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O bitcoin falhou como “ouro digital”?

Enquanto o ouro disparou mais de 40% nos últimos seis meses, a criptomoeda caiu 30%

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Existe uma narrativa no mercado cripto que sempre teve um certo teto de vidro – e que agora começa a rachar. Se o bitcoin (BTC) é mesmo o tal “ouro digital”, por causa da escassez e do fato de não estar sob o controle de nenhum governo, por que ele vem apanhando justamente quando o ouro de verdade brilha?

Os números ajudam a ilustrar o contraste. Mesmo após uma correção recente, o ouro acumula alta de 40% nos últimos seis meses, impulsionado por compras defensivas e aumento da aversão ao risco. O bitcoin, no caminho oposto, cai cerca de 32% no mesmo período, pressionado por vendas e saída de capital.

Vamos entender essa história.

Por que o bitcoin é comparado ao ouro?

Um dos principais pilares dessa comparação é a escassez. Assim como o ouro, o bitcoin é difícil de “extrair”. Quando o enigmático Satoshi Nakamoto deu vida à criptomoeda, no fim de 2008, determinou no código que apenas 21 milhões de unidades poderiam existir – limite que só deve ser atingido por volta de 2100.

No caso do ouro, a escassez não é definida por um algoritmo, mas pela própria geologia e pelo custo da extração. Encontrar novas reservas exige anos de pesquisa, investimentos elevados e operações bem complexas, muitas vezes em regiões remotas.

Outro ponto é a chamada inflação do ativo, ou seja, a velocidade com que sua oferta cresce ao longo do tempo. Hoje, tanto a inflação do ouro quanto a do bitcoin são semelhantes e ficam abaixo da meta de inflação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), de 2% ao ano. Esse dado é de um artigo de um economista da Universidade Duke, nos EUA.

No caso do ouro, isso acontece porque a quantidade disponível no planeta é limitada, a mineração cresce lentamente e novas descobertas não alteram significativamente o estoque global. No bitcoin, a explicação está no código: a emissão de novas moedas é reduzida a cada quatro anos por meio de um evento programado chamado halving.

Há ainda outra semelhança importante: nenhuma entidade central controla a produção dos dois ativos. O ouro é minerado por centenas de empresas ao redor do mundo; o bitcoin, por milhares de mineradores espalhados globalmente.

Ponto para o bitcoin nessa comparação.

Onde a comparação começa a falhar

É aqui que a criptomoeda começa a se afastar do metal. Para vestir de vez o roupão de “ouro digital”, o bitcoin precisaria se comportar como tal – ou seja, funcionar como ativo de refúgio em momentos de crise. Por definição, um ativo seguro é aquele que mantém ou até aumenta seu valor mesmo quando o mundo entra em modo caos. Não foi o que aconteceu.

Nos últimos seis meses, o noticiário virou uma bagunça: guerra tarifária, conflitos geopolíticos (EUA com Venezuela, Irã, Groenlândia), dúvidas sobre juros nos Estados Unidos, shutdown, temos de crise fiscal no Japão, anúncio de novo presidente do Fed… e por aí vai. Nesse cenário, o bitcoin caiu de US$ 113 mil para US$ 78 mil nesta terça-feira (3).

Em vez de se comportar como ouro, que renovou suas máximas, a criptomoeda passou a agir mais como ações de tecnologia, que também viveram um período de forte volatilidade. A Microsoft, uma das chamadas “sete magnificadas”, recuou quase 20% em cerca de 180 dias.

No ano passado, o mercado chegou a brincar que o bitcoin sofre de uma espécie de transtorno de personalidade: em alguns momentos, posa de reserva de valor; em outros, prefere vestir a carapuça de ativo de risco. Mas a segunda personalidade é mais barulhenta.

É verdade que houve exceções. Em 2023, durante a crise bancária nos Estados Unidos, com a quebra do Silicon Valley Bank, os investidores correram tanto para o ouro quanto para o bitcoin. Mas foi um caso à parte. Na maior parte do tempo, os dois não andam tão juntos assim.

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Volátil – e ainda especulativo

Outro fator que enfraquece a narrativa do “ouro digital” é a volatilidade. Ao longo de seus 17 anos de existência – ainda um jovem, em termos financeiros – o bitcoin já perdeu mais de 70% do valor em diversas ocasiões.

“O bitcoin tem flutuado drasticamente, apesar de sua recente ascensão meteórica, e é aproximadamente quatro vezes mais volátil do que o ouro”, escreveu o economista canadense Campbell R. Harvey, da Universidade Duke, em artigo publicado no fim do ano passado.

Além disso, apesar da entrada de gestoras e empresas listadas, o mercado de bitcoin ainda é fortemente movido por expectativa de valorização. Tem investidor de longo prazo, claro, mas muita gente ainda compra a cripto apostando, basicamente, que ela vai subir.

Bancos centrais guardam ouro – não bitcoin

Por fim, tem um ponto difícil de ignorar: o ouro segue sendo o ativo de reserva dos países. Bancos centrais vêm aumentando suas posições no metal. Hoje, eles detêm 36.492 toneladas de ouro, avaliadas em cerca de US$ 5,85 trilhões, segundo o World Gold Council.

Alguns países até experimentaram criar reservas de bitcoin – seja com ativos apreendidos, seja por compras diretas, como no caso de El Salvador. No total, 10 nacões têm 646.955 mil unidades de BTC, o equivalente a US$ 50 bilhões, de acordo com dados da plataforma Bitcoin Treasuries. Está muito longe de competir com o papel do ouro no sistema financeiro global.

O bitcoin ainda pode virar ouro digital?

Karim Abdelmawla, analista da 21Shares, disse para o InvestNews que a tese até pode se confirmar um dia – mas não no curto prazo. Para isso, o bitcoin precisaria mudar a forma como se comporta em momentos de estresse, como em choques geopolíticos. Além disso, falou, a cripto também teria que alcançar um estágio com menos sobe e desce. “A volatilidade do bitcoin teria de cair de maneira duradoura, e não apenas temporária”.

Por fim, disse o especialista, o privilégio institucional do ouro precisaria enfraquecer marginalmente – o que seria bem difícil momento atual, em que o cenário caminha justamente na direção oposta. “Enquanto os bancos centrais permanecerem compradores persistentes e o ouro mantiver seu status de reserva, o bitcoin não estará competindo em condições de igualdade”, falou.

Veja as cotações das principais criptomoedas às 10h.

Bitcoin (BTC):  +0,59%, US$ 78.217,12

Ethereum (ETH): -0,14%, US$ 2.299,11

XRP (XRP): -2,32%, US$ 1,60

BNB (BNB): +1,04%, US$ 7773,37

Solana (SOL): -0,05%, US$ 103,13

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Outros destaques do mercado cripto

Banco Master e o submundo cripto. Entra dia, sai dia – e sempre surge um novo capítulo envolvendo o Banco Master. A bola da vez: a Polícia Federal investiga a relação da instituição com a One World Services (OWS), uma empresa brasileira de compra e venda de criptos suspeita de lavar dinheiro para grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e até o Hezbollah. Segundo o jornal Folha de São Paulo, o volume movimentado gira em torno de R$ 2,8 bilhões. É muita grana, né?

Treta entre cartórios e blockchain. Há algum tempo, incorporadoras e agentes do mercado imobiliário flertam com a blockchain para registro de imóveis. O motivo é simples: o processo é rápido e barato. Os cartórios, porém, não curtiram nada a ideia e partiram para o ataque. Nos últimos meses, pelo menos quatro estados editaram normas proibindo que a tokenização substitua o registro tradicional em cartório. Do lado cripto, o argumento é de sempre: exagero regulatório que pode frear a inovação e atrasar o avanço tecnológico no setor.

Ela não cansa de comprar bitcoin. Se existe uma empresa listada em Bolsa que ama bitcoin, essa empresa é a americana Strategy. Entra semana, sai semana – e lá vai ela aumentar o caixa em cripto. Em comunicado divulgado ontem, a companhia informou a compra de mais 855 bitcoins, um desembolso de US$ 75,3 milhões. Com isso, a Strategy agora soma 713.502 BTC, avaliados em cerca de US$ 55 bilhões. Para ter ideia do tamanho: é mais do que o valor de mercado da Ambev.

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