O governo americano acha que sim. Já os passageiros talvez não estejam tão convencidos.
O Departamento de Transportes deu início à temporada de viagens de fim de ano de 2025 com uma campanha de civilidade, admitidamente impossível de fiscalizar, com o objetivo de trazer de volta a “cortesia e a classe ao transporte aéreo”. Desde 2019, os episódios de surtos a bordo aumentaram cinco vezes, com um salto expressivo durante a pandemia, segundo a Administração Federal de Aviação (FAA).
A ideia é que, se mais passageiros optarem por jeans e uma camisa decente, os ânimos fiquem mais tranquilos. Ao menos é o que acredita o secretário de Transportes, Sean Duffy. “Vamos tentar não usar chinelos e pijamas ao ir para o aeroporto”, disse ele no aeroporto de Newark, em Nova Jersey, no fim de novembro.
Se você já passou algum tempo a 10 mil metros de altitude, é compreensível achar que Duffy escolheu uma batalha perdida.
Conforto pode ser raro nas passarelas de moda, mas domina completamente as pistas de pouso — a ponto de inspirar linhas específicas para viagem, como a AirEssentials, da Spanx. Alguns influenciadores do TikTok chegaram a prometer tornar pijamas e chinelos o uniforme oficial de aeroporto.
“Os passageiros estão apenas se vestindo para o tipo de viagem aérea que existe, não para a que gostariam que existisse”, disse a comediante Michelle Wolf. “É um ônibus no céu”, afirmou em um post no Instagram em dezembro.
Adam Schlemmer, que viajava por Newark em janeiro, acha que se vestir melhor pode desestimular comportamentos hostis entre passageiros. Pessoalmente, ele costuma usar moletom ou jeans com um suéter.
“Se eu estivesse voando de classe executiva, ou representando alguém ou alguma coisa, pensaria em me vestir melhor”, disse o jovem de 21 anos, de Charlotte, na Carolina do Norte.
Lindsey Zurn, de 32 anos, adora montar looks, mas quando o assunto é avião, o conforto fala mais alto. Com pelo menos 30 horas de viagem no último ano, ela prefere um “conjunto elevado” — roupas esportivas combinando e estilosas — além de uma jaqueta leve para sobreposição e sapatos baixos.
“Eu realmente acredito que, quando você se sente bem com a aparência, se sente melhor”, disse a especialista em sourcing da QVC, de West Chester, na Pensilvânia. “Mas não tenho certeza de que só esse pensamento torne momentos estressantes de viagem mais fáceis.”
Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que viajar de avião era sinônimo de se arrumar bem. Na era de ouro da aviação comercial, voar era algo glamouroso, restrito aos ricos, que podiam bancar o alto custo do estilo de vida luxuoso.
“Era algo que apenas a elite fazia”, disse Valerie Steele, diretora do museu do Fashion Institute of Technology, em Nova York.
Vestir-se bem refletia essa exclusividade e o luxo geral das viagens aéreas nas décadas de 1950 e 1960. Mulheres usavam vestidos e meias finas; homens, ternos e chapéus. As refeições vinham em porcelana fina, e vinho e champanhe eram servidos à vontade.
Tudo isso mudou após a desregulamentação do setor aéreo, em 1978. Com a popularização dos voos e a transformação da viagem aérea em algo rotineiro, veio também um rebaixamento no vestuário — acompanhando mudanças mais amplas da moda e, ao mesmo tempo, uma piora da experiência.
Para atender a mais passageiros, as companhias aéreas tornaram os assentos mais apertados e passaram a cobrar à parte por serviços, disse Shea Oakley, historiador da aviação.
“Elas passaram a cobrar por tudo, menos pelo cinto de segurança e pelo banheiro”, afirmou. “Era possível voar muito barato, mas de forma extremamente desconfortável.”
Os passageiros passaram a se vestir de acordo com isso; jeans e camisetas se tornaram padrão, explicou Oakley.
Ainda assim, viajar de avião nos anos 1980 parece luxuoso quando comparado aos dias atuais.
Hoje, os aviões estão mais cheios do que nunca, à medida que as companhias lutam por rentabilidade. Atrasos longos são quatro vezes mais comuns do que em 1990, segundo dados federais analisados por Maxwell Tabarrok, doutorando da Universidade Harvard. E os controles de segurança em múltiplas etapas, que tornaram as viagens mais seguras após o 11 de Setembro, também as tornaram mais penosas.
A chamada “fúria aérea” tornou-se mais frequente. A pandemia agravou o problema, com relatos de passageiros indisciplinados aumentando seis vezes entre 2020 e 2021, segundo a FAA.
O governo já tentou outras estratégias para lidar com a questão; nos últimos anos, a FAA endureceu as punições para comportamentos inadequados a bordo.
Ainda assim, alguns viajantes frequentes acham que a campanha mais recente do Departamento de Transportes erra o alvo.
“Parece que equiparar a ‘fúria aérea’ à forma de se vestir transforma a roupa em bode expiatório de uma experiência de voo cara, estressante e excessivamente corporativa”, disse Iain Gordon, engenheiro de projetos de 29 anos, de Richmond, Virgínia, que costuma viajar de moletom esportivo e capuz.
Oakley — que ainda veste um paletó esportivo e evita jeans quando voa — considera a iniciativa de Duffy uma “ideia nobre”, mas acredita que ela dificilmente terá impacto enquanto voar continuar sendo “barato, porém desagradável”.
Segundo Steele, os passageiros se vestem para “suportar os horrores” que esperam no aeroporto, como atrasos longos que podem levá-los a dormir no chão. “Voar hoje é uma experiência tão desagradável”, disse ela. “Como ousam nos culpar?”
O governo não deveria se surpreender, acrescentou Steele, se o público simplesmente ignorar a campanha.
“Não deveria ser controverso sugerir que as pessoas se vistam de forma respeitosa em público, especialmente em ambientes onde crianças podem estar presentes”, afirmou um porta-voz do Departamento de Transportes.
A pasta batizou a iniciativa de “A Era de Ouro das Viagens Começa com Você”, na tentativa de resgatar tempos mais elegantes. Para Sara Nelson, presidente internacional da Associação de Comissários de Voo, o código de vestimenta necessário para manter a civilidade nos voos é bem mais simples:
“Os comissários ficariam felizes se as pessoas ao menos mantivessem os sapatos e as meias nos pés.”
Escreva para Dean Seal em dean.seal@wsj.com.
