Rose Tian está preocupada com a economia e com a instabilidade global. Por isso, faz o que milhões de pessoas na China fazem: compra ouro.
Na semana passada, a professora do ensino médio, de 43 anos, visitou um dos maiores mercados de joias de Pequim para olhar pulseiras, colares e anéis de ouro antes do Ano-Novo Lunar. Ao longo dos anos, ela comprou milhares de dólares em ouro para si e para parentes.
A China se tornou uma força motriz por trás da mania dos metais que vem cativando traders no mundo todo. Pequenos investidores chineses, como Tian, ajudaram a levar o ouro e a prata a máximas históricas — apenas para depois serem sacudidos por oscilações violentas de preços nas últimas semanas.
Investidores chineses compraram cerca de 432 toneladas métricas de barras e moedas de ouro em 2025, um salto de 28% em relação ao ano anterior e quase um terço das compras globais dessa categoria no ano passado, segundo o World Gold Council (WGC).
Tian vê o ouro como a melhor forma de proteger seu patrimônio, apesar da recente volatilidade. Seu salário diminuiu um pouco nos últimos anos e ela se preocupa com o aumento das tensões geopolíticas ao redor do mundo.
“Continuo otimista porque acredito que o ouro é um excelente ativo de proteção”, disse ela.
As famílias chinesas têm poucas boas opções para alocar sua riqueza. O mercado imobiliário está em baixa, a bolsa doméstica pode ser volátil e as taxas de juros bancárias são baixas. Isso levou desde investidoras experientes de meia-idade, conhecidas como “tias”, até jovens da geração Z a recorrer ao ouro como reserva de valor.
O ouro e a prata vêm sendo negociados na China com prêmio em relação aos referenciais internacionais, sinal de demanda elevada.
Muitos compram fundos negociados em bolsa (ETFs) de ouro por meio de aplicativos como WeChat ou Alipay, com a mesma facilidade de pedir um café. Os ETFs de ouro chineses registraram entradas recordes no ano passado, e o volume de negociação de futuros de ouro na Bolsa de Futuros de Xangai também atingiu um novo recorde anual, segundo o Conselho Mundial do Ouro.
Outros preferem o metal físico. Em mercados de ouro e joalherias, formam filas para comprar barras de ouro e “feijões” de ouro de um grama, muitas vezes vendidos em frascos de vidro.
No início deste ano, o rali dos metais ganhou força à medida que o enfraquecimento do dólar, a queda dos rendimentos dos títulos e as compras de bancos centrais levaram investidores globais a buscar ouro e outros metais preciosos. Investidores mais propensos ao risco usaram alavancagem para turbinar as apostas.
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Depois, o mercado virou. Em 30 de janeiro, os preços da prata e do ouro sofreram as maiores quedas diárias em décadas. O presidente Trump disse que indicaria Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve, o que fortaleceu o dólar e fez os preços dos metais despencarem.
“Isso se tornou mais uma febre especulativa”, disse Hamad Hussain, economista de clima e commodities da Capital Economics.
Nas redes sociais chinesas, investidores individuais que perderam dinheiro reclamaram que foram atraídos no topo e depois “picados como cebolinha”.
Alguns bancos chineses apertaram as exigências de margem, limitando quanto os clientes podem tomar emprestado para comprar metais.
A recente correção de preços trouxe mais movimento ao Mercado de Joias Tianya, em Pequim, segundo Hong Miao, vendedora de uma das lojas. As vendas de barras de ouro melhoraram com a queda dos preços, mas os clientes, em geral, continuam cautelosos.
“Predomina uma atitude de ‘esperar para ver’”, disse ela.
Jia Pei, uma turista na casa dos 30 anos da província de Henan, acha que os preços do ouro subiram demais. Ela comprou cerca de 50 gramas de ouro alguns anos atrás e vendeu com lucro no verão passado, quando os preços haviam dobrado.
Agora, ela e as amigas apostam tudo na prata, que acreditam ter mais espaço para valorização do que o ouro.
“Comecei a estocar prata”, disse ela. “Mesmo que os preços caiam, dá para aguentar.”