Verão da vingança de Trump traz riscos que o mercado ainda não colocou nos preços

Presidente dos EUA vem ampliando a ofensiva contra adversários e até integrantes do próprio governo

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O presidente Donald Trump vive o que analistas já chamam de “verão da vingança” – no hemisfério norte o verão vai de junho a agosto. Cumprindo a promessa de retaliação feita durante a campanha, ele vem ampliando sua ofensiva contra adversários políticos e até contra integrantes de seu próprio governo que possam atrapalhar sua agenda.

Nas últimas semanas, Trump retirou credenciais de segurança, demitiu autoridades de agências independentes e usou as redes sociais para ameaçar opositores. O episódio mais recente foi a tentativa de afastar a diretora do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Lisa Cook, acusada pelo governo de fraude hipotecária. Críticos consideram a medida um ataque direto à independência do BC, já que sua saída daria maioria ao presidente dentro do colegiado.

A medida contra a diretora do Fed, por exemplo, é inédita: nunca um presidente havia tentado demitir um membro do banco central, o que levanta preocupações sobre a independência da autoridade monetária e possíveis impactos nos mercados globais. Cook já anunciou que entrará com ação judicial contestando a decisão.

Apesar de o medo de uma tomada de controle do Fed não ter sido adicionado aos preços do mercado, não significa que está afastado. Com a renúncia de Adriana Kugler do conselho executivo do Fed, no início do mês, Trump indicou Stephen Miran para a vaga.

Caso Cook fosse afastada, o presidente americano passaria a ter maioria de indicados (4 a 3) no colegiado. Quando o presidente do Fed Jerome Powell deixar o cargo em maio do ano que vem, no fim de seu mandato, Trump pode consolidar ainda mais sua influência. Nesse caso, aumentam as chances de o verdadeiro poder no Fed passar para as mãos do presidente dos EUA.

O próprio Trump chegou a comentar após tentar demitir Cook sobre a possibilidade de seus indicados se tornarem maioria do conselho de governadores do Fed. “Vai ser ótimo. As pessoas estão pagando juros muito altos”, disse.

Arroubos autoritários

Outro caso emblemático nessa fase vingativa foi a operação do FBI contra o ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton, hoje crítico de Trump. A busca e apreensão ocorreu por suspeita de manuseio indevido de documentos sigilosos.

Trump também exonerou a diretora do CDC, Susan Monarez, após divergências sobre política de vacinas, e substituiu o chefe do Bureau of Labor Statistics depois de um relatório de empregos abaixo do esperado. Além disso, retirou a proteção do Serviço Secreto da ex-vice-presidente Kamala Harris, que havia sido estendida até 2026 por Joe Biden.

O presidente ainda ameaça investigações contra o ex-governador republicano Chris Christie, o bilionário democrata George Soros e parlamentares como o senador Adam Schiff e a procuradora-geral de Nova York, Letitia James.

Nunca na história

Historiadores lembram que nenhum presidente desde Richard Nixon havia usado seus poderes de forma tão ampla contra opositores.

O historiador presidencial Doug Brinkley afirmou que se trata de uma estratégia deliberada para intimidar opositores dentro do governo. Já o professor de Direito da Universidade de Boston, Jed Shugerman, classificou a tentativa de demitir Lisa Cook como um “ataque de outro nível, não apenas ao Fed, mas ao próprio equilíbrio institucional”.

Apesar das críticas, o Congresso, dominado por republicanos, tem apoiado a maioria das decisões. Assim, a Justiça aparece como único contrapeso, embora a Suprema Corte já tenha dado vitórias significativas ao presidente em questões envolvendo militares, imigração e cortes de verbas.

Apesar das preocupações com os impactos sobre a democracia e o mercado financeiro, especialmente no caso do Fed, Trump mantém o discurso de que está apenas “corrigindo abusos” e cumprindo o que prometeu aos eleitores.

A disposição de Trump em usar o governo como instrumento de retaliação já havia sido sinalizada durante a campanha de 2024. Em entrevistas, chegou a admitir que “a vingança leva tempo, mas às vezes é justificada”.

Agora, com menos de seis meses de novo mandato, Trump já foi além do que muitos previam, abrindo um cenário de choques institucionais com potencial de afetar tanto a política americana quanto os mercados globais.

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