Não encontramos outro exemplo na história corporativa dos EUA de uma empresa listada crescendo mais de 30% e, ainda assim, demitindo mais de 20% dos funcionários. No entanto, o que fizemos provavelmente se tornará o padrão no próximo ano. Esta é uma história sobre inteligência artificial, mas executivos e comentaristas estão entendendo errado como ela vai transformar os negócios e quem será afetado.
Para compreender o tema, recorri a um livro publicado em 1954, 20 anos antes do meu nascimento: A Prática da Administração de Empresas, de Peter Drucker. Drucker explora os diferentes papéis dentro de qualquer empresa, que eu classificaria como construtores, vendedores e medidores.
Construtores criam produtos. Vendedores vendem esses produtos. Medidores fazem todo o resto: auditoria interna, reconhecimento de receita, finanças, jurídico, compliance, gerência intermediária, operações e assim por diante.
Ao contrário do que alguns analistas preveem, os construtores não vão desaparecer. Se um engenheiro da minha equipe agora pode ser dez vezes mais produtivo, vou contratar o maior número possível deles.
Os vendedores também estão longe da extinção. Humanos ainda controlam os orçamentos e querem comprar de pessoas que dedicam tempo para entender suas necessidades, construir confiança e resolver problemas quando algo dá errado.
Os medidores também são críticos para um negócio, mas são diferentes dos outros dois grupos. Os melhores são difíceis de encontrar. Trabalham incansavelmente nos bastidores, não buscam o reconhecimento de funções mais visíveis e, idealmente, mantêm uma perspectiva independente do restante da organização. Drucker argumenta que medir os negócios é importante, mas clientes são conquistados por meio da construção e da venda. As melhores empresas maximizariam investimentos nessas duas funções.
A IA não está vindo para os construtores ou vendedores, mas está vindo para os medidores. Incansáveis, independentes, eficientes e sempre disponíveis, os sistemas de IA agora conseguem mensurar uma organização com um nível de detalhe objetivo e precisão que antes era impossível até mesmo para os melhores funcionários.
Na Cloudflare, a auditoria interna antes escolhia algumas áreas de risco empresarial para examinar a cada trimestre. Agora estamos migrando para um sistema no qual todos os riscos são auditados continuamente. Estamos fechando nossos balanços mais rapidamente. Estamos cometendo menos erros e identificando os que acontecem de forma mais confiável. E, como CEO, nunca tive ferramentas melhores para medir exatamente como a empresa está performando, incluindo identificar nossos talentos em ascensão.
A grande maioria dos funcionários demitidos na semana passada era composta por medidores. Cortamos gerentes intermediários em toda a organização porque a IA permite que cada gestor supervise mais pessoas, mantendo ainda assim capacidade de mensuração e mentoria eficaz. Consolidamos funções operacionais em um único grupo capaz de apoiar equipes de toda a empresa, usando IA para obter expertise específica quando necessário. Também reduzimos significativamente nossa equipe de marketing, que, como ocorre na maioria das empresas, estava repleta de medidores. Em finanças, encontramos oportunidades para consolidar e automatizar processos.
Mas as demissões não tiveram como objetivo reduzir o número total de funcionários. Na verdade, temos um número recorde de vagas abertas. Nos próximos anos, espero que o total de empregados continue crescendo. Com menos pessoas necessárias para funções de mensuração, agora podemos investir mais em áreas que impulsionam crescimento.
Recebemos quase 1 milhão de candidaturas para 1.111 vagas remuneradas de estágio neste verão. Os estagiários contratados são extremamente qualificados e nativos em IA. Todos são construtores ou vendedores, e esperamos que a maioria receba ofertas efetivas de emprego.
Eles são a próxima geração que vai inventar novas formas de impulsionar nossos negócios. Com IA, agora conseguimos medir melhor suas contribuições e identificar com precisão quem serão os líderes do amanhã. A IA não é um prenúncio de desemprego juvenil em massa — é justamente o contrário.
A IA não vai acabar com todos os empregos. Mas vai transformar todos os negócios. No fim, provará que Drucker estava certo. A IA permitirá medir melhor nossas organizações para que os humanos possam se concentrar em onde realmente criam e capturam valor: construir e vender.
* Por Matthew Prince: CEO da Cloudflare
