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Choque de realidade sobre os custos da IA derruba as bolsas. A bolha começou a estourar?

Ações de tecnologia recuaram em dia de pessimismo disseminado nos mercados

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O mercado financeiro viveu nesta quinta-feira um choque de realidade. A euforia que carregou as bolsas nos últimos dois anos sobre a inteligência artificial deu lugar a um cálculo mais frio: o custo para manter a IA funcionando é tão gigantesco que pode secar o caixa das maiores empresas do mundo. Mas não é só isso, grande parte dos investidores começou a enxergar o lado mais sombrio da revolução: a ameaça à existência de setores inteiros.

O movimento mais pessimista disseminado entre vários mercados nesta quinta-feira refletiu, em boa parte, esse novo sentimento de disrupção iminente. Nesta quinta, as ações da Cisco Systems despencaram 12%, após uma projeção de margens abaixo do esperado, como reflexo de que o aumento nos preços dos chips está pesando no balanço. Todas as gigantes de tecnologia recuaram.

As bolsas de Nova York fecharam em quedas expressivas. OS&P 500 terminou com baixa de 1,57%, enquanto o Nasdaq recuou 2,03%.

No Brasil, o Ibovespa também sentiu o peso do humor mais azedo lá fora. O principal índice da bolsa local recuou 1,02% aos 188.178 pontos. O dólar, que passou a maior parte do dia em queda, virou no fim da tarde e terminou em alta de 0,25% cotado a R$ 5,2114.

Não foi só na tecnologia. Os preços das commodities andaram para trás também. O petróleo, por exemplo, recuou 2,5% em meio às avaliações de que, mesmo com a pausa no aumento de produção definido pela Opep+ e a tensão entre Irã e EUA, os próximos anos serão de excesso de oferta.

Num dia de venda generalizada nem o ouro escapou. O metal precioso voltou a cair abaixo dos US$ 5 mil a onça, depois de ceder 2,94%.

IA muito cara

Um dos motivos para a mudança de humor dos investidores com as ações de tecnologia vem dos gastos muito acima do esperado em infraestrutura para a IA. O dilema do mercado é que quanto mais alta a aposta, maior pode ser o prejuízo se os ganhos não se tornarem realidade.

As projeções de investimento para 2026 saíram do campo das estimativas e tornaram-se compromissos de balanço. O grupo das “big four” — Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta — planeja despejar entre US$ 635 bilhões e US$ 665 bilhões apenas neste ano.

Para se ter uma ideia da escala, esse valor representa um salto de quase 70% em relação ao ano passado.

O gasto maciço está consumindo o caixa livre. A Meta, por exemplo, trabalha com um recuo de até 90% do fluxo de caixa livre, enquanto a Amazon já trabalha com projeções de fluxo negativo para suportar a expansão.

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Colapso de modelos tradicionais

Enquanto as gigantes gastam, o setor de software corporativo como serviço (SaaS) vive dias difíceis. O motivo? O medo de que a IA não apenas melhore os softwares voltados a automação de empresas, mas o torne desnecessário.

Em um único dia, mais de US$ 300 bilhões em valor de mercado desapareceram de empresas como Salesforce, Adobe e Workday.

O mercado está reprecificando essas empresas. Investidores não estão mais dispostos a pagar caro por modelos de assinaturas de software que podem ser substituídos por agentes autônomos de IA, como os novos lançamentos da Anthropic, avaliada agora em US$ 380 bilhões.

A reviravolta que a IA pode causar não se limita a setores tecnológicos. Mesmo entre modelos do mundo físico, o risco de destruição de valor é elevado. Na logística, por exemplo, o uso de IA pode tornar obsoletos os serviços de corretoras tradicionais de fretes.

No setor imobiliário, o temor é outro: se a IA acabar com empregos em massa, a necessidade de escritórios também vai sofrer.

Estrategistas da Yardeni Research e do Goldman Sachs apontam uma sensação de volta aos mesmos temores que assombraram a bolha pontocom. A diferença é que, no início dos anos 2000, as empresas não tinham lucro. Hoje, mesmo as startups, como a Open IA, têm lucros astronômicos. Mas estão gastando tudo (e mais um pouco) para não serem as próximas vítimas da própria tecnologia.

“A psicologia mudou. Antes a pergunta era ‘como a IA vai me ajudar?’. Hoje é ‘como a IA vai me destruir?'”, reumiu o analista Ross Mayfield, da Baird.

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