É aí que mora o perigo. Títulos que oferecem retornos tão atrativos também embutem riscos muito elevados. É como no mundo dos CDBs, ou de qualquer outro título: os emissores precisam oferecer taxas altas para compensar as vulnerabilidades à quais o próprio negócio está exposto. Em uma situação desfavorável, a companhia pode atrasar os pagamentos ou, no pior dos cenários, não pagar – e nesses casos sem o bote salva-vidas do FGC.
Esses títulos são chamados no mercado de high yield, ou seja, papéis que embutem retornos tão elevados quanto seus riscos. E têm aparecido mais do que nunca nas plataformas de investimentos.
Há no mercado papéis como certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e do agronegócio (CRA) que, mesmo isentos de IR, têm sido negociados no mercado secundário com taxas de IPCA+16%, caso do CRAs com vencimento em 2030, da FS Florestal, e outro com prazo até 2029 da JF Citrus. Algo como 135% do CDI, se usarmos o IPCA de 2025, que ficou em 4,2%.
Em tempo: o mercado secundário é o dos títulos “usados”, onde o detentor vende os papéis que quer passar para a frente antes do vencimento. Para isso, em geral, o vendedor precisa oferecer um desconto no preço do papel, que se traduz em uma taxa maior de retorno para quem compra. Na prática, quanto maior o rendimento oferecido, maior o desconto.
O levantamento com base nos dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostra ainda, pelo menos, 350 certificados que têm sido negociados com taxas acima entre 10% e 16% acima da inflação ao ano.
Nessa lista, misturados às grandes empresas em dificuldades financeiras e operacionais, como Braskem e Raízen, aparecem nomes como GJA Industrial, Cereal, Nardini Agroindustrial, Usina Cerradão, BCBF Participações, Caramuru Alimentos, Vamos Locação, Olfar, Ultra Som Serviços Médicos, J Macêdo, Lar Cooperativa, São Salvador, Norsa, Neomille, Adubos Araguai, GDM Genética e outras.
E o que esse grupo tem em comum? A maior parte são de companhias que até alguns anos atrás tinham pouco ou nenhum acesso ao mercado de capitais. Há um crescente número de empresas de menor porte que passaram a buscar financiamentos por meio de emissões de títulos de dívida, como debêntures, CRI, CRA e outros instrumentos.
Essa nova realidade tem sempre dois lados: em um cenário macroeconômico favorável, o investidor pode aproveitar taxas mais elevadas que aquelas pagas pelo Tesouro Direto; por outro lado, quando os fundamentos pioram, as chances de as empresas mais vulneráveis ficarem sufocadas financeiramente aumenta e, com isso, sobem as chance de calotes.
O ano passado, por exemplo, ficou marcado por um grande número de recuperações judiciais de pequenas empresas do agronegócio. Os dados mais recentes da Serasa Experian mostra que em 9 meses de 2025 houve 1.582 pedidos de recuperação judicial por empresas do agro.
Foi um crescimento de 66,2% em comparação com o mesmo período de 2024. A maior parte das solicitações ocorreu entre companhias de pequeno porte. “Os números evidenciam um período mais desafiador sobre a capacidade de produtores rurais e empresas do setor manter seus fluxos de caixa e pagamentos”, avalia Marcelo Pimenta, chefe de agronegócio da Serasa Experian.
Nesse cenário, investidores de vários Fundos de Investimento na Cadeia do Agronegócio (Fiagro) amargaram prejuízos. Entre 2024 e 2025, vários Fiagros enfrentaram casos de inadimplência de CRAs em suas carteiras, como os emitidos pela Três Irmão, Castilhos, Mitre, Agrogalaxy e Usina Ester.
O que aconteceu com as emissoras dos certificados é um exemplo do risco que tem de ser levado em conta antes de entrar em qualquer investimento do gênero.
As companhias enfrentaram uma piora rápida do cenário, com deterioração das condições de crédito no agronegócio e safras abaixo do esperado. Isso resultou no aumento dos pedidos de recuperação judicial de produtores e empresas da cadeia e, como consequência, mais restrições de crédito para o segmento.
‘High yield’ é para quem pode
Cesar Mindof, diretor da Anbima, enfatiza que o aumento do número de empresas menores e de perfis mais variados mostra que existe um processo de democratização do acesso ao financiamento por meio do mercado de capitais. “É um movimento que está só começando. É cada vez maior a participação de pequenas e médias empresas, como as organizações limitadas e de capital fechado.”
O dirigente, porém, reconhece que os investidores do varejo precisam ter cuidado com ofertas que parecem boas demais. Fica difícil para qualquer indivíduo analisar os fundamentos das empresas e a solidez das estruturas securitizadas ou sem garantias, caso da maioria das debêntures.
“É mais difícil para a pessoa física entrar em nomes mais high yield”, alerta Mindof. O diretor da Anbima acredita que o papel de avaliar esse tipo de papel cabe aos gestores profissionais e suas equipes. “O mercado profissional aprendeu a medir e entrar em operações high yield e isso tem permitido o crescimento desses instrumentos.”
Regulação levou mercado a buscar risco
Amanda Martins Ribeiro, sócia e co-fundadora da Canal Securitizadora, explica que o cenário regulatório também têm influenciado no aumento do risco médio dos emissores. O Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu entre 2024 e 2025 uma série de mudanças nas exigências para o mercado de CRIs e CRAs. Com isso, as empresas não ligadas diretamente aos setores imobiliário e agro ficaram proibidas de emitir os certificados.
Até 2024, havia uma interpretação bem mais flexível sobre quais garantias podiam ser usadas como lastro nos CRIs e CRAs. Isso criava uma espécie de “farra” dos certificados.
Grandes grupos sem nenhuma relação com os setores incentivados usavam as estruturas para captar bilhões de reais. Por exemplo, as companhias usavam até contratos de aluguéis para emitir CRIs. Na prática, qualquer grupo que estivesse locando um espaço comercial podia fazer esse tipo de emissão. Esses papéis foram apelidados de “CRI de aluguel”.
Houve também um excesso de flexibilidade de critérios em relação aos CRAs. Companhias totalmente alheias ao setor, como Burguer King e Magazine Luiza, lançaram certificados do agronegócio. Essa farra acabou em meados de 2024 após o CMN restringir o tipo de lastro que poderia se utilizado nas operações. E, um ano depois, em maio de 2025, o CMN proibiu de vez que qualquer empresa sem ligação direta com as áreas imobiliária e agro pudesse emitir esses produtos.
As captações, porém, continuaram fortes, mesmo com a restrição de perfil e lastro. O que ocorreu foi a substituição dos emissores tradicionais por empresas menores, muitas que nem usavam o mercado de capitais para se financiar. “Passamos a pegar riscos maiores de empresas menores, mas com cuidados redobrados e estruturas mais robustas e com muita transparência”, ressalta Ribeiro.
Conforme a sócia da Canal, os certificados passaram a sair com mais garantias atreladas. “Quase todos têm garantia real e a maioria costuma colocar como lastro três ou quatro garantias.”
