Chinesas Keeta e 99Food desafiam a supremacia do iFood no delivery brasileiro

O Cade freou práticas do iFood consideradas abusivas e abriu espaço para a entrada de concorrentes poderosas

O iFood reina quase sozinho no delivery de comida no Brasil. Com 83% do mercado, 55 milhões de usuários ativos e mais de 200 milhões de pedidos por mês, a empresa construiu uma muralha em torno de si, derrubando rivais como Uber Eats, Glovo e até a primeira tentativa da 99Food. Mas essa supremacia, que parecia inabalável, agora enfrenta a maior ameaça de sua história.

Duas gigantes chinesas — Meituan, a maior plataforma de delivery do mundo, que estreia no país com a marca Keeta, e a própria Didi, dona da 99Food, que volta depois de ter fracassado em 2022 — chegam com bolsos fundos e disposição para queimar bilhões de reais em descontos, subsídios e tecnologia. O plano é conquistar restaurantes, atrair entregadores e seduzir consumidores com preços baixos e logística turbinada por algoritmos.

Mas o iFood também não é um player local isolado: ele integra hoje o portfólio da Prosus, um dos maiores fundos de tecnologia do mundo, chefiado pelo brasileiro Fabricio Bloisi.

O embate abre um novo capítulo no setor, com impacto direto para restaurantes que vivem de margens apertadas (a maioria) e milhões de brasileiros que já incorporaram o delivery à rotina. A muralha do iFood pode resistir. Mas, pela primeira vez, há rivais com munição suficiente para tentar rachá-la e, ao mesmo tempo, restrições regulatórias que favorecem o aumento da concorrência.

O império do iFood

A história do iFood começa em 1997, quando São Paulo conheceu o Disk Cook, um catálogo impresso de cardápios de restaurantes. Era um guia físico com distribuição em faculdades e escritórios, onde consumidores ligavam para uma central telefônica que repassava os pedidos aos restaurantes. O modelo durou pouco, mas deixou a semente de um setor que só ganharia escala anos depois, com a internet e os smartphones.

Em 2011, quatro jovens empreendedores — Patrick Sigrist, Eduardo Baer, Guilherme Bonifácio e Felipe Fioravante — transformaram essa ideia em plataforma digital. Nascia o iFood, primeiro como site, depois como aplicativo. O objetivo era centralizar a operação, incentivar pedidos pelo celular e aumentar a escala.

A grande virada veio em 2013, com a entrada da Movile, holding brasileira de tecnologia liderada por Fabrício Bloisi. A Movile injetou capital e imprimiu estratégia agressiva de crescimento, comprando concorrentes e ampliando a base de restaurantes. Pouco depois, a britânica Just Eat também entrou como investidora, trazendo dinheiro e experiência global. Essa combinação deu ao iFood o que precisava: caixa para bancar promoções e visão de longo prazo.

O modelo seguido foi o mesmo das grandes empresas de tecnologia: crescer primeiro, lucrar depois. Isso significava gastar pesado em marketing, bancar descontos agressivos e oferecer taxas iniciais atrativas a restaurantes. Mas também significava eliminar rivais. Com a entrada da Just Eat, o RestauranteWeb foi fundido ao iFood. Depois, marcas como PedidosJá e HelloFood também foram parar no carrinho de compras da plataforma.

O iFood também investiu pesado em tecnologia. Cada pedido virava informação: qual prato vende mais em determinado bairro, quais horários concentram demanda, quanto cada cliente gasta em média. Essa inteligência foi usada para estruturar promoções, melhorar a logística e fidelizar restaurantes. Ao mesmo tempo, a empresa construiu uma rede própria de entregadores, inicialmente informais, depois regulada por diferentes programas de parceria.

O resultado foi uma posição quase monopolista. Hoje, o iFood tem 83% do mercado brasileiro, segundo a empresa de inteligência de dados Measurable IA. São 55 milhões de usuários, 200 milhões de pedidos por mês, 360 mil entregadores cadastrados e presença em 1.500 cidades. É uma escala difícil de replicar.

Essa hegemonia esmagou concorrentes que, em teoria, tinham todas as condições de disputar espaço. A espanhola Glovo desembarcou no Brasil em 2018 prometendo entregar “qualquer coisa” em minutos. Investiu pesado em marketing, mas desistiu em 2019, incapaz de enfrentar a força do iFood. O Uber Eats, talvez o rival mais temido, encerrou as operações de restaurantes em 2022, admitindo que o negócio não era sustentável. O colombiano Rappi sobreviveu, mas mudou o foco para entregas de mercado e farmácia. A primeira tentativa da 99Food, lançada em 2019 pela chinesa Didi, também fracassou. Mesmo com recursos da matriz, não conseguiu tração e fechou as portas em 2022.

Parecia que o iFood havia vencido a guerra. Mas apareceram brechas na muralha construída pela plataforma.

O pedido do Cade

O primeiro grande abalo à supremacia do iFood não veio de rivais, mas da regulação. Em 2023, o Cade concluiu que os contratos de exclusividade firmados pela empresa com restaurantes eram prática abusiva. O iFood foi obrigado a limitar a duração e o alcance desses contratos, o que abriu espaço para concorrentes oferecerem alternativas.

Entregadores da Meituan na China. Foto: Getty Images

Foi nesse contexto que a Didi decidiu ressuscitar a 99Food. Diferente da primeira tentativa, a volta veio acompanhada de um plano robusto: R$ 1 bilhão em investimentos, promessa de taxa zero para restaurantes por até dois anos e garantia de renda mínima para entregadores. A grande aposta é a integração com o aplicativo de transporte 99, que já conecta milhões de motoristas e passageiros. A ideia é usar essa base para alavancar a operação de delivery, criando sinergia entre transporte de pessoas e de comida.

Mas é a chegada da Meituan que eleva a disputa a outro patamar. A empresa chinesa é simplesmente a maior plataforma de delivery do mundo, com mais de 700 milhões de usuários ativos mensais na China e presença relevante em mercados como Hong Kong e Arábia Saudita. No Brasil, estreia com a marca Keeta e um plano ambicioso: investir US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,6 bilhões) em cinco anos.

A estratégia inclui subsídios generosos para restaurantes, bônus para entregadores e até a promessa de trazer para cá inovações já testadas na China, como entregas por drones. A Meituan deixa claro que não entra em mercados para ser coadjuvante. Sua meta é disputar a liderança, mesmo que isso signifique perder dinheiro no curto prazo.

O embate começou até antes de a disputa comercial ganhar corpo. A 99 e a Keeta já se enfrentam na Justiça. A 99 acusa a rival de copiar identidade visual e confundir consumidores. A Keeta rebateu dizendo que a 99 mantém práticas restritivas ao limitar restaurantes a operar em poucas plataformas. A guerra está apenas começando, e já ultrapassa os aplicativos para chegar ao campo jurídico.

O iFood, por sua vez, não ficou parado. A empresa anunciou novos pacotes de investimentos para fortalecer o aplicativo, aumentar a frequência de compras e fidelizar restaurantes. Também ampliou iniciativas em mercados adjacentes, como entregas de supermercado e farmácia.

O banquete em disputa

O delivery brasileiro movimenta bilhões de reais e afeta diretamente três grupos: consumidores, restaurantes e entregadores.

Para consumidores, a guerra pode significar promoções agressivas e serviços mais eficientes. O histórico mostra que, quando grandes players disputam espaço, o preço cai. Se 99Food e Keeta cumprirem a promessa de subsídios bilionários, os usuários terão um período de ofertas abundantes. Mas a dúvida é o que acontece depois, quando os incentivos diminuírem.

Para restaurantes, a concorrência traz alívio e risco. Por um lado, tende a significar redução das taxas cobradas e mais opções para diversificar as parcerias. Por outro, exige adaptação a diferentes plataformas, com impactos na gestão e na operação. Muitos estabelecimentos hoje dependem do iFood para sobreviver. A chegada de novos concorrentes pode aumentar o poder de barganha, mas também exigir investimentos em integração tecnológica.

Para entregadores, a promessa é de melhores condições de remuneração, com garantias de renda mínima e bônus. Mas a disputa também pode levar a novos conflitos trabalhistas. O modelo de trabalho por aplicativo já foi alvo de protestos e de discussões judiciais sobre vínculo empregatício. A chegada retumbante das plataformas chineses pode reavivar esse debate.

Investidores também acompanham de perto. Se a Keeta e a 99Food conquistarem espaço, será a prova de que até monopólios consolidados podem ser desafiados. Se o iFood resistir, reforçará sua imagem como caso raro de empresa local capaz de resistir aos ataques de gigantes internacionais.

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