Economia

Como os desastres climáticos entram nas contas dos economistas

RS teve 53 dias de chuvas extremas entre 2011 e 2020. Desde 2021, já foram 27. Entenda os efeitos sobre a economia.

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Se as chuvas no Rio Grande do Sul mantiverem o padrão observado desde 2021, o número de dias com precipitações extremas, com volumes acima de 50 mm, pode crescer 50% nesta década em relação à anterior. E isso poderá ter impacto direto sobre variáveis econômicas como inflação e PIB.

De 2021 até agora, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou 27 dias de chuvas extremamente intensas na estação de Porto Alegre. Entre 2011 e 2020, foram 53. Ou seja, em pouco mais de três anos a região já contabilizou quase metade do que tinha sido observado ao longo de uma década.

Esse cálculo foi feito pelo economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores. “Além de mais numerosos, os eventos são cada vez mais concentrados, o que aumenta o impacto”, diz. É o que se vê no Rio Grande do Sul – especialmente suscetível a El Niños turbinados pelas mudanças climáticas. Com a análise, Imaizumi tenta mensurar o comportamento de uma variável difícil de prever, mas que tem cada vez mais relevância sobre os modelos econométricos: o clima.

O Rio Grande do Sul foi o estado que teve o menor crescimento no saldo de vagas formais em relação ao estoque total de trabalhadores no ano passado – segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o saldo de  empregos com carteira assinada foi de  47,3 mil na região.

Há alguns anos, a economia do RS sente os efeitos da retração dos setores de vestuário e calçados, que têm uma importante participação na economia local e, entre outras questões, sofrem com a concorrência chinesa. E também tem a crise da vizinha Argentina.

Mas o agravamento das condições climáticas provavelmente tem o seu papel aí. “É difícil isolar o efeito do clima sobre a economia, mas não há dúvidas de que ele é relevante”, diz o economista.

Para ilustrar sua afirmação, ele cita um paper publicado pelo Fed, que se propõe a analisar desastres climáticos em 100 países. Segundo o estudo, “grandes eventos” (que não foram nomeados no estudo) ceifaram 0,5 ponto percentual do PIB mundial ao longo de dez anos. Parece pouco, mas não é: isso significa US$ 500 bilhões por ano.

O impacto mais imediato de um episódio de enchentes como o que se vê agora no Rio Grande do Sul é sobre a inflação. Isso porque a região é uma grande produtora de itens com peso relevante sobre os índices: leite, arroz, carne e soja. Nas contas de Imaizumi, a inflação do item alimentação no domicílio deve registrar uma alta de 4,5% este ano. A projeção anterior era de 3,9%.

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