelo governo venezuelano em 2024. Em fevereiro, banqueiros do Rothschild chegaram a ir a Washington para apresentar propostas a autoridades do Tesouro e do Departamento de Estado.

Pigasse, porém, buscou apoio por meio de seus contatos com Delcy Rodríguez, com quem já havia interagido em negociações envolvendo a estatal petrolífera venezuelana.

Ele viajou a Caracas em fevereiro em um jato particular para se reunir com autoridades.

Em abril, hospedou-se no hotel Cayena, em Caracas, enquanto mantinha reuniões com membros do governo.

No mesmo período, viajou acompanhado de um parceiro de Claver-Carone, que atuava para favorecer a Centerview nos bastidores.

Autoridades venezuelanas afirmaram que parte da decisão de contratar o banco veio do apoio de Claver-Carone, visto como interlocutor de interesses dos EUA.

Ele disse que apoiou a escolha por acreditar na capacidade técnica da equipe e afirmou que sua atuação não é remunerada.

O governo dos EUA, no entanto, declarou que ele não atua em nome oficial do país.

Desafio da reestruturação

O governo venezuelano pretende conceder alívio significativo da dívida e apresentar um primeiro esboço de proposta até junho — prazo considerado otimista por analistas.

A Centerview defende uma reestruturação rápida para reintegrar o país à economia global, o que gera preocupações entre investidores que podem enfrentar perdas significativas.

O processo é dificultado pela falta de dados econômicos confiáveis no país ao longo da última década, o que torna incerto o valor real da dívida e seus credores.

Segundo analistas, acelerar demais o processo pode aumentar dúvidas sobre transparência e aumentar a percepção de risco.

Traduzido do inglês por InvestNews