No início, funcionou. Pederson transformou cerca de US$ 2.000 em quase US$ 8.000 apostando na quantidade diária de neve em Detroit, onde mora. Depois, levou isso a US$ 41.000 negociando esportes, usando uma estratégia desenvolvida com ajuda de inteligência artificial, segundo análise do Journal.
Então fez sua aposta mais ousada: os US$ 41.000 inteiros de que uma celebridade diria uma palavra específica na TV. Ele perdeu tudo.
Pederson não está sozinho ao sair de mãos vazias desses mercados “aposte em qualquer coisa”, que cobrem esportes, celebridades, notícias e mais.
A Kalshi e sua concorrente Polymarket se promovem como ferramentas capazes de mudar vidas para pessoas comuns — sugerindo que todos têm uma chance justa de ganhar. “Eu estava prestes a não conseguir pagar o aluguel, mas consegui dois anos de aluguel com as previsões da Kalshi”, disse uma mulher em um anúncio da empresa no TikTok.
Mas, para a maioria dos usuários, a realidade é bem diferente.
Em vez disso, investidores ocasionais estão perdendo dinheiro, enquanto um pequeno grupo de profissionais sofisticados — incluindo firmas com acesso a grandes volumes de dados — captura a maior parte dos ganhos, segundo análise do Journal.
Na Polymarket, 67% dos lucros vão para apenas 0,1% das contas. Isso significa que menos de 2.000 contas acumularam quase meio bilhão de dólares. O Journal analisou 1,6 milhão de contas ativas desde novembro de 2022.
Na Kalshi, também, os perdedores superam amplamente os vencedores. Há cerca de 2,9 usuários com prejuízo para cada usuário lucrativo, segundo dados recentes da empresa.
O volume total negociado nas duas plataformas disparou para US$ 24,2 bilhões em abril, ante US$ 1,8 bilhão um ano antes, segundo a The Block.
Defensores dizem que esses mercados não são jogos de azar e que utilizam a “sabedoria das multidões” para prever eventos futuros. Pesquisas do Federal Reserve indicam que a Kalshi pode ser eficaz para prever tendências econômicas.
Mas os profissionais têm vantagem clara: pagam por acesso a grandes bases de dados, usam algoritmos para prever movimentos de preços e gerenciar riscos mais rápido do que qualquer humano. Também fazem milhares de operações por dia e lucram com pequenas variações, com disciplina raramente vista entre usuários comuns.
“Eles não têm chance. Sistematicamente”, disse Michael Boss, ex-jogador profissional de pôquer e estatístico. Na Kalshi, ele faz até 60 operações por minuto e ajusta ofertas 30 vezes por segundo.
Segundo a porta-voz Elisabeth Diana, muitos mercados financeiros exibem padrões semelhantes de concentração de riqueza, e mais usuários ganham dinheiro na Kalshi do que em day trade ou apostas esportivas tradicionais. Ela disse que a empresa não usa mais o anúncio “pagar meu aluguel”.
Uma porta-voz da Polymarket não comentou a análise.
A Polymarket tem parceria de dados com a Dow Jones, editora do Journal, que usou apenas dados públicos.
No caso de Pederson, ele caiu em um tipo de aposta especialmente arriscado: os “mention markets”.
Profissionais evitam essas apostas porque são imprevisíveis — nem grandes volumes de dados garantem vantagem.
Nesses mercados, os usuários apostam no que alguém dirá em público. Segundo o Journal, essas apostas pagam menos do que o esperado. Apostadores casuais assumem riscos maiores do que percebem, em parte por causa do “viés de azarão”, quando eventos improváveis são supervalorizados.
O volume mensal nesses mercados explodiu desde 2025, impulsionado por usuários jovens e influenciadores.
“Alguém menos inteligente que você”
Para todos os tipos de aposta, Polymarket e Kalshi fazem uma promessa simples: monetizar o que você já sabe para ganhar dinheiro rápido.
Mas mais de 70% dos usuários da Polymarket perdem dinheiro. Estudos recentes confirmam que os ganhos ficam concentrados em traders sofisticados, enquanto iniciantes acumulam perdas.
A análise do Journal indica que um usuário típico perde entre US$ 1 e US$ 100, enquanto os 10% piores perdem cerca de US$ 4.000 em média.
Muitos tomam decisões emocionais ou baseadas em informações superficiais.
Um apostador em Connecticut perdeu US$ 2.000 em um único dia apostando no Super Bowl. Um homem de 31 anos em Indiana perdeu cerca de US$ 5.000 apostando quase diariamente.
Enquanto isso, firmas profissionais com dezenas de funcionários usam algoritmos e dados caros para competir — e ganhar — de usuários comuns.
Diferentemente das apostas tradicionais, não há “casa”: usuários negociam entre si, enquanto as plataformas cobram taxas.
Em um escritório no SoHo, um jovem que abandonou a faculdade observa fluxos de milhões de dólares em apostas sobre o preço do bitcoin.
Samuel Wood-Soloff deixou Princeton, levantou US$ 500 mil e se mudou para Nova York para operar mercados de previsão em tempo integral.
“Nossa única concorrência são os market makers”, disse.
Michael Boss já ganhou mais de US$ 668 mil na Kalshi em poucos meses.
“O dinheiro mais fácil está nos esportes”, disse. “Atrai jovens viciados em apostas.”
Outro trader, Jonathan Stall-Ryan, disse que sua empresa transformou US$ 1.000 em milhões.
Essas firmas gastam mais de US$ 200 mil por ano em dados, IA e infraestrutura.
Grandes players como Susquehanna International Group e Jump Trading também atuam nesses mercados.
“Tudo se resume a apostar contra alguém menos inteligente que você”, disse Jeff Yass.
A busca por dinheiro fácil
Os contratos pagam US$ 1 se a previsão estiver correta. O preço reflete a probabilidade estimada.
Usuários lucram com pequenas variações, como em Wall Street.
Mas muitos repetem erros clássicos de investidores individuais — buscando dinheiro fácil e perdendo em mercados voláteis.
Os mercados são regulados nos EUA pela Commodity Futures Trading Commission, embora parte da atividade ocorra offshore.
Críticos apontam riscos como uso de informação privilegiada. Reguladores têm intensificado a fiscalização.
A aposta de US$ 41 mil
Antes dos “mention markets”, Pederson estava indo bem.
Essas apostas giram em torno de uma pergunta: alguém dirá determinada palavra?
Usuários apostaram milhões em discursos de políticos como Donald Trump.
Mas essas apostas pagam menos do que sugerem as probabilidades.
Em média, apostas com chance de 50% só se concretizam 40% das vezes — indicando preços distorcidos.
Em janeiro, Pederson apostou US$ 41.000 que o rapper A$AP Rocky diria “rapper” em um programa.
Ele disse — mas a parte foi cortada da versão exibida. Pelas regras, só o que vai ao ar conta.
Pederson perdeu tudo. Hoje vive em um abrigo em Detroit, embora tenha recebido uma proposta de emprego.
Quando se reerguer, pretende trabalhar no setor financeiro e investir em sua carreira musical.
Voltaria a esses mercados?
“Talvez”, disse. “Mas prefiro mercados mais regulados.”
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