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Sem novo hit há quase uma década, Pixar tenta recriar a máquina de franquias da Disney

Estúdio responsável por Toy Story e Os Incríveis volta a priorizar conceitos amplos e filmes pensados para gerar continuações

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O diretor criativo da Pixar, Pete Docter, terminou de dedilhar seu minúsculo ukulele e se acomodou em um sofá para explicar que a razão pela qual o estúdio por trás de Toy Story está tendo dificuldades para encontrar sua próxima franquia de sucesso pode ser ele mesmo.

“Entrei na animação porque é mais fácil desenhar pessoas do que falar com elas”, disse, sentado em seu escritório ao lado de esculturas de personagens de seus sucessos de direção Monstros S.A., Up: Altas Aventuras e Divertida Mente. Nos primeiros anos gerenciando a equipe ambiciosa da Pixar, o veterano de 57 anos admitiu: “Provavelmente exagerei no ‘faça o que quiser’.”

Os três primeiros filmes de Docter fizeram parte de uma sequência extraordinária de sucessos da Pixar entre 1995 e 2019, muitos dos quais se tornaram franquias duradouras para a empresa-mãe Disney. Com produtos de Carros, o brinquedo do parque temático de Ratatouille e várias sequências de Toy Story, a Pixar criou marcas que davam lucro em todo o império Disney.

Hoje, a Pixar lança sequências de sucesso como Divertida Mente 2 (2024), mas não tem um sucesso original desde Viva – A vida é uma festa (2017). Funcionários atuais e antigos afirmam que um dos maiores motivos é que Docter, avesso a conflitos, incentivou novos diretores a criar filmes autobiográficos com os quais muitos espectadores tiveram dificuldade de se conectar.

Após uma série de decepções culminando no fracasso de Elio no ano passado, Docter está impulsionando a Pixar a voltar a conceitos universalmente relacionáveis, como brinquedos falantes e monstros no armário, que fizeram do estúdio um gigante.

“Com o tempo, percebi que meu trabalho é garantir que os filmes agradem a todos”, disse o veterano de 36 anos na empresa.

Cara de Um, Focinho de Outro

O novo filme da Pixar é um passo nessa direção. Cara de Um, Focinho de Outro, uma comédia sobre uma menina que “transfere” sua consciência para um castor e conversa com animais, estreia esta semana e recebeu críticas amplamente positivas.

Mas as chances de sucesso são menores do que na época de Procurando Nemo e Wall-E. Em Hollywood, filmes originais têm dificuldade de tirar o público dos celulares e levá-lo aos cinemas. Os “pixarians”, como se chamam, estão cientes de que o filme de animação original mais bem-sucedido nos últimos anos foi um sucesso de streaming na Netflix: Guerreiras do K-Pop. O modelo de negócios da Disney depende do sucesso de bilheteria.

À medida que o CEO Bob Iger se prepara para passar o bastão a seu sucessor Josh D’Amaro, o gigante do entretenimento precisa de novas franquias para complementar marcas antigas como Os Vingadores e Avatar.

No passado, a Pixar escolhia filmes originais apenas com base na qualidade da ideia. Agora, parte do processo de aprovação avalia o potencial de sequências. Quando os filmes são concluídos, os diretores devem criar histórias para possíveis continuações.

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CEO da Walt Disney, Bob Iger REUTERS/Mario Anzuoni

O estúdio, que se orgulhava de produzir dois filmes originais para cada sequência, agora faz duas sequências para cada original. Toy Story 5, em junho, deve ser um blockbuster; um terceiro Os Incríveis está previsto para 2028, e uma segunda Viva – A vida é uma festa para 2029. Também está em desenvolvimento um terceiro Monstros S.A., segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

O presidente da Pixar, Jim Morris, que gerencia o lado comercial do estúdio, disse que a razão para a mudança é simples: “Simplesmente para sermos lucrativos o suficiente, francamente, para continuar.”

O filtro Lasseter

Até 2018, os filmes da Pixar passavam pelo crivo de um homem: John Lasseter. O diretor de Toy Story tinha a palavra final entre um grupo de diretores conhecido como “braintrust”, que fornecia feedback em todos os projetos da empresa de animação. Docter era o membro menos assertivo do grupo, segundo colegas, e parecia mais feliz focando no núcleo emocional de seus próprios filmes.

Quando Lasseter se demitiu em 2018 após relatos de comportamento inadequado com funcionários, Docter foi o único cineasta veterano disposto a substituí-lo como diretor criativo.

“Pensei: ‘não quero administrar o estúdio, estou acostumado a dirigir’”, lembrou Docter. “Mas alguém tinha que fazer isso.”

Pixarians descrevem Docter como “solidário”, “humilde” e um “cineasta dos cineastas”. Ele dava menos feedback direto do que Lasseter e parecia nunca querer ser o vilão.

Os primeiros filmes originais da Pixar sob Docter incluíram Luca e Red: Crescer é uma Fera, inspirados nas experiências de infância de seus diretores.

Avaliar o sucesso foi difícil no início, pois os filmes foram lançados durante a pandemia. Os Pixarians esperavam que os filmes fossem adiados até a reabertura dos cinemas, mas executivos da Disney queriam que impulsionassem assinaturas da nova plataforma de streaming.

Foto: Adobe Stock Photo

Todos foram populares nos primeiros meses online, incluindo Soul, dirigido por Docter, vencedor de dois Oscars. Mas não tiveram tantas reprises quanto “Encanto”, do estúdio irmão Walt Disney Animation, a única nova franquia da Disney desde 2020.

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Frustrados com a baixa repercussão de lançamentos em streaming, os Pixarians entraram em pânico após o fracasso do spin-off Buzz Lightyear (2022) nos cinemas. O original Elementos (2023), em que fogo e água simbolizavam a experiência de crescer em uma família imigrante, teve lançamento fraco e lucro pequeno.

No final de 2023, Docter reuniu a equipe da Pixar para um discurso direto: disseram que erraram ao fazer tantos filmes autobiográficos e precisavam de obras mais comerciais.

Projetos cancelados, mudanças dramáticas e pressão financeira continuaram, incluindo a reformulação de Elio, que acabou sendo o maior fracasso da Pixar, perdendo mais de US$ 100 milhões para a Disney.

Pixar também desenvolve seu primeiro musical, com direção de Domee Shi (Red: Crescer é uma Fera), e outros filmes originais como Gatto e Ono Ghost Market.

Cara de Um, Focinho de Outro traz uma comédia mais exagerada e menos emotiva do que os espectadores esperam do estúdio de Up: Altas Aventuras. Pesquisas indicam que a estreia nos Estados Unidos deve ficar em torno de US$ 40 milhões — o dobro de Elio, mas menos da metade de Divertida Mente original.

Apesar da pressão financeira, Docter acredita que a Pixar continuará “útil” à Disney e ao mundo se simplesmente fizer ótimos filmes: “Se vamos apenas produzir porcaria, fechemos as portas. Prefiro morrer tentando fazer algo em que acreditamos de verdade.”

Escreva para Ben Fritz em ben.fritz@wsj.com

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