Economia

Brasileiros viajaram mais de carro e menos de avião em 2021

Uso do automóvel em viagens cresceu para 57,2% devido a alto custo das passagens aéreas e restrições da pandemia.

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A empregada doméstica Jailda de Jesus Santos, de 43 anos, teve que mudar seus planos de férias no ano passado e trocar o roteiro para um destino mais próximo, em que pudesse viajar de carro.

“Planejamos viajar de avião, a gente queria ir muito pra Bahia no fim do ano passado, mas devido à alta da passagem e a pandemia, acabamos fazendo uma viagem para o interior de São Paulo mesmo”, disse ela.

Moradora do Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo, ela trocou a Bahia por Itu, no interior paulista. E, neste fim de ano, pretende ir para Queluz, na região do Vale do Paraíba, também no estado de São Paulo.

“Se eu pudesse iria pra outro lugar, mas não dá, o preço da passagem está muito alto”, afirmou ela, que teria que comprar passagens para ela, o filho e o marido.

Jailda de Jesus Santos, 43 anos, durante viagem com seu filho para Socorro (SP). Crédito: Tatiana Santiago

A realidade de Jailda também foi a de milhões de brasileiros que deixaram de viajar de avião em 2021. No ano passado, cerca de 57,2% das viagens foram feitas de carro, um aumento frente aos 46,6% registrados em 2019, no período pré-pandemia.

As viagens de ônibus caíram de 15%, em 2019, para 12,5%, no ano passado. Já as de avião recuaram de 15,3% para 10,2% no mesmo período, de acordo com dados da PNAD Contínua Turismo 2020-2021, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

O percentual de viagens internacionais caiu de 3,8%, em 2019, para 0,7% em 2021. Em contrapartida, observou-se um aumento da procura por destinos locais. O guia turístico Jesaías Messias Mariano, de 25 anos, que também trabalha como recepcionista em uma pousada em Socorro, no interior de São Paulo, notou aumento de turistas em sua cidade.

“O turista está explorando mais o Brasil. Todas as atividades turísticas no rio do Peixe tiveram um fluxo maior devido às limitações impostas pela pandemia. Está faltando mão-de-obra para trabalhar na região porque o turismo está aumentando cada vez mais”, disse.

Messias, guia turístico e funcionário de pousada em Socorro, no interior paulista. Crédito: Tatiana Santiago

Ele acredita que o fluxo na pousada em que trabalha aumentou mais de 30% no período, já que o destino fica a cerca de 2 horas e meia da maior capital do país e o carro é o principal meio de transporte utilizado pelos turistas que visitam a cidade. O rio do Peixe é um dos principais atrativos da cidade e utilizado para a prática do rafting.

As restrições impostas pela pandemia de covid-19 e a alta no preço das passagens de avião contribuíram para o aumento das viagens de carro. Em 2021, a inflação das passagens aéreas foi de 17,90%, enquanto a inflação do período era de 10,06%. Nos últimos 12 meses, a valor da passagem aérea aumentou mais de 120% (leia abaixo).

O supervisor de produção Marcio Alves, de 47 anos, e sua esposa Alexandra Lopes, de 43 anos, fazem parte das estatísticas dos turistas que viajaram de carro em 2021.

Apesar de o casal morar em Hortolândia, no interior paulista, eles percorreram mais de 2.200 quilômetros e viajaram por dois dias seguidos até a cidade de Parauapebas, no estado do Pará, para visitar seus familiares.

“Já é a sétima vez que a gente vai para lá e nunca fomos de avião. Como nunca andamos de avião e ficamos com um pouco de medo. De carro, a gente vai aproveitando o caminho, conhecendo os lugares”, argumentou.

Segundo o IBGE, “em um país de dimensões continentais como o Brasil, é bem mais raro uma pessoa sair do país utilizando carro. Em geral, ela viaja dentro da mesma região em que mora ou até do mesmo estado.”

Casal tomando sol em pousada de Socorro. Crédito: Tatiana Santiago

Classe social


De acordo com o levantamento, o uso do avião como meio de transporte cresce quando aumenta o rendimento domiciliar. Nos domicílios com rendimento per capita (por pessoa) de até meio salário-mínimo, o avião foi o meio de transporte utilizado em apenas 4,3% das viagens.

Esse percentual aumentou para 21,1% nos domicílios que têm rendimento per capita de quatro salários-mínimos ou mais.

O preço das passagens aéreas disparou no Brasil no último ano. De acordo com o IBGE, em junho, a inflação acumulada das passagens dos último 12 meses era de 122,4%, enquanto a inflação oficial do período foi de 11,89%.

Avião da Azul no aeroporto internacional de Guarulhos (SP) 11/07/2018 REUTERS/Leonardo Benassatto

Por que as passagens aéreas estão caras?

A alta no preço do combustível usado pelos aviões é a principal causa do aumento das tarifas aéreas.

A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) destaca que o preço do querosene de aviação (QAV) acumula alta de 102,4% em 12 meses, na comparação de junho de 2022 com o mesmo período do ano passado, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), considerando o valor praticado por produtores e importadores de derivados de petróleo.

O custo da querosene corresponde a 36% do valor total do custo da passagem. Em 2019, o custo médio do litro era de R$ 2,12, e passou para R$ 4,17 em 2022.

De acordo com os dados mais recentes disponíveis pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), a tarifa aérea média real registra alta de 12,6%, na comparação com valor acumulado de janeiro a abril de 2022 (R$ 580,41) com a tarifa aérea média real do ano passado (R$ 515,22).

O preço médio da tarifa aérea doméstica comercializada nos primeiros quatro meses de 2022 manteve a tendência de elevação, com alta de 21,52% na comparação com o mesmo período de 2019, que antecedeu a pandemia de covid-19. Na ocasião, o preço da tarifa era de R$ 477,64.

O querosene de aviação (QAV), combustível que teve peso de 36% na planilha de custos das empresas aéreas nos primeiros meses do ano, acumulou uma alta de 96,7% no período, quando comparado com os preços praticados entre os meses de janeiro e abril de 2019. Além disso, a Petrobras anunciou um aumento do combustíveis há algumas semanas.

Além do aumento do preço do querosene usado na aviação, a inflação, a alta do dólar o aumento da demanda do setor com a retomada econômica também impactam negativamente o preço da passagem aérea.

Turistas praticam rafting no Rio do Peixe em socorro, no interior de SP. Crédito: Divulgação

Gastos com turismo brasileiro

Pela primeira vez, a PNAD calculou os gastos dos brasileiros nas viagens. Veja as principais conclusões do mapeamento:

  • Em 2021, foram realizadas 12,3 milhões de viagens por turistas brasileiros. O número de viagens caiu 41% entre 2019 e 2021. Em 2019, antes da pandemia, foram realizados 20,9 milhões de viagens;
  • Em 2021, os maiores gastos foram em viagens para São Paulo (R$ 1,8 bilhão), Bahia (R$1,1 bilhão) e Rio de Janeiro (R$1,0 bilhão);
  • Uma em cada cinco viagens (ou 20,6% delas) foi para o estado de São Paulo, o destino mais procurado, seguido por Minas Gerais (11,4%) e Bahia (9,5%);
  • Do total de viagens em 2021, cerca de 14,6% foram profissionais e 85,4% pessoais;
  • Em cerca de um terço (33,1%) dos domicílios com renda per capita de quatro ou mais salários mínimos, algum morador viajou em 2021. E apenas 7,7% dos domicílios com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, algum morador viajou no mesmo ano;
  • Nos domicílios com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, 35,1% das viagens pessoais foram para tratamento de saúde e apenas 14,3% para lazer. Já nos domicílios com renda per capita de quatro ou mais salários mínimos, 57,5% das viagens foram para lazer e apenas 4,4% para tratamento de saúde.

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