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5%, 10% ou até 20% ao ano: o que é renda passiva em cripto – e os riscos envolvidos

Sistemas cripto oferecem rendimentos para investidores, mas os riscos são maiores que os do mercado tradicional

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Criptomoedas são ativos de renda variável, com um sobe e desce constante. Por isso, não dá para falar em lucro garantido. Ainda assim, dentro desse mercado gigante de cerca de US$ 3,1 trilhões, alguns projetos oferecem uma espécie de renda passiva para quem topa deixar suas moedas paradas por um tempo ou emprestar para outros investidores e plataformas.

Um dos jeitos mais comuns de ganhar esse rendimento é por meio do staking. Staking é o processo de manter criptomoedas travadas – ou “em custódia” – em uma rede blockchain e receber uma recompensa por isso. É algo semelhante aos dividendos de ações ou dos rendimentos de um título de renda fixa. Só que, claro, com bem mais risco – se a cripto derreter, você perde o que deixou investido.

As blockchains que permitem staking funcionam com um mecanismo chamado Proof of Stake (prova de participação, em inglês). É um algoritmo. Por trás do nome complicado, a lógica é simples: a rede precisa dessas moedas travadas para ajudar na segurança do sistema, na validação das transações e na criação de novos blocos. Em troca, quem participa recebe uma remuneração. As redes Ethereum (ETH), Solana (SOL) e Cardano (ADA) são alguns exemplos.

Essas redes são diferentes do sistema por trás do bitcoin (BTC), que usa o algoritmo Proof of Work (prova de trabalho). No caso do BTC, todo o processo de validação depende de poder computacional. Existem empresas e grupos espalhados pelo mundo usando computadores superpotentes para resolver cálculos, manter a rede funcionando e, em troca, ganhar bitcoins como recompensa – um processo que consome uma quantidade enorme de energia.

Empréstimo e “cultivo” de rendimento

Outro caminho para buscar renda passiva em cripto é o lending – o empréstimo de ativos. Nesse modelo, o investidor empresta suas criptomoedas para outros usuários via sistemas automáticos e recebe juros por isso. Funciona como um “banco cripto”: quem pega emprestado paga juros, e a pessoa que liberou as criptos fica com uma parte desse rendimento. Alguns exemplos conhecidos são Aave (AAVE) e Compound (COMP).

Há ainda uma terceira estratégia bastante popular: o yield farming (algo como “cultivo de rendimento”). Aqui, o você deposita moedas em uma plataforma para ajudar a dar liquidez às negociações – ou seja, facilitar a troca de cripto entre usuários. Em troca, recebe uma parte das taxas cobradas nessas operações. Esse modelo é comum em corretoras descentralizadas (DEX, em inglês), como Uniswap (UNI), Curve (CRV) e PancakeSwap (CAKE).

Onde encontrar isso – e quanto pagam?

Hoje, é possível ganhar renda passiva diretamente nas plataformas desses protocolos. Além disso, várias corretoras também oferecem esse tipo de produto para o investidor comum.

Em exchanges como Binance, Bitget, Mercado Bitcoin e outras, não é difícil encontrar produtos cripto prometendo retornos de 1%, 5%, 10%, 20% ao ano – ou até mais. Mas é justamente aí que mora o perigo: retorno alto não vem sem risco alto.

“Retornos de 3 a 8% em grandes blockchains Proof of Stake tendem a ser sustentáveis, baseados em inflação moderada, taxas e algum MEV”, diz Guilherme Prado, country manager da Bitget no Brasil.

Na prática, a inflação é a quantidade de novas criptos que a rede emite por ano – quanto menor esse número, menor a diluição para quem já tem o ativo. As taxas são cobradas sempre que alguém faz uma transação na rede e parte desse dinheiro vai para quem valida os blocos. Já a chamada MEV é uma espécie de “extra” dado aos validadores ao organizar a ordem das transações dentro da blockchain – algo parecido com um bônus por eficiência, normalmente explorado por empresas e desenvolvedores especializados nesse tipo de infraestrutura.

Já rendimentos acima de 15 a 20%, segundo o especialista, são frequentemente sinais de alerta, pois podem depender de estruturas complexas que aumentam o risco oculto de perda.


Como os protocolos conseguem pagar esses valores?

De onde vem o dinheiro para pagar esses rendimentos? A resposta está no próprio funcionamento das blockchains e dos protocolos financeiros descentralizados, de acordo Fabiano Nagamatsu, CEO da Moove Hub.

No caso do staking, a remuneração vem principalmente de duas fontes: a emissão de novos tokens e das taxas pagas pelos usuários para usar a blockchain – chamadas gas fees, no caso da rede Etherereum.

Já no lending, tanto em plataformas de finanças descentralizadas (DeFi) quanto em serviços centralizados, a lógica é parecida com a do mercado financeiro tradicional: o investidor empresta seus ativos, outra pessoa toma esse dinheiro emprestado e paga juros. Esse juro é o rendimento de quem emprestou, muitas vezes complementado por incentivos pagos em tokens da própria DeFi.

Por fim, no yield farming, em plataformas como Uniswap e Curve, o investidor deposita suas criptomoedas para ajudar nas trocas dentro do próprio sistema. Em troca, ganha uma parte das taxas pagas pelos usuários – e, em alguns casos, também recebe tokens extras como bônus.

É arriscado?

A promessa de renda passiva em cripto pode parecer tentadora, mas ela vem acompanhada de uma lista considerável de riscos.

Um dos principais é o risco de contraparte – a pergunta básica: quem está, de fato, segurando o seu dinheiro? Em plataformas centralizadas, como corretoras e aplicativos de “earn”, o investidor depende da saúde financeira e da boa gestão da empresa. Se a companhia quebrar, fizer apostas arriscadas demais ou usar mal os recursos dos clientes, o prejuízo pode ser grande.

Outro ponto importante é o risco de smart contract (contratos inteligentes) – ou seja, do próprio código que roda o sistema. Bugs, falhas de segurança e ataques fazem parte da realidade desse mercado. E nem mesmo auditorias são garantia absoluta: vários contratos considerados seguros já foram hackeados. Para piorar, atualizações de código podem acabar introduzindo novas vulnerabilidades.

Há também o risco de mercado e de volatilidade. Em muitas estratégias de yield, o investidor recebe recompensas em tokens que podem despencar de preço de uma hora para outra.

Outro é o risco de liqudez. Algumas aplicações exigem períodos de bloqueio, durante os quais não é possível sacar os recursos. Em outros casos, até existe a opção de sair, mas a liquidez é tão baixa que a venda derruba o preço.

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“Em crises, todo mundo quer sacar ao mesmo tempo, e protocolos cortam rewards (recompensas) e plataformas centralizadas travam saques”, disse Nagamatsu.

Não dá para ignorar também o risco regulatório. Governos e entidades reguladoras ao redor do mundo seguem de olho em stablecoins, exchanges e produtos de rendimento em cripto. Nos Estados Unidos, por exemplo, eles devem discutir isso em um novo projeto de lei nesta semana. Intervenções podem resultar em congelamento de operações, proibições ou mudanças bruscas nas regras do jogo.

Há ainda o risco operacional e de custódia, que inclui desde a perda de chaves privadas até falhas em integrações entre protocolos e problemas com oráculos.

Por fim, existe o risco de golpes e modelos insustentáveis. São projetos em que o retorno depende basicamente de emitir novos tokens e vendê-los para quem está entrando depois. Em outras palavars, uma pirâmide. Enquanto há fluxo de novos participantes, o sistema parece funcionar. Quando esse fluxo diminui, o preço do token despenca e o “rendimento” simplesmente evapora.

Como investir com mais cuidado?

Para investir e evitar riscos ainda maiores, vale seguir um checklist, segundo Prado, country manager da Bitget no Brasil.

“É importante entender claramente de onde vem o rendimento, conferir auditorias e segurança técnica, avaliar liquidez e governança do protocolo e conhecer a regulamentação aplicável.”

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