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O que acontece quando você para de tomar Ozempic e Wegovy

Medicamentos populares para perda de peso são pensados para tratamentos ao longo da vida de uma doença, e não como soluções de estilo de vida

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Um anúncio recente por e-mail de uma empresa de telemedicina que vende medicamentos para emagrecimento apresenta a tenista Serena Williams.

“Se você está carregando 7 a 9 kg extras”, diz o anúncio, “medicamentos como Wegovy podem ajudar a impulsionar seu progresso.”

Para médicos e pesquisadores de obesidade, esse tipo de mensagem é problemático. Os medicamentos de grande sucesso — conhecidos como GLP-1 — têm sido cada vez mais divulgados como soluções de estilo de vida para ajudar a perder peso. Mas, na realidade, eles são projetados como tratamentos contínuos para doenças crônicas, especialmente obesidade e diabetes tipo 2.

Essa distinção é importante.

Embora quase 18% dos adultos nos EUA tenham usado um medicamento GLP-1 para perda de peso ou tratamento de uma condição crônica, cerca de metade das pessoas para de tomá-lo dentro de um ano. Frequentemente, elas não entendem o que provavelmente acontecerá em seguida.

Estudos mostram que, após parar de usar os medicamentos, as pessoas normalmente recuperam o peso perdido em cerca de 1,5 ano. E quaisquer melhorias na glicose, pressão arterial ou colesterol são revertidas.

Pessoas que usam GLP-1 recuperam peso quatro vezes mais rápido do que aquelas que perderam peso apenas com mudanças no estilo de vida, segundo uma análise recente publicada no British Medical Journal.

Esses resultados preocupantes levantam a questão: vale a pena começar o medicamento se você não puder mantê-lo a longo prazo? Os médicos, em geral, dizem que sim, mas alertam para a necessidade de aconselhamento adequado e mudanças no estilo de vida.

Os medicamentos, que incluem Ozempic, Mounjaro e Zepbound, imitam hormônios naturais do intestino, como o GLP-1, suprimindo o apetite e fazendo com que as pessoas se sintam saciadas mais rapidamente.

A revisão do BMJ analisou 37 estudos que incluíam pessoas tomando medicamentos para perda de peso; seis desses estudos envolveram pessoas usando GLP-1, em vez de medicamentos mais antigos. Em média, pessoas tomando GLP-1 perderam 14,5 kg, mas recuperaram 9,5 kg no primeiro ano após interromper o uso, constatou o estudo.

O ganho de peso foi quatro vezes maior do que o observado em pessoas que perderam peso apenas com mudanças comportamentais. Esse método foi analisado em estudo anterior, no qual os participantes demoraram em média quatro anos para retornar ao peso inicial.

Enquanto tomavam os medicamentos, os participantes apresentaram melhora em marcadores de saúde, como pressão arterial, colesterol e glicemia. Quando pararam, esses níveis voltaram ao padrão em cerca de 1,4 ano.

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“É praticamente paralelo ao ganho de peso”, diz Sam West, fisiologista e pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Oxford, no Reino Unido, autor principal da revisão do BMJ.

De modo geral, quando você perde peso, seu metabolismo desacelera e você queima menos calorias. Mas há outro efeito menos conhecido:

O apetite aumenta, diz Kevin Hall, ex-investigador sênior do National Institutes of Health e especialista em nutrição que pesquisou o fenômeno. “Esses medicamentos interferem nesse sistema de controle de feedback enquanto você os toma, mas quando você para e perde muito peso, seu apetite fica muito maior do que era antes, então você vai comer mais calorias do que precisa”, explica.

Os médicos afirmam que não é surpreendente que o ganho de peso seja mais rápido para quem interrompe os medicamentos do que para quem perdeu peso com dieta e exercício. Quando alguém para de fazer dieta, não passa de restringir calorias para comer sem limites, observa a Dra. Katherine H. Saunders, professora assistente clínica de medicina na Weill Cornell Medicine e cofundadora da FlyteHealth, empresa de tratamento de obesidade. Geralmente, é um processo gradual.

Quando você para de tomar um GLP-1, “os sintomas de fome e os sinais de comida voltam com força total”, afirma ela.

Outro fenômeno menos estudado ocorre quando pessoas param de tomar um GLP-1 e decidem voltar a usá-lo. Nem sempre é tão eficaz na segunda ou terceira vez, diz Saunders.

O conceito de adaptação metabólica explica o desejo do corpo de recuperar peso após parar o medicamento, diz a Dra. Gitanjali Srivastava, diretora médica de medicina da obesidade no Vanderbilt University Medical Center, em Nashville.

Esse é um mecanismo de sobrevivência do corpo, evoluído ao longo de muitos séculos, para desacelerar o metabolismo e conservar energia em tempos de fome ou estresse.

As maiores histórias de sucesso vêm da combinação de mudanças de estilo de vida com medicamentos para obesidade, afirma Srivastava. “Precisamos fornecer essas terapias de forma combinada, tudo junto, para o máximo benefício do paciente”, diz.

O efeito sanfona — ganhar e perder peso repetidamente — pode afetar negativamente a proporção entre gordura e músculo, afirmam os médicos. Quando você perde peso, de um quarto a um terço é músculo. Quando recupera o peso, tende a ser mais gordura do que músculo.

“Acho que a composição corporal provavelmente mudará”, diz o Dr. Robert Kushner, especialista em medicina da obesidade e professor emérito da Northwestern University.

Kushner afirma ter tido apenas alguns pacientes que conseguiram manter o peso a longo prazo após parar um GLP-1.

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Além do aumento do apetite, há também o impacto psicológico de recuperar peso, o que pode levar as pessoas a se sentirem derrotadas e menos propensas a se exercitar.

Kushner diz que orienta os pacientes de que o cuidado com a obesidade não difere do tratamento para colesterol alto ou diabetes. Quando você para de tomar uma estatina, o colesterol sobe novamente. Quando para de usar insulina, o diabetes retorna.

Então, vale a pena tomar um GLP-1 a curto prazo? Os médicos acreditam que sim.

Kushner relata que teve pacientes que quiseram usar GLP-1 por um período limitado. Ele os orienta a ter uma estratégia de longo prazo, que pode envolver a transição para um medicamento mais antigo e barato ou iniciar uma intervenção de estilo de vida mais intensa.

“Eu nunca diria a eles que não vale a pena começar, mas digo logo de cara: precisamos começar a pensar no dia seguinte após a interrupção do medicamento”, afirma.

Escreva para Sumathi Reddy em Sumathi.Reddy@wsj.com

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