Essa operação vai englobar todo o crédito obtido pela produtora de açúcar e etanol nos últimos anos, incluindo debêntures e certificados de recebíveis do agronegócio (CRA).
O plano que está sendo desenhado prevê ainda que parte dos 55% restantes da dívida de R$ 65 bilhões seja amortizada por meio de recursos de uma capitalização via emissão de dívida, pela venda de ativos e pela injeção de capital novo por parte dos acionistas principais, Shell e Rubens Ometto.
O que está sendo discutido em relação às dívidas que permanecerem em aberto são um alongamento de prazos e, eventualmente, a redução de taxas de remuneração. “Não há proposta de desconto, por enquanto.”
A perspectiva do mercado é que o plano seja aprovado e homologado pela Justiça até o início de agosto. A Raízen tem até 8 de junho para apresentar a proposta consolidada, mas pode pedir uma extensão de até 90 dias nesse prazo.
Se o plano for finalizado no prazo inicial, a Justiça concede mais 30 dias para que os credores analisem e se manifestem caso não concordem com algum ponto. E, se houver objeções, a devedora vai ter mais 5 dias para rebaterem as tentativas de impugnação.
Como se trata de um processo complexo e com muitas partes interessadas, o juiz pode decidir pela extensão do prazo mesmo se não houver uma solicitação formal para que devedores e credores possam chegar a um consenso.
Segundo a fonte, uma questão que pesa a favor da Raízen é o fato de que a companhia solicitou a recuperação extrajudicial antes de chegar a uma situação operacional e financeira muito frágil.
“Na nossa cultura empresarial, o mais comum é a companhia procurar uma proteção legal quando não tem nem mais dinheiro para pagar o dia a dia. A Raízen nesse ponto foi diferente e tem uma grande possibilidade de realizar um trabalho efetivo de recuperação.”
A conversão da dívida em ações, dentro da possibilidade de que, após o processo de recuperação extrajudicial, a produtora de etanol e distribuidora de combustível volte aos trilhos, ajudaria os credores a reduzirem ou até mesmo evitarem grandes perdas.
“Essas ações, de início, talvez valham pouco, mas depois podem até superar o valor original da dívida convertida, dependendo das negociações finais”, avaliou a fonte.
Simulações sobre a dívida da Raízen
Simulações feitas pela XP mostram que, caso as condições já divulgadas sejam oficializadas, a companhia pode sair da recuperação extrajudicial em uma situação financeira bem mais tranquila.
Segundo os cálculos da corretora, com um aporte de R$ 4 bilhões e uma conversão de 40% da dívida em ações, o endividamento medido pela relação entre dívida líquida e o Ebitda (métrica de geração operacional de caixa) sairia de preocupantes 5,3 vezes para 2,1 vezes.
A dívida líquida, por sua vez, cairia para menos da metade: de R$ 53,2 bilhões para R$ 22,3 bilhões.
Mesmo antes da recuperação extrajudicial, a Raízen tinha um nível controlado em termos de pressão de vencimentos de dívidas. Em dezembro de 2025, a empresa tinha um caixa de R$ 17,3 bilhões, além de linhas de crédito de R$ 5,5 bilhões, em um total de quase R$ 23 bilhões.
Os vencimentos de dívidas até 2027, por sua vez, alcançam R$ 9,4 bilhões, montante que pode cair, pelo menos, para R$ 5,2 bilhões se o plano for aprovado nas condições que tem sido ventiladas. A maior concentração de vencimentos da Raízen ocorre entre 2029 e 2030, com R$ 45 bilhões a pagar. Com a recuperação extrajudicial, esse montante pode cair, pelo menos, para R$ 25 bilhões.
Após o plano consolidado, com as propostas já negociadas e aprovadas pelos representantes do credores, as condições vão ser apresentadas aos detentores de debêntures e CRAs da companhia.
As empresas securitizadoras dos certificados e os agentes fiduciários das debêntures vão depois chamar assembleias dos detentores dos títulos para votar o plano, que precisa ser aprovado por mais de 50% dos titulares ou procuradores.
Caso as propostas que estão sobre a mesa sejam aprovadas, os credores passarão a deter cerca de 70% das ações da Raízen.
Os CRAs e as debêntures da empresa de energia têm sido negociados no mercado secundário com descontos de mais de 60% e, para os credores, segundo a fonte, a conversão da dívida pode representar uma chance maior de evitar um desconto desse tamanho.
