O aumento do cruzamento automático de dados pelo Fisco tornou mais fácil achar inconsistências em rendimentos, deduções e informações de dependentes com mais rapidez – e mais chance de cair na malha fina.
Isto é, a declaração fica retida por apresentar inconsistências ou divergências em relação às informações recebidas pela Receita.
- Nesses casos, a restituição fica suspensa até a regularização, e podem ser aplicadas multas que chegam a 75% do imposto devido, dependendo da situação.
Em 2025, mais de 1,29 milhão de declarações do Imposto de Renda foram retidas, o equivalente a 2,8% do total entregue, segundo o Fisco. A maior parte dos casos esteve relacionada a problemas com deduções e omissão de rendimentos.
Deduções médicas sem comprovação lideram as retenções
As despesas médicas declaradas no Imposto de Renda continuam sendo o principal motivo de retenção na malha fina. Em 2025, 32,6% das declarações retidas apresentaram deduções médicas sem comprovação.
No ciclo do IR 2026, a fiscalização ficou mais rigorosa com o uso do sistema Receita Saúde, que permite o cruzamento com recibos emitidos por profissionais de saúde com valores informados pelos contribuintes.
Na prática, isso significa que gastos médicos declarados sem correspondência em recibos ou sem documentação adequada tendem a ser identificados com maior facilidade.
Para evitar esse tipo de inconsistência, é necessário manter recibos, notas fiscais e comprovantes de pagamento que provem os gastos declarados.
Omissão de rendimentos é outro erro frequente
Deixar de informar rendimentos recebidos ao longo do ano é um dos erros mais recorrentes nas declarações do Imposto de Renda. Em 2025, 30,8% das retenções ocorreram por omissão de rendimentos do titular ou de seus dependentes.
Entre os rendimentos que precisam ser declarados estão:
- Salários e benefícios trabalhistas;
- Rendimentos de trabalho autônomo;
- Aluguéis recebidos;
- Pensões e aposentadorias;
- Rendimentos de dependentes incluídos na declaração.
Como as fontes pagadoras enviam essas informações diretamente à Receita, divergências ou omissões são detectadas automaticamente durante o processamento.
Erros simples de digitação
Mesmo inconsistências aparentemente pequenas podem levar a declaração do Imposto de Renda para a malha fina — o suficiente para gerar divergência com os dados enviados por empresas e instituições financeiras.
Zeros a mais ou a menos, inversão de valores e preenchimento de campos errados estão entre os erros mais comuns.
Uso da declaração pré-preenchida não elimina o risco de erro
A expectativa da Receita Federal é que cerca de 60% dos contribuintes utilizem a declaração pré-preenchida em 2026. Nesse modelo, dados de rendimentos, deduções, bens e direitos são importados automaticamente de bases oficiais e declarações de terceiros.
Mesmo assim, a responsabilidade pela conferência das informações continua sendo do contribuinte. Dados incompletos, desatualizados ou inconsistentes precisam ser corrigidos antes do envio, sob risco de retenção para análise.
Dados bancários e aplicações financeiras devem ser informados integralmente
Os informes de rendimentos enviados por bancos trazem não apenas os valores recebidos em aplicações financeiras, mas também saldos de contas e outras movimentações relevantes para a declaração, que é identificada automaticamente.
O contribuinte deve reproduzir todas essas informações, mesmo quando se trata de valores pequenos ou de contas com pouca movimentação.
Dependentes e rendimentos relacionados
Ao incluir um dependente na declaração do Imposto de Renda, o contribuinte passa a ser responsável por informar todos os rendimentos, bens e direitos vinculados a essa pessoa.
- A ausência dessas informações altera o cálculo do imposto e pode levar à retenção da declaração para verificação.
Esse tipo de erro é comum quando o dependente possui estágio, bolsa, pensão ou aplicações financeiras em seu próprio nome e esses valores não são incluídos na declaração do titular.
Além disso, nem toda pessoa sustentada financeiramente pode ser considerada dependente para fins de Imposto de Renda.
A legislação estabelece critérios específicos, que incluem cônjuge ou companheiro, filhos e enteados dentro dos limites de idade ou escolaridade, além de pais, avós e outros parentes em situações previstas em lei.
Atualização indevida do valor de imóveis e veículos
Outro erro recorrente é atualizar o valor de imóveis ou veículos para refletir a valorização ou desvalorização de mercado. Na declaração do Imposto de Renda, os bens devem ser informados pelo valor de aquisição e permanecer com esse valor até a venda.
No caso de imóveis, apenas gastos comprovados com reformas e benfeitorias podem ser adicionados ao custo do bem. Para veículos, o valor declarado permanece inalterado desde a compra até a alienação.
Bens financiados devem ser informados na ficha “Bens e Direitos” apenas pelo valor efetivamente pago até o fim do ano-calendário.
Já o saldo devedor, ou seja, o valor que ainda falta quitar, deve ser informado na ficha “Dívidas e Ônus Reais”.
Declarar o valor total do bem antes da quitação ou deixar de informar o saldo da dívida são erros que podem gerar divergências patrimoniais e levar à retenção da declaração.
LEIA MAIS: Como declarar imóvel financiado no Imposto de Renda 2026?
Operações na bolsa precisam ser informadas mesmo em meses sem lucro
Contribuintes que investem em ações ou outros ativos de renda variável devem apurar mensalmente os resultados das operações — inclusive em meses com prejuízo — e informá-los na declaração anual do Imposto de Renda, na ficha “Renda Variável”.
- O imposto sobre ganhos na bolsa é calculado mês a mês, e a omissão dessas informações pode resultar em cobrança de tributos, além de multa e juros.
Mesmo quando as vendas mensais ficam abaixo do limite de isenção, as operações devem constar na declaração para que a Receita Federal consiga acompanhar a evolução patrimonial do contribuinte.
LEIA MAIS: Como declarar ações no Imposto de Renda 2026?
Outros erros que costumam levar à malha fina
Além das deduções e omissão de rendimentos, o Fisco também identifica inconsistências frequentes em outras áreas da declaração:
- Inclusão de dependentes sem informar os rendimentos ou bens correspondentes;
- Declaração incorreta de planos de previdência privada, especialmente na distinção entre PGBL e VGBL;
- Omissão de lucros obtidos em operações na bolsa de valores;
- Deduções de despesas educacionais ou outras despesas sem documentação válida;
- Informações cadastrais incorretas, como CPF ou data de nascimento de dependentes.
O que acontece quando a declaração cai na malha fina
Quando uma declaração é retida, o contribuinte pode ser intimado a apresentar documentos que comprovem as informações declaradas. Esse procedimento é realizado de forma digital, por meio do portal da Receita Federal.
Se a inconsistência for corrigida por meio de declaração retificadora antes de qualquer procedimento fiscal, a situação pode ser regularizada sem aplicação de multa.
- Caso a Receita identifique erros após o início da fiscalização, pode haver cobrança de imposto adicional, juros e penalidades.
