Você não pode sair por aí chamando bebês humanos de feios, mas felizmente as regras são mais flexíveis com cachorros. Tenho patrulhado o centro de Manhattan procurando raças singularmente pouco atraentes — e perguntando a seus donos por que as escolheram. (Ainda não perguntei se alguém acredita na lenda urbana de que cães se parecem com seus donos.)
Como uma esnobe superficial que cresceu com golden retrievers dignos de comerciais da Pantene, eu precisava saber: por que estamos tão fascinados por cachorros feios agora?
Nos últimos anos, o melhor amigo do homem despencou de um 10 para um 2. Claro, ainda há muitos doodles (vira-latas) lindíssimos, mas no fim de cada segunda coleira há um rato com mordida torta ou uma criaturinha de olhos esbugalhados e orelhas tão monstruosas que fazem as do rei Charles III parecerem pequenas.
Os buldogues franceses lideram a ofensiva dos cães “atores coadjuvantes”. Celebridades carregam seus filhotes estilo Yoda, e millennials os amam mais do que uma parede bege bem decorada. Por 31 anos, os Labradores lideraram o ranking de raças puras do American Kennel Club, baseado em mais de um milhão de registros anuais. Mas desde 2022 os Frenchies são os campeões, com Labs e goldens ficando com prata e bronze. É como se o quarterback e a rainha do baile perdessem uma competição de popularidade para um esquisito ofegante.
A dra. Carly Fox, veterinária sênior no Schwarzman Animal Medical Center de Nova York, disse que os cães de “cara achatada” — “braquicefálicos”, para os íntimos — vêm ganhando terreno na última década. Outros membros populares desse clube de focinhos curtíssimos incluem buldogues ingleses, bostons, pugs e grifões de Bruxelas.
Um grupo rival — mais nichado, mas não mais bonito — é a turma dos “ratos”: pense em chihuahuas, xoloitzcuintles (pelado-mexicano) e cresteds (cão de crista chinês), uma raça em grande parte sem pelos, com tufos esvoaçantes na cabeça, que o American Kennel Club chamou de “agitadora” e eu chamo de “um cachorro esquecido no micro-ondas”. Neste verão, um cão de crista chinês de vestido rosa tremeu em um papel de destaque na série da Netflix de Lena Dunham, Too Much.
Os vitorianos iniciaram a obsessão moderna por criar “cães com muitas aparências diferentes para atender diferentes desejos humanos”, explicou a dra. Rowena Packer, professora da Royal Veterinary College da Universidade de Londres. A maleabilidade do genoma canino permite enorme variedade física, disse ela, o que significa que criadores podem levar características ao extremo — achatando focinhos, multiplicando rugas. Para avaliar o quanto um cachorro foi modificado, Packer recomenda comparar com o arquétipo original: o lobo. Arrisco dizer que um lobo reconheceria uma ovelha como parente antes de reconhecer um pug sorridente.

Hal Herzog, professor emérito de psicologia da Western Carolina University que estuda relações humano-animal, afirmou que raças se tornam populares como tendências de moda. Olhamos para filmes, celebridades e, acima de tudo, copiamos uns aos outros. O acaso tem grande peso, disse ele, mas ajuda ter um apelo inerente.
O charme das raças esquisitonas? Primeiro, são em sua maioria pequenas. Isso combina com a demanda pós-pandemia por cães de apartamento que também possam viajar, disse Paula Fasseas, fundadora da PAWS Chicago, uma organização de bem-estar animal “no-kill”.
Mas o grande atrativo dos braquicefálicos é a fofura de apertar as bochechas. Quando donos me diziam que seus buldogues franceses e pugs se pareciam com bebês humanos, tomei isso como uma ofensa em nome de todos os pais. Mas estudos mostram que cães de cara achatada possuem kindchenschema ou “esquema de bebê”, termo do etólogo Konrad Lorenz para características infantis que despertam respostas de cuidado. Com olhos grandes, narizes pequenos e cabeças mais arredondadas, o rosto de um braquicefálico “é muito mais humano do que o de um Labrador”, disse Packer.
Esses looks têm um preço alto. Packer afirma que buldogues franceses, pugs e buldogues ingleses são mais propensos a doenças oculares crônicas, infecções em dobras de pele e problemas de coluna, além de dificuldades respiratórias causadas por vias aéreas encurtadas — e agravadas por focinhos ainda mais achatados do que antes. Fox, a veterinária, tem um buldogue francês, mas chamou as raças braquicefálicas extremas de “pesadelos” do ponto de vista médico. (Se você ama o visual, Packer recomenda uma mistura mais saudável, como jack russell com pug — o maravilhosamente nomeado “jug”.)
Alguns especialistas argumentam que os problemas de saúde dos braquicefálicos podem torná-los mais desejáveis. Autoridades como James Serpell sugerem que a necessidade constante desses cães desperta nossos instintos maternais, observou Herzog. Esqueça jogar gravetos; como disse uma jovem enquanto seu queridinho de focinho molhado fazia necessidades no parque, “você tem que limpar o bumbum de um buldogue francês”. Packer chama isso de “parentificação dos cães”.
A mesma frequentadora de parque comparou seu Frenchie a um Labubu. Um cínico diria que, como aquelas bonecas feias-e-fofas, os braquicefálicos são acessórios da moda para jovens urbanos exibirem na rua e no Instagram. Mais indiscutível é o fato de que, como aqueles monstrinhos sorridentes, cães de cara amassada são hilários.
“Há um aspecto tragicômico” na aparência dos Frenchies, disse Billy Corgan, vocalista do Smashing Pumpkins, dono da resgatada Colette. “Eles parecem saídos de um romance de Cervantes… têm esse ar de alma perdida.” Também lhe lembram o ator cômico Marty Feldman, famoso pelos olhos esbugalhados que olhavam para direções diferentes. “Eles não são bonitos como um galgo”, acrescentou, “mas, veja bem, nós não estamos namorando os cães.”
Um dono de Frenchie sabe que vai ouvir comentários como “meu Deus, que engraçado”, disse Will Thrun, 27, que trabalha em finanças. Em um desfile canino de Halloween no East Village, Poppy, a Frenchie de Thrun, se esparramou ao sol vestida de taco enquanto os ancestrais lobos cinzentos se reviravam no túmulo.
Elias Weiss Friedman, que compartilha fotos de cães de Nova York com seus quase 8 milhões de seguidores no Instagram The Dogist, disse que as pessoas querem cada vez mais cachorros que se destaquem. Um cão esquisito permite “mostrar sua individualidade”, disse Terence Nelson, 38, estrategista de marketing de influência em Nova York cujo grifão de Bruxelas, Sue, é a cara de um Ewok. (Mantive a boca fechada quando donos de Frenchies exaltavam a “singularidade” de seus cães — cercados por literalmente dezenas de outros Frenchies roncando ao redor.)
Brian Lee, fundador do Way of the Dog, um programa de comportamento canino no sul da Califórnia, oferece outra explicação para o aumento dos cães de aparência estranha: a ascensão da adoção de animais resgatados. Em vez de focar na aparência, muitas pessoas pensam: “Quero ajudar esse animal inocente”, afirmou Lee.
Quando chamam o cachorro de Eve-Marie Kuijstermans de feio, ela considera um elogio. Edgar Allan Pup (“Eddie”), seu vira-lata de crested chinês com chihuahua, é quase sem pelos, com tufos de “velhinho” na cabeça. “Ele poderia ter 100 anos”, disse Kuijstermans. (Ele tem cinco.) “As crianças ficam muito confusas com ele”, acrescentou a executiva de 41 anos.
Ultimamente, Kuijstermans tem notado mais grifões de Bruxelas, cão de crista chinês e “misturas interessantes” — uma vingança dos nerds contra as multidões de doodles fofinhos. “Para mim, a fofura do Eddie está no fato de ele ser meio um carinha estranho”, disse ela, enquanto seu cão subia no meu colo para observar o parque canino.
De repente, esta eterna apaixonada por golden retrievers começou a se encantar por uma criaturinha doce e aconchegante como uma vassoura