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Fundos de crédito têm onda de resgates com empresas em crise. E quadro ainda não acalmou

Aumento de resgates em fundos de crédito privado podem levar a mais saques e acentuar o movimento de perdas

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As rachaduras no mercado de crédito privado estão mais aparentes do que nunca. A sucessão de crises recentes, como as recuperações extrajudiciais da Raízen e do GPA (Grupo Pão de Açúcar), o pedido de proteção contra credores na Justiça da Oncoclínicas e os sinais de possíveis (prováveis) reestruturações de dívidas da Braskem e Kora Saúde, colocou investidores em alerta.

O resultado tem sido um volume crescente de resgates de recursos de fundos que investem em títulos de dívida de empresas, como debêntures e certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e do agronegócio (CRA), que formam a classe de ativos de crédito privado.

“Já começaram a acontecer pedidos de resgates generalizados em fundos de papéis tanto incentivados [com isenção de IR] quanto não incentivados”, afirmou ao InvestNews um gestor que pediu para não ser identificado.

Os números ainda não refletem essa saída massiva de dinheiro, porque os resgates levam em torno de 30 dias em média para serem contabilizados no valor das cotas. Isso significa que existe uma grande possibilidade de haver uma queda disseminada nos preços das cotas desses fundos na virada de abril para maio.

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O problema é que essa percepção de perda pode retroalimentar o movimento de saques. Com isso, se os fundos tiverem que vender mais ativos para cobrir as saídas líquidas, podem precisar aceitar ainda mais descontos no mercado secundário, em que são negociados os papéis antes dos vencimentos.

“Aí há mais marcação negativa nas cotas e mais pedidos de resgate, e vira um ciclo de queda de preços que só vai parar quando chegar em um nível em que começa a entrar comprador”, explicou o gestor.

Os dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que entre março e início de abril houve R$ 13,3 bilhões em resgates de fundos de crédito privado.

E não foram apenas as crises de crédito em grandes empresas que azedaram o clima entre investidores.

A Guerra no Irã também gerou ondas de choque que abalaram o mercado. Por causa do conflito, houve uma mudança muito rápida nas perspectivas para juros e inflação, em meio à subida de preços do petróleo, de combustíveis, de energia e de vários insumos, como fertilizantes e alumínio.

O movimento de recuo dos preços dos papéis de renda fixa já começa a aparecer em referências de mercado. Um dos principais, o índice Idex CDI, desenvolvido pela gestora JGP, acompanha o desempenho de uma carteira de títulos de dívida mais negociados no mercado secundário.

Como esses ativos costumam fazer parte dos portfólios de grande parte dos fundos de crédito privado, o Idex CDI pode ser visto como uma espécie de termômetro desse mercado.

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O indicador mostra claramente uma deterioração dos retornos a partir de março, com o começo da Guerra do Irã. A partir do primeiro dia útil após o primeiro ataque dos EUA e de Israel ao país islâmico, a rentabilidade acumulada, que vinha acima do CDI ao longo de 2025 até março, virou.

Desde o início do mês passado, o retorno medido pelo Idex passou a ficar abaixo da referência conservadora da renda fixa. E o movimento se acentuou no início de abril, quando começaram os resgates nos fundos. A rentabilidade do Idex chegou a ficar 3 pontos percentuais abaixo do CDI. No dado da última quinta-feira (9), a diferença estava em 2,3 pontos.

Como o investidor pode se proteger?

A melhor estratégia é sempre ter paciência. O valor das cotas pode cair, como reflexo dos resgates e do cenário desfavorável; mas, no médio e no longo prazos, os efeitos da volatilidade se diluem. Desmontar a posição significa vender na baixa e tornar real o prejuízo.

Com uma eventual melhora do cenário no futuro, o valor das cotas tende a se recompor e pode até superar o nível de preços em que o investidor entrou.

“Agora é a hora de investir, não de sair, né?”, afirma o CEO da Sparta, Ulisses Nehmi. O gestor especializado em crédito privado lembra que a queda vai abrir oportunidades para adquirir ativos com preços mais baixos do que apontam os fundamentos, o que pode trazer ganhos mais à frente.

Isso porque, da mesma forma que o atual cenário de incertezas tem levado a uma marcação negativa para diversos fundos, uma melhora vai impulsionar o valor das cotas.

Essa situação pode ocorrer, por exemplo, com o fim do conflito no Oriente Médio, a melhora das expectativas sobre inflação ou a aceleração do ciclo de cortes de juros.

“Essa volatilidade se reflete lá na cota, que rendeu 90% de CDI, quando era pra ser 100%, dependendo do perfil do fundo, mas você está olhando para uma fotografia e pelo retrovisor”, ressalta o chefe de investimentos (CIO) de crédito da Paramis Capital, Alexandres Fernandes.

“Agora o melhor posicionamento é sentar e aguardar”, acrescenta o gestor. E quem tiver mais tolerância ao risco pode até aproveitar os momentos de quedas mais acentuadas para adquirir mais cotas, olhando para um horizonte de mais de um ano.

“O carrego [ganho por manter os títulos no longo prazo] está favorável, com taxas historicamente altas na renda fixa prefixada e atrelada à inflação.”

Sem crise de crédito

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Apesar do risco de que uma “tempestade perfeita” possa se formar no curto prazo, não há no mercado a expectativa de uma crise no crédito privado ou de liquidez para os fundos de modo abrangente.

Isso porque os gestores tiveram tempo para se precaver antes do agravamento de casos potencialmente mais complicados, como a crise da Braskem. A maior parte dos veículos tem mantido recursos em caixa acima da média histórica, o que reduz a necessidade de ter de negociar ativos com descontos.

“Acho que é um movimento que faz parte do jogo”, avalia Fernandes, da Paramis. Segundo o gestor, “a volatilidade está acima do normal e pode até ficar mais forte, mas, no fim, é um movimento de correção do excesso de queda dos ‘spreads’, algo que perdurou até fevereiro.”

O spread, no caso, é o “prêmio” pago a mais pelos títulos privados em relação aos papéis públicos de prazos semelhantes, que são vistos como mais seguros.

Essa diferença no retorno oferecido pelos ativos alcançou um nível historicamente baixo ao longo de 2025 e início de 2026, por causa da demanda muito elevada pela renda fixa.

Nessa situação, o investidor passou a aceitar prêmios muito baixos, que não refletiam o risco de empresas com fundamentos mais frágeis. E acabaram sendo “pegos no contrapé” pelos casos de recuperação extrajudicial das empresas citadas e pela Guerra do Irã.

“O problema é que, nos último anos, houve uma concentração muito grande de recursos no crédito privado. E isso amplificou os efeitos negativos dos eventos de recuperação extrajudicial”, diz Nehmi, da Sparta.

Segundo ele, houve tanto investidor na renda fixa nos últimos anos que isso potencializou o volume de venda de ativos e de resgate de cotas em um curto espaço de tempo. “Muitas pessoas tentaram sair ao mesmo tempo.”

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