Em cada uma das três últimas Olimpíadas, a trupe itinerante de vikings liderou o quadro de ouros e a tabela geral de medalhas. Agora eles estão passando por cima dos Jogos de Milão-Cortina. Com uma dúzia de ouros até as provas de segunda-feira, os noruegueses tinham mais do que o dobro dos EUA — com menos de 2% da população.
Não que alguém esteja surpreso. Na última década, a Noruega consolidou um domínio completo e absoluto desse evento. E não é só porque tantos esportes têm “nórdico” no nome — nem porque noruegueses já saem do útero em esquis e patins.
A maior sequência de vitórias da história dos Jogos começou, na verdade, com uma decepção esmagadora.
Quando a Noruega voltou da Olimpíada de 1984 com apenas três ouros, o país ficou tão alarmado que lançou imediatamente uma iniciativa de emergência chamada Projeto 88. Mas, quatro anos depois, os resultados foram ainda piores. Os noruegueses conseguiram voltar para casa sem um único ouro.
Então o que veio a seguir não tinha a ver com orgulho nacional. Tinha a ver com vingança.
Com o mundo inteiro desembarcando na Noruega para os Jogos de Lillehammer, em 1994, o país conhecido por suas reservas de petróleo e por seu fundo soberano fez um investimento que ainda rende dividendos.
Criou algo chamado Olympiatoppen, uma organização cuja única responsabilidade era supervisionar o recrutamento e o treinamento do segundo recurso natural mais cobiçado da Noruega: atletas olímpicos.
Em casa, no gelo e na neve, a Noruega saiu do zero para 10 ouros e a liderança no total de medalhas.
Desde então, os métodos “misteriosos” do país deixam todo mundo coçando a cabeça — ou, no caso, ajeitando o gorro.
“Muitos países visitam o Olympiatoppen para descobrir: o que os noruegueses estão fazendo?”, disse Thomas Haugen, professor norueguês que pesquisou os métodos de treinamento dos atletas de endurance do país. “E quando eles vêm, ficam decepcionados.”
As instalações são modestas. O cronograma é surpreendentemente sensato. As pessoas lá dentro estão totalmente dispostas a compartilhar os segredos com qualquer um que queira ouvir. Elas explicam uma filosofia de desenvolvimento humanista e “alegria para todos”, falam com entusiasmo sobre criar crianças felizes, atletas focados e cidadãos saudáveis, discorrem com seriedade sobre como a organização é mais parecida com um organismo — e, para o resto do mundo, é como se estivessem falando norueguês.
“Achamos que é uma vantagem para nós que seja muito difícil entender por que isso funciona”, disse Tore Ovrebo, chefe de missão da equipe da Noruega.
Um motivo pelo qual funciona é que o modelo norueguês é praticamente o oposto do americano.
À medida que os esportes juvenis ficam absurdamente caros nos EUA, a Noruega insiste que o esporte organizado seja acessível para todos.
Eles também priorizam a diversão acima de vencer. Garantem custos baixos e alta participação. Incentivam crianças a experimentar o máximo de modalidades possível e não obrigam atletas jovens a se especializarem cedo demais. Eles nem se dão ao trabalho de manter placar até os atletas completarem 13 anos.
Só então os atletas de elite do país são selecionados para academias de treinamento onde têm acesso a treinadores de ponta e a outros atletas de elite. Nesta nação movida a riqueza do petróleo, há também um “cano” de talentos que continua jorrando olimpíadas afora.
O exemplo mais recente é Johannes Hoesflot Klaebo, um anúncio vivo do modelo norueguês no sprint do esqui. Quando menino, sua família se mudou de Oslo para o “berço” dos esportes de inverno, Trondheim. Ele cresceu experimentando modalidades no clube poliesportivo local antes de escolher aquela que viria a revolucionar: o esqui cross-country.
Agora, enquanto esse deus nórdico acelera e atropela adversários, os noruegueses não se cansam dele. Colocam seu rosto em outdoors. Idolatraram sua técnica de sprint, o Klæbo-klyvet. E se maravilham com a disposição dele de encarar todo o lado chato que a grandeza exige.
Antes de suas maiores provas, Klaebo limita o contato com o mundo exterior para evitar ficar doente. Estava tão comprometido em chegar aos Jogos no auge da forma que chegou a se recusar a ver a noiva.
A abstinência claramente foi uma estratégia vencedora. Klaebo pode ganhar seis ouros aqui e já quebrou o recorde de ouros em Olimpíadas de Inverno na carreira, que era dividido por outros três atletas — todos noruegueses.
Mas, chegando à Itália, não havia garantias de outro inverno glorioso. O país ainda digeria a vergonha nacional de ter sido pego modificando ilegalmente a área da virilha dos macacões do salto de esqui. Quando os Jogos começaram, veio outra humilhação: mais um escândalo de trapaça, agora envolvendo um biatleta infiel.
E então a Noruega continuou ganhando ouros o suficiente para fazer todo mundo esquecer dele — como a ex dele.
Enquanto a estratégia nacional de supremacia nos Jogos de Inverno vem de décadas, a preparação da Noruega para 2026 começou de verdade um ano atrás, quando quase todo mundo da equipe se reuniu bem longe dos fiordes.
Como esses Jogos estão espalhados por sete locais entre Milão e as montanhas, a Noruega reuniu seus atletas em maio passado num acampamento de uma semana em Gran Canaria, na Espanha, para fazê-los se sentir menos como um monte de esquiadores, patinadores e saltadores individuais — e mais como um time.
A meta era que compartilhassem treinos, refeições e ideias. “Fazemos esse cruzamento o tempo todo”, disse Ovrebo. Eles voltaram com bronzeado, uma meta de 35 medalhas e um plano para dominar mais uma Olimpíada.
E enquanto outros países se perguntavam como ficar mais parecidos com eles, os noruegueses já trabalhavam na próxima evolução.
“Precisamos ser menos noruegueses”, disse a esquiadora Mina Fuerst Holtmann. “Menos noruegueses e ais vikings.”
