O movimento, aliás, levou o GPA a entrar na Justiça para proibir que seu antigo controlador vendesse mais ações da empresa. Antes da liminar, proferida em 17 de abril, o Casino havia realizado a venda em bloco de pouco mais de 2% das ações do GPA, avaliadas em cerca de R$ 22 milhões, levando a participação do grupo francês de 22,5% para 20,4%.
A decisão representa uma virada estratégica para o grupo francês. Em setembro do ano passado, durante a visita de Philippe Palazzi, CEO do Casino, ao Brasil, interlocutores próximos à varejista disseram ao InvestNews que não havia pressa para vender as ações do GPA.
O argumento era que ainda existia um “valor significativo travado no preço de tela” e que o ativo gerava interesse recorrente de compradores estratégicos. Sete meses depois, a leitura interna do Casino mudou.
Novos acionistas
A mudança de tom coincide com a consolidação da família Coelho Diniz e do bilionário Silvio Tini no conselho do GPA. Depois de chegarem a 24,6% do capital em agosto de 2025, os mineiros elegeram André Coelho Diniz presidente do colegiado em outubro.
Tini, por sua vez, entrou no quadro de forma acelerada: desde fevereiro, sua holding, a Bonsucex, chegou a cerca de 24% das ações do grupo varejista, consolidando-se como segundo maior acionista do GPA.
Sem peso no board e com dois investidores de peso ditando os rumos da empresa, a fatia francesa perdeu o poder de barganha que ainda tinha. “Hoje a participação do Casino no GPA não tem mais o mesmo ‘sex appeal‘”, admite uma das fontes.
A vontade do grupo francês, prossegue uma das fontes, é sair de vez da América Latina, completando o movimento que já levou o grupo a vender ativos no Uruguai, na Argentina e na Colômbia. Pessoas próximas ao grupo francês hoje admitem que a participação no GPA passou a ser “marginal” diante da escala da reestruturação na França, onde a varejista fechou 2025 com dívida líquida de € 1,5 bilhão.
O turnaround promovido desde 2024 pelo bilionário tcheco Daniel Krestinsky diluiu os antigos acionistas e tirou o controle de Jean-Charles Naouri, controlador histórico do Casino.
Os movimentos recentes do GPA, da liminar à arbitragem, passando pela discussão sobre a remoção da cláusula de poison pill do estatuto, é vista como uma pressão para que o Casino tenha que vender os papéis com um desconto ainda maior — hoje, a participação do Casino no GPA vale cerca de R$ 240 milhões.
A retirada do dispositivo, que obriga oferta pública a quem ultrapassar 25% do capital, abriria caminho para que a família Coelho Diniz ou Tini consolide o controle sem o custo de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA).
Liminar travou estratégia
A reação judicial do GPA, no entanto, não trata apenas da venda dos papéis. A liminar se conecta a uma arbitragem na Câmara de Comércio Internacional, referente a um auto de infração da Receita Federal sobre dedução de ágio no Imposto de Renda entre 2007 e 2013, período que marcou a transição entre a família Diniz e o Casino no controle do GPA.
A varejista brasileira sustenta que, se perder na Receita, tanto o Casino quanto a Península Participações, holding da família de Abílio Diniz, fundadora do grupo, devem ser responsabilizados pelo passivo, já que ambos exerceram o controle no período em disputa.
Em abril do ano passado, o grupo francês retirou as garantias que oferecia no processo, alegando sua recuperação judicial na França. A varejista discordou.
A liminar obtida no mês passado virou a forma de reter os recursos em uma conta judicial até que o julgamento do Fisco seja finalizado. O passivo tributário deste caso é estimado em mais de R$ 2,5 bilhões.
