Agora, porém, o controlador, CEO e chairman da CSN parece ensaiar um estilo menos arrojado. Ou, ao menos, ajustar o discurso para que ele soe melhor aos ouvidos dos investidores.
Na quinta-feira, 15, a siderúrgica anunciou um plano para levantar até R$ 18 bilhões com a venda de participações em ativos e, assim, domar — “de uma vez por todas” — a relação pouco equilibrada entre dívida líquida e Ebitda de seu principal negócio. “Nunca nos comprometemos de maneira tão objetiva e pragmática para que isso ocorresse”, afirmou Steinbruch em teleconferência com analistas ao explicar o plano de desalavancagem.
“Vamos nos adequar à realidade necessária para permitir que os empreendedores que ainda existem no Brasil possam continuar trabalhando de forma menos arriscada”, prosseguiu o empresário, agora convertido ao discurso da gestão mais austera e do liability management — práticas que, historicamente, nunca combinaram com seu estilo de fazer e fechar negócios.
Num primeiro momento, a mensagem do controlador não empolgou o mercado. As ações da CSN fecharam o pregão de quinta-feira em queda de 3,1%, em um dia de desempenho positivo do Ibovespa. Ainda assim, o papel acumula alta de 24,8% nos últimos 12 meses; numa janela mais longa, de cinco anos, a queda é de 71%.
Parte do ceticismo passa também por governança e por um tema sensível nos arredores do comando da companhia: a sucessão. Aos 72 anos, Steinbruch segue como o centro gravitacional do grupo, o que dá agilidade às decisões, mas também eleva o chamado key man risk na avaliação de investidores.
“A CSN é muito personificada. Quando o plano depende de vender ativos, negociar com regulador e ainda tocar uma operação cíclica, o mercado sempre se pergunta: quem garante a execução e a continuidade se o comandante muda de repente?”, diz um gestor ouvido pelo InvestNews.
Para esse investidor institucional, não basta anunciar um plano ambicioso ou um discurso mais alinhado. A confiança do mercado só vai aparecer quando ficar claro como esse plano será executado e quem, de fato, vai colocar a estratégia em prática no dia a dia.
Uma CSN mais leve
A CSN tenta atacar um dos pontos que mais incomodam o mercado há anos: a alavancagem elevada, que recorrentemente flerta com os limites previstos nos contratos de dívida – os chamados covenants. Desta vez, a promessa é buscar uma solução mais estrutural, e não apenas paliativa, como tem sido comum nos últimos anos.
Um exemplo desses paliativos ocorreu nas últimas semanas de 2025, quando a CSN concluiu a venda de uma fatia da MRS Logística para a subsidiária CSN Mineração, em duas transações que, somadas, movimentaram R$ 3,95 bilhões. A operação “CSN com CSN” funcionou, na prática, como uma transferência de liquidez dentro do próprio grupo.
A explicação é que a mineradora tinha caixa robusto e menor endividamento, o que permitiu que atuasse como fonte de recursos para a controladora num momento em que a siderúrgica buscava fechar o ano com alavancagem próxima de 3 vezes.
Pelos dados mais recentes disponíveis, referentes ao terceiro trimestre do ano passado, a dívida líquida da companhia equivalia a 3,14 vezes seu resultado operacional (Ebitda). Esse reforço de caixa bilionário já foi incorporado aos números de 2025, que serão divulgados em breve, e não entra no cálculo do plano de desalavancagem anunciado na quinta-feira.
Agora, sob o novo plano de redução do endividamento, a meta é chegar ao fim de 2026 com uma alavancagem entre 2 vezes e 1,8 vez, considerando também ganhos operacionais. Em um horizonte mais longo, de oito anos, o objetivo da CSN é atingir a relação de 1 vez dívida líquida/Ebitda.
Para isso, a companhia planeja vender o controle da CSN Cimentos – uma aposta que perdeu força após a tentativa de compra da concorrente InterCement não avançar – e a negociação de uma participação minoritária, mas relevante, na unidade de Infraestrutura. Os ativos devem ser colocados à venda ainda em janeiro, com expectativa de assinatura de acordos vinculantes entre o terceiro e o quarto trimestres.
No pano de fundo das decisões da CSN, há um mercado menos tolerante a histórias de “alto risco”. Em comentário recente, a agência de classificação de risco Fitch afirmou que a maior volatilidade no Brasil, após reestruturações de grande repercussão, aumentou o escrutínio sobre emissores high yield — empresas com maior risco de crédito e que, por isso, pagam juros mais altos para captar recursos.
Nesse ambiente, o acesso a financiamento fica mais restrito e a execução de vendas de ativos se torna mais difícil — um diagnóstico que dialoga diretamente com o timing e, sobretudo, com a capacidade de execução do plano da CSN.
Bloco de infraestrutura
Para o comando da CSN, será possível arrecadar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões apenas com a venda de participações nos negócios de cimento e infraestrutura, afirmou o CFO da companhia, Marco Rabello. “E pode ser até mais do que isso”, disse.
No desenho da vertical de infraestrutura, a CSN pretende vender uma participação “relevante”, mas mantendo o controle, em veículos que reunirão ativos ferroviários, portuários e multimodais.A companhia estruturou o processo de venda em blocos.
O cluster Sudeste, mais maduro, deve ser o primeiro a ir ao mercado e reúne quatro ativos: a participação total do grupo CSN na MRS Logística (cerca de 30% do capital) e três operações ligadas à logística e portos — incluindo um terminal de contêineres, um terminal associado a granéis como minério, carvão e coque e uma operação de transporte rodoviário.
O bloco de ativos localizados no Nordeste, que inclui a operação no Porto de Pecém, ficaria para uma etapa seguinte. Esse cluster reúne dois ativos ferroviários e um terminal privado – uma parte que, segundo os executivos, já tem obras compromissadas e cronograma próprio.
A tese para essas vendas é dupla. De um lado, a CSN sustenta que se trata de uma plataforma com perfil mais resiliente e margens elevadas. De outro, argumenta que os ativos são “tremendamente vinculados” à mineração, o que explicaria por que a operação deve ser estruturada como venda minoritária na holding, e não como uma negociação individual dos ativos.
Na fotografia financeira, o segmento de infraestrutura vem crescendo com margem de Ebitda na casa de 40% (em alguns períodos, perto de 50%). A promessa é destravar a expansão com demanda já contratada e projetos brownfield – ampliações de ativos já existentes – e, ao mesmo tempo, usar a venda parcial da divisão para “equilibrar” o portfólio e reduzir o risco no balanço.
Solução ‘num tiro só’
O segundo pilar do plano é mais agressivo: a venda do controle da CSN Cimentos. Até pouco tempo atrás, a subsidiária era apresentada como o embrião de uma “super cementeira” – tese que não se materializou.
Nem mesmo o IPO ensaiado anos atrás encontra tração em um mercado que tem mais de quatro anos sem abertura de capital. Ainda assim, segundo a companhia, a CSN tem recebido sinalizações de interesse em uma transação privada, com múltiplos considerados atrativos justamente por se tratar de venda de controle.
A CSN Cimentos é descrita pela empresa como a principal plataforma integrada do setor no Brasil, com capacidade instalada de 17 milhões de toneladas por ano, sete plantas integradas, rede própria de distribuição e terminais logísticos, além de projetos greenfield (novas plantas) somando mais de 12 milhões de toneladas anuais e iniciativas brownfield em estágio avançado.
A venda mais relevante do negócio também teria impacto direto na redução da dívida do grupo. A unidade atravessa um ciclo de recuperação e expansão, com o Ebitda passando de R$ 783 milhões em 2022 para R$ 1,36 bilhão no acumulado de 12 meses até o terceiro trimestre de 2025, segundo os dados mais recentes.
Foi nesse contexto que Steinbruch cunhou, em teleconferência com analistas, a frase que virou a síntese do plano: “Na minha opinião, o cimento resolve sozinho a nossa questão do endividamento” – movimento que a companhia pretende executar, nas palavras dos executivos, “num tiro só”.
Mas a busca da CSN por sócios estratégicos não é uma novidade. No fim de 2024, o conglomerado de Steinbruch vendeu 9,26% da CSN Mineração para o grupo japonês Itochu, que pagou cerca de R$ 4,4 bilhões pela fatia. Nem assim o negócio foi suficiente para conter a alavancagem.
Sócios estrangeiros
Se cimentos e infraestrutura aparecem como a “cura” para o endividamento alto, a siderurgia entra nos planos de médio prazo — sobretudo como frente para retomar investimentos.
A CSN afirmou que pretende buscar alternativas e parcerias estratégicas para modernizar a operação e fazer com que o negócio volte a gerar um fluxo de caixa “mais compatível” com o tamanho do ativo, sem disputar capital com mineração e infraestrutura.
Steinbruch foi particularmente direto ao enquadrar o problema como estrutural e setorial — com exceção do Nordeste: “As siderúrgicas do Sudeste precisam se atualizar, foram feitas no século passado. Precisamos passar por investimentos mais fortes e buscar como fazer isso com parceiros asiáticos e europeus”, afirmou.
Medidas de defesa comercial mais duras por parte do governo brasileiro podem trazer algum alívio ao setor. A siderurgia nacional vem reduzindo investimentos diante do avanço do aço importado da China. Em 2025, a produção caiu mais de 2%, segundo o Instituto Aço Brasil, entidade que representa as empresas do setor. Para 2026, a projeção é de nova retração, de 2,2%.
Ainda assim, para Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital, isso não resolve o problema central da CSN. “Mesmo com algum vento a favor no setor, o investidor quer ver desalavancagem entregue, porque o ciclo muda rápido”, afirma.
Gerando margem
A CSN tem repetido que mineração, siderurgia e energia são os motores de um “novo ciclo” do grupo e, por isso, não integram o pacote de venda de ativos. Na teleconferência, a administração classificou esses negócios como segmentos de margens elevadas — entre 30% e mais de 40% — e afirmou que eles sustentariam a ambição de dobrar o Ebitda em até oito anos.
A mineração, em particular, foi apresentada como avenida de crescimento, e não como “bala de prata” para venda de participação, como o mercado já especulou em outros momentos. A empresa afirmou não ter aprovação do conselho para nova alienação de fatia na CSN Mineração e indicou intenção de manter sua participação em torno de 70%.
O argumento é que a prioridade é acelerar projetos de maior rentabilidade e migrar para a oferta de minério de qualidade superior. A CSN disse que pretende elevar a produção de minério de ferro para até 65 milhões de toneladas por ano até 2030. Na apresentação, ressaltou que a expansão da mina P15 pode adicionar cerca de R$ 4 bilhões por ano ao Ebitda e reiterou a ambição de ampliar a produção ao longo da década.
O segmento de Energia também foi “carimbado” como ativo a ser mantido, por reduzir risco, trazer previsibilidade aos resultados e gerar ganhos de custo via autoprodução — além de potencial de crescimento com fornecimento para terceiros.
Em um ambiente de juros elevados, o negócio chegou a ser apontado por diversos agentes de mercado como candidato natural à reciclagem de portfólio. A CSN, no entanto, escolheu o caminho oposto, tratando energia como amortecedor do ciclo e suporte operacional.
Com a meta de vendas agora sobre a mesa, Steinbruch tenta convencer os investidores de que o plano tem uma segunda perna: a da execução operacional. Segundo ele, a CSN vem “trabalhando fortemente” para atacar a queima de caixa e “fechar o ralo”, por meio de cortes de custos e melhora de margens.
Entre as frentes citadas está a redução dos estoques, hoje em torno de R$ 12 bilhões entre matérias-primas, produtos em elaboração e produtos acabados. Trata-se de capital empatado que, na visão do controlador, precisa cair para aliviar o caixa e dar fôlego ao plano – nada trivial – de transformar a CSN em um grupo menos arriscado.
