Finanças

Após se aproximar dos R$ 6, dólar perde força e cai; Ibovespa sobe 1,59%

Economias do mundo todo recalculam a trajetória de retomada econômica, com base nas sinalizações do governo americano e nas tentativas de reabertura.

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Após oscilar ao longo do dia, o principal índice da bolsa brasileira conseguiu sustentar a alta nesta quinta-feira (14), enquanto o dólar perdeu força contra o real no final do dia e passou a cair. Mais cedo, ameaçou encostar nos R$ 6. O mercado reagiu mal a temores de que a crise provocada pela pandemia da Covid-19 possa ser mais duradoura e profunda do que se imaginava.

O principal índice da B3, o Ibovespa, subiu 1,59%, aos 79.010 pontos, acompanhando as bolsas de Nova York. Já o dólar comercial terminou o dia negociado a R$ 5,8202, em queda de 1,37%, após ter operado em forte alta no início do dia. Na máxima da sessão, foi a R$ 5,9653.

Destaques da Bolsa

A alta do Ibovespa foi puxada pelo avanço dos bancos, que acompanharam o bom desempenho do setor financeiro no exterior. Perto do horário de fechamento, o Itaú Unibanco (ITUB4) e Bradesco (BBDC4) valorizavam 4,26% e 5,31%, respectivamente. Ambas ações possuem forte peso na composição do índice da B3.

Os papéis da Petrobras, que informa balanço após fechamento a Bolsa, caíram mesmo com a alta do petróleo e expectativa de crescimento em seu lucro atribuído aos acionistas. Fontes do mercado financeiro consideram a dívida em dólar da empresa e a disparada da cotação. Pouco antes do fechamento, as ações preferenciais (PETR4) recuavam 2,67%, enquanto as ordinárias (PETR3) caíam 2,92%.

No mesmo horário, as ações da Via Varejo (VVAR3) subiam 0,98%. Superando a pandemia, a empresa reportou lucro líquido de R$ 13 milhões no primeiro trimestre de 2020, revertendo um prejuízo de R$ 50 milhões no mesmo período de 2019. Mas os analistas consideram que os impactos da Covid-19 e a alavancagem da companhia mantêm os riscos de curto prazo.

Risco-país

O Brasil passou nas últimas semanas a ser um país mais arriscado para o estrangeiro investir, se descolando de outros emergentes. Isso porque, se a crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus é uma realidade para todos, os ruídos políticos, além de serem muito mais intensos aqui, elevaram as preocupações sobre a recuperação da atividade econômica e em relação às contas fiscais brasileiras.

Resultado: o risco país subiu bem mais no País do que em outras regiões e o real é a moeda que mais se desvaloriza ante o dólar entre os principais emergentes. Com a tendência de os juros reais se tornarem negativos aqui nos próximos meses, a avaliação de estrategistas e economistas é que o Brasil vai ficar ainda mais distante do radar dos grandes investidores.

Uma das medidas da piora da percepção sobre o perfil de risco do Brasil é o comportamento recente do indicador que mede a chance de um país dar um calote na sua dívida externa, o Credit Default Swap (CDS). Só este ano, o CDS do Brasil subiu 255%. Como comparação, na América Latina, o do México avançou 175% e o do Chile teve aumento de 140% no mesmo período. Nessa lista, Argentina e Venezuela estão excluídas, por já estarem em situação de calote.

Antes da crise do coronavírus e da piora do ambiente político, investidores viam o Brasil com chance de voltarao grau de investimento, o selo de bom pagador concedido pelas agências de avaliação de risco, como mostravam as taxas do CDS no começo de janeiro, que operavam na casa dos 95 pontos (menor nível em dez anos). Em abril, as taxas chegaram a superar 400 pontos, mesmo nível que o Brasil tinha no começo de 2016, pouco antes do impeachment de Dilma Rousseff. .

Contexto interno

Pesou a notícia de aumento de gastos diante da aprovação, em sessão conjunta do Congresso, do projeto que autoriza reajuste salarial de até 25% das polícias do Distrito Federal, que tem custo estimado de R$ 505 milhões por ano. Como essa votação fazia parte de um acerto do presidente Jair Bolsonaro com o Centrão, agora pode ser que Bolsonaro assine logo o veto à possibilidade de reajuste dos salários dos servidores públicos no projeto de auxílio emergencial a Estados e municípios.

O mercado também seguiu na expectativa com a divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, na qual o ex-ministro Sergio Moro acusa Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal.

O depoimento do delegado Carlos Henrique Oliveira, atual diretor executivo da Polícia Federal e novo número dois da corporação, também trouxe cautela. Ele afirmou em depoimento nesta quarta, 13, que a corporação mirou, sim, familiares do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo ele, o inquérito era de âmbito eleitoral, e já foi relatado sem indiciamento. A investigação citada mirou em supostos crimes de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica envolvendo a declaração de bens do senador Flávio Bolsonaro nas eleições de 2014, 2016 e 2018. A confirmação de Oliveira sobre o inquérito contradiz Bolsonaro, que declarou na terça-feira, 12, que ninguém de sua família é investigado pela Polícia Federal.

Mais cedo, a pesquisa industrial mensal do IBGE mostrou que produção industrial encolheu em todos os 15 locais pesquisados em março ante fevereiro. Em São Paulo, maior parque industrial do País, a queda foi de 5,4%.

Discurso do Fed

Em discurso que mobilizou a atenção de investidores ontem, Jerome Powell presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), disse que a “trajetória adiante é não apenas altamente incerta como está sujeita a significativos riscos negativos”, alertando sobre a possibilidade de uma recessão pior do que qualquer outra desde a Segunda Guerra Mundial, em consequência do impacto econômico da Covid-19, como é conhecida a doença causada pelo vírus.

Powell também pediu mais estímulos fiscais, sugerindo que o poder de fogo monetário do Fed pode não ser suficiente para conter estragos maiores, e descartou a possibilidade de o BC americano adotar juros negativos, hipótese que vinha sendo aventada nos mercados.

Bolsas globais

As bolsas europeias fecharam em baixa. Os índices foram pressionados desde o início do dia, por causa da piora nos mercados acionários de Nova York à tarde. O cenário piorou diante de declarações cautelosas de autoridades e de um indicador fraco nos Estados Unidos, com investidores temendo que a retomada econômica pode demorar mais do que o desejado. O índice pan-europeu Stoxx 600 fechou em queda de 2,17%, em 326,71 pontos.

As bolsas asiáticas fecharam em baixa generalizada mais cedo, após comentários de Jerome Powell gerarem preocupações de que a recuperação da economia global da pandemia de coronavírus seja mais lenta do que se esperava.

Na China continental, o índice Xangai Composto terminou o pregão de hoje em queda de 0,96%, a 2.870,34 pontos, e o menos abrangente Shenzhen Composto recuou 0,94%, a 1.805,70 pontos.

Em outras partes da Ásia, o japonês Nikkei caiu 1,74% em Tóquio, a 19.914,78 pontos, o Hang Seng cedeu 1,45% em Hong Kong, a 23.829,74 pontos, o sul-coreano Kospi se desvalorizou 0,80% em Seul, a 1.924,96 pontos, e o Taiex registrou perda de 1,44% em Taiwan, a 10.780,88 pontos.

Ao longo desta semana, os negócios também têm sido pressionados por evidências de que países da região asiática, incluindo China e Coreia do Sul, enfrentam uma segunda onda de infecções por coronavírus, após suspenderem parte de suas medidas de isolamento.

*Com Estadão Conteúdo

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