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Na contramão do bitcoin, criptomoedas de privacidade sobem até 750% no ano

Esses tokens foram projetados para esconder informações das transações, como remetente, destinatário e valor transferido

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O bitcoin (BTC) e o ethereum (ETH) deram um respiro nesta sexta-feira (28), animando o mercado. Ainda assim, quem investiu no início do ano nessas criptos acumula perdas. Mas um grupo de ativos digitais navega contra a maré: as criptomoedas de privacidade, que registram altas de até 750% em 2025.

Os tokens de privacidade – alguns exemplos são zcash (ZEC), monero (XMR) e dash (DASH) – formam uma categoria projetada para normalmente ocultar informações das transações, como remetente, destinatário e valor transferido, algo que não ocorre nas blockchains públicas da maioria dos outros criptoativos.

Apesar da fama de “quase anônimas”, bitcoin e ethereum, por exemplo, são rastreáveis: qualquer pessoa pode consultar saldos, endereços e movimentações usando um explorador de blockchain (local online onde é possível ver as transações). Ou seja, seu saldo pode estar numa carteira anônima, mas o valor será visível. Já as privacy coins (como esses tokens são chamadas em inglês) usam soluções avançadas para ocultar esses dados.

Uma das técnicas mais conhecidas usadas por elas é o Zero-Knowledge Proof – mais especificamente, o zk-SNARK. O nome assusta, mas a ideia é simples: ele permite provar que uma transação é válida sem revelar nenhuma informação sobre ela. É como demonstrar que você sabe a combinação de um cadeado sem abrir o cadeado, e sem dizê-la a ninguém.

Por que as criptos de privacidade estão subindo?

Uma das principais teses dos analistas para a alta das criptos de privacidade neste ano é que bitcoin e principais altcoins deixaram para trás a aura de anonimato e de tecnologia restrita a um grupo à parte da sociedade, migrando de vez para o mainstream financeiro.

Hoje, o BTC é negociado e custodiado por grandes fundos, bancos e corretoras. Empresas listadas em bolsa, no Brasil e no mundo também mantêm a cripto em caixa. Governos discutem regulamentações e exigências de combate à lavagem de dinheiro se intensificam. Em outras palavras: o bitcoin ficou institucionalizado e rastreável, bem diferente da ideia inicial do misterioso pai da cripto, Satoshi Nakmoto, que idealizava uma cripto sem amarras.

“Essa preocupação com a falta de privacidade está começando e alimentar essa narrativa”, disse. “Eventualmente, acho que a privacidade também será fundamental para proteger os consumidores, por exemplo, até mesmo ativistas que têm que denunciar um regime autoritário em lugares como a Coreia do Norte”, disse Adrian Fritz, estrategista-chefe da gestora 21Shares, numa call recente.

O destaque desse movimento a favor do retorno ao anonimato em cripto é a zcash, que disparou 750% entre janeiro e novembro deste ano. A cripto foi criada em 2016 por um grupo de pesquisadores e criptógrafos liderados pelo programador Zooko Wilcox, fundador da Electric Coin Company.

Segundo relatório da Galaxy Digital, publicado neste mês, “a ascensão do zcash reabriu uma antiga divisão filosófica entre privacidade como direito e transparência como necessidade regulatória, um dilema que o projeto busca há muito tempo resolver”.

Para os defensores da ZEC, explica o relatório, a moeda se posiciona como um tipo de “bitcoin criptografado”, um retorno aos princípios cypherpunk (o primeiro grupo a dar crédito ao BTC), que voltam a ganhar força num momento de ampla vigilância na blockchain.

De olho na disparada da zcash, a gestora de criptoativos Grayscale Investments enviou para a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês), nesta semana, documentos para a criação de um ETF ligado à cripto.

Em estudo publicado neste mês, a Binance afirmou que espera que algumas redes tradicionais comecem a se movimentar para participar desse jogo de anonimato novamente. “À medida que o foco se volta para a privacidade e a confidencialidade, prevemos que as blockchains integrarão a privacidade em sua infraestrutura principal, como o ethereum, estabelecendo um novo cluster de privacidade”.

A monero (XMR), outra cripto representante do grupo, avança 125% no ano, enquanto a dash sobe 55,15%. Para efeito de comparação, o bitcoin cai 1,60% no mesmo período, enquanto o ethereum recua 8,20%.

O lado negativo: privacidade total tem custo

A privacidade também tem um aspecto bem negativo. Se por um lado ela protege pessoas comuns da vigilância financeira e de golpes, por outro pode ser usada para atividades ilegais.

O monero é um dos principais exemplos. Graças à sua privacidade, a cripto se tornou popular entre hackers, golpistas e operadores da dark web. No início deste ano, cinco pessoas se declararam culpadas nos EUA por envolvimento com a FireBunnyUSA, um grupo na dark web que comercializava entorpecentes entre 2019 e 2022. O grupo usava a cripto nas transações para dificultar o rastreamento.

Nos últimos anos, vários países apertaram o cerco contra as moedas de privacidade. O Japão proibiu esses tokens ainda em 2018. Depois, Coreia do Sul e Austrália também passaram a banir privacy coins das plataformas de negociação. Em 2023, Dubai seguiu o mesmo caminho e vetou atividades ligadas a esse tipo de cripto.

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